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Cavar um buraco para ganhar visibilidade

Paola Junqueira

Há dias estou para escrever sobre a mostra Mão Dupla, em cartaz no Sesc Pinheiros, aqui em São Paulo, até julho. Estive na abertura da exposição, gostei de vários dos trabalhos e tive até a impressão de que passou aquela fase “instalação” das artes contemporâneas. Houve um momento em que qualquer coisa era intervenção ou instalação. Nesta mostra são várias as instalações e intervenções, mas é como se fosse tudo em duas oitavas abaixo. Não me explico bem, a Bienal deve comprovar ou destruir a tese, veremos.

Conversei com a artista plástica Paola Junqueira. Ela morou muitos anos na Suíça e Inglaterra e agora retorna ao Brasil com o projeto dos buracos. Paola me explica que ela cava buracos durante 24 horas de trabalho, quatro horas por dia, das 10h às 14h, durante seis dias. O primeiro buraco ela cavou em 1998 e o projeto deve se encerrar este ano. Em seu site, a artista explica que o projeto surgiu em um período difícil (um pesadelo) para criar um ponto fixo no globo terrestre. Nas paredes do Sesc, leio sobre acolhimento no buraco. Conversamos sobre o buraco do Metrô, aqui em São Paulo, que eu vi ruir de dentro do prédio da editora Abril. É um buraco que a intriga ou perturba e que ela tentou ver de perto, sem conseguir ultrapassar a barreira de seguranças.

É curioso. Sempre relacionamos cavar um buraco a se esconder. Paola cava buracos e aparece.

Brasileiras abrem portas na Croácia

Cubatão Cubatão

Meninas do Brasil instalam portas nas ruas da Croácia. No meio da cidade de Zagreb, instalam portas em lugares inusitados. Pelo olho mágico, vêem-se fotos. Algumas das fotos, como essa ao lado, são minhas. Um recorte do Brasil. Renato Targa também contribui com imagens.

Explico melhor: OPOVOEMPÉ, um grupo de intervenção urbana dirigido pela querida Cristiane Zuan Esteves, participa do Urban Festival. De Zagreb, ela escreve:

“Nós, do OPOVOEMPÉ, estamos aqui realizando o nosso projeto “Out of key(s)”, de instalações e ações cênicas, no UrbanFestival. Um festival voltado para a arte em espaços públicos, com artistas que trabalham em áreas fronteiriças. O tema deste ano é ‘How we regret’.

Iniciamos a pesquisa para o projeto em dezembro de 2007 e estamos em processo na Croácia há 10 dias. Para conhecer o projeto, os outros artistas deste festival e um pouco de Zagreb e da Croácia, acesse nosso blog edição especial:

www.opovoempeemzagreb.blogspot.com

O blog é atualizado todos os dias, acompanhando o processo de criação e execução do trabalho, as experiências e encontros desta viagem.”

Pelo blog, vejo crianças que brincam ao lado de um bunker. Visite você também. Adoro essas viagens internas e geográficas de OPOVOEMPÉ.

Outra tropa de elite vai para a Alemanha

chris esteves

Chris Esteves é uma diretora brasileira que pesquisa teatro documental, aquele que não trabalha com atores. Por conta disso, levou parte dos policiais que fizeram o projeto Chácara Paraíso para a Alemanha, a convite do diretor Stefan Kaegi. Juntos, eles participam do festival Spiel Art em Munique, com a performance Soko São Paulo, em 20 de novembro:

soko sao paulo

Tropa na esquina

A idéia de uma outra Tropa de Elite não me sai da cabeça desde que eu e Chris nos encontramos por acaso, aproveitamos para tomar um café e começamos a nos despedir em uma esquina da Vila Madalena. Foi um papo desses em que você se despede mil vezes, sempre emendando um assunto mais interessante no outro, protelando a despedida.

- Serão seis policiais brasileiros, seis alemães, explica Chris na primeira tentativa de um tchau.

- Como é que é?

- Tem o policial que treina cachorros e vai levar a cadela Agata…

- Será que é aquela labradora fofa que ajudou no resgate do acidente do Metrô?

- Não, não é.

- Ela ia se aposentar.

Aposentados têm tempo para viajar, certo? Podia ser uma viagem por mérito, uma cachorrinha tão valente, farejadora de escombros, sempre de lencinho no pescoço para fotos.

- Não é não, é outra. Tem a mulher do Copom, que atende a chamados de emergência pelo telefone. Tem um policial que participou da invasão da USP, um outro que toca contrabaixo e a Eliana, que foi da primeira turma de mulheres a serem aceitas na polícia.

- Invasão da USP? Essa agora?

- Não, aquela do Crusp, mais antiga, na época da ditadura…

- Ah, tá…

Oingo e Boingo falham nas conexões em cada situação… Ainda bem que é amiga, não repara.

- É interessante ver como esses policiais encaram a profissão como uma missão. Mas eles têm a linguagem e o discurso da corporação impregnada neles.

Diana, outra amiga, passa esbaforida e interrompe a conversa: “Acredita que furou o pneu do meu carro? Justo agora?”

- Você não vê uma categoria, os policiais.

Chris começa a perceber que a despedida virou entrevista com a aparição de papel e caneta.

- Não são os policiais, são as pessoas e suas histórias, que revelam as contradições que vivem.

Encerramos a sessão despedida e deixo a amiga seguir seu rumo, em direção à Alemanha.

Soko São Paulo

São Paolo is one of the most dangerous places in the world. Munich is the most secure city in Germany. In January 2007 the Swiss specialist in documentary theatre Stefan Kaegi (Rimini-Protokoll) and the Argentine author and stage director Lola Arias developed together with 17 Brazilian policemen a scenic installation in São Paulo. In small groups the audience met policemen, human beings with biographies full of contradictions. Now six of these Brazilian policemen come to Germany to meet their Munich colleagues. SOKO SÃO PAULO is a scenic installation, in which Brazilian and German policemen reconstruct their experiences as representatives of the law. In small chambers they show photos and tell their memories as if they were attendants of their own lives.”

With: Isabel Cristina Amaro, Thago de Paula Santos Alves, Marcel Lima, Pedro Amorim, Sebastião Teixeira dos Santos, Ellana Gombes Viana Pires, Rudi Baier, Verena Kunze, Klaus Röschinger, Bennie Baumann, Johann Beck. Special guest: Günther Koch (football reporter)