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Cantigas de roda com roupa eletrônica

A cantora e produtora Olivia vestiu as cantigas de roda com uma batida eletrônica. Quando nos encontramos semana passada, na praça ao lado do fórum da Vila Madalena, Olivia explicou que se elas fossem feitas hoje, seriam assim.

Pelo que pude ouvir, no blog do projeto Meu Tempo de Criança, as cantigas ficaram muito elegantes. No blog, Olivia dá uma palhinha – O Cravo e a Rosa e Capelinha de Melão - e deixa um gosto de quero mais. Quero mais, viu, Olivia?

Trova, de Zeca Baleiro: o Brasil pela janela

Ganhei um presentão: “O Coração do Homem-Bomba, Volume 2″, álbum mais recente de Zeca Baleiro. Não demorou e já estava enfeitiçada pelo looping do refrão de “Tevê”:

“E a vida a passar, a vida sempre a passar…”

Verdade. O mundo cai, a Lusitana roda, pouca gente atinge o nirvana, mas a vida a passar, sempre a passar.

O presentão veio da Heleninha Tassara, diretora que fez bonito com o melhor média metragem da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o documentário “Bode Rei, Cabra Rainha”. Helena convidou Zeca Baleiro para ler Ariano Suassuna, um grande entendedor da economia e do imaginário que circundam as cabras e os bodes. “O efeito colateral do filme foi que eu fiquei amiga do Zeca Baleiro”, conta ela.

Dessa amizade, nasceu o clipe de Trova, outra música desse álbum. As imagens são um corte e costura de sobras de outro documentário, travellings feitos para a série “O Povo Brasileiro” (baseada na obra de Darcy Ribeiro e dirigida por Isa Grinspum).

Gosto mais do clipe de “Trova” do que da música, mas essas coisas de paixão são tão pessoais. Gosto do clipe porque vejo o Brasil passar pela janela, como a vida, sempre a passar.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=RJfwdlQq3Vw[/youtube]

Palavra (en)cantada: a força do verbo em documentário

No fun at all No fun at all

Escolhi assistir ao documentário Palavra (En)cantada com medo do arrependimento. Seria um chatomentário? Seria uma verborragia de especialistas sobre a força do verbo? Uma herança daqueles que me rodeavam, livro em punho e pergunta pronta, “você gosta de poesia”?

Surpreendi-me. Para bem. Ao fim do filme, senti um conforto espiritual. Existem reservas de biscoito fino. Resiste a inspiração.
O verbo ainda tem poder, ufa, que beleza, estamos salvos. O Big Brother Brasil e afins são apenas ilusão, transtorno coletivo de comportamento.

O filme de Helena Solberg e Marcio Debellian tem a seu favor um elenco de pensantes interessantes. Não conhecia a verve poética de Lirinha, que conhecia no microfone, à frente do Cordel do Fogo Encantado. Adorei sua interpretação do poema de João Cabral de Mello Neto. Algo assim: o amor me tirou isso, me tirou aquilo e aquilo e tal, o amor me roubou o medo da morte.

Adorei também o mergulho nas imagens de arquivo que o filme traz. Por meio dela, descobri que a impertinência e a burrice dos repórteres televisivos tem linhagem, que remonta a 1967, quando Caetano Veloso apresentou “Alegria, Alegria” no festival da Record.

O antepassado dos repórteres sem graça dispara para Caetano: “E aí, como é que você coloca Coca-Cola e Cardinale na mesma música? De onde vem isso e por que fazer isso?” Faltou perguntar o sentido da vida.

Duas horas viajando em letras da MPB, os olhos de Chico Buarque para me ajudar a viajar, um canto trovadoresco interpretado por Adriana Calcanhoto só para abrir o apetite, no começo. Que filme bacana, como é bom falar português, como eu gosto dessa misturança brasileira que deu em música e poesia.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Qh5DpDTI6K4&feature=player_embedded[/youtube]

Blip marca um chopp enquanto meu iPod fica mais feliz

Si Bemol Si Bemol

iPod é como coração de mãe: acolhe tudo. Aquele disco inteiro onde se salva apenas uma música. Aquela música que só é boa para dançar, má companhia pela manhã. Aquele putz-putz eletrônico que só combina com balada…

Hoje, enquanto ouvia Blip e meus amigos jazzísticos/roqueiros/reggaeiros e até amantes do hip hop, fiquei sabendo de um evento chamado Blip’n'Beer, marcado para esta quarta na Vila Madalena.

O mesmo evento acontece em outras cidades. “Todas as cidades na mesma sintonia. A festa simultânea de quem é blipper” é o slogan desse encontro que nasce virtual e termina bem pessoal, com uma pilha de amigos e de bolachas de chopp em volta.

Só posso dizer que continuo fã da Blip. Ao mesmo tempo em que tirei do iPod todas aquelas músicas que não combinavam mais comigo, ouvi Joshua Redman, minha nova fixação, e recebi o convite para o chopp.

Só posso rir das profecias que anunciavam isolamento para quem mergulha na internet.

Se eu vou ao barzinho? Ah, @diordan, acho que não, Francisco (meu baby) não gosta de fumaça, viajo no dia seguinte, fica para outra, peninha.

OBS: Si Bemol, essa foto que tirei há alguns anos, é melhor sem som. O Dani fez a Vila Romana tremer. Que saudades.

O sonzão da Blip FM

Sonzão Sonzão

Blip FM é um serviço on-line de música grátis em que você é o DJ e seus amigos ouvem o que você escolher. Seus “amigos” no sentido de comunidade on-line, aquelas pessoas que você adiciona ou que adicionam você, no bom e velho estilo Orkut de relacionamentos pela internet.

A Blip já não é exatamente uma novidade, os convites espalharam-se de forma viral entre os usuários do Twitter há umas duas semanas. Os blogueiros já bateram tambores. Eu é que não tive tempo de recomendar aqui – e recomendo.

O acervo é gigantesco, muito bom. Fico surpresa em encontrar de Pixinguinha às bandinhas novas, indies, hypes, bregas, sul-americanas ou européias. Covers inusitados. Velharias. De Raul Seixas (ai) a Bessie Smith (meu filhote começou a cantar com ela), Muse (não conhecia e gostei ou conhecia e ignorava, como tantas bandas que passam pela gente).

Ouvi Les Negrésses Vertes, uns bagunceiros que eu não ouvia desde que dei meu vinil do álbum de estréia dos caras.

Ouvi Devendra Banhart, aquele cara que foi tão chalerado pelos críticos de música que eu tinha perdido a vontade de ouvir, com medo que fosse mais um “melhor som do mundo da semana”. Spyer me explicou, via Blip, que Banhart passou a infância na Venezuela e por isso tem sotaque espanhol impecável em “Pensando em Ti”, uma música que foi direto para a minha playlist.

Outra coisa interessante da Blip: você programa sua lista e, em um dia de preguiça, pode ouvir só as suas favoritas. A busca é o calcanhar de aquiles. Você digita Tom Waits, por exemplo, e os resultados incluem tudo que existe sobre Tom Jobim e outros “Tons”. Fora isso, a Blip é uma farra. É uma rede social que serve para alguma coisa: descobrir e ouvir coisas legais. Passe lá.

Herbie Hancock & Macy Gray tocaram no Pólo Sul

Herbie Hancock no Villa-Lobos Herbie Hancock no Villa-Lobos

Foi a festa da capucha. Todo mundo de capinha de plástico transparente sobre a elegância do inverno. O show de Herbie Hancock e Macy Gray foi tão londrino, com sensação térmica de alguns graus abaixo de zero. Chuva fininha, daquela que molha os ossos, para não haver dúvidas.

Os cachorrinhos chiques dos moradores do Alto de Pinheiros usaram capinhas. Muita gente levou vinho, foi o desfile de safras do Chile, França, Itália e Argentina com alguns garrafões de Sangue de Boi na mão de incautos mais durangos. As meninas foram de botas. Os meninos, de boné. Sustentei a situação por várias músicas porque o cara é muito bom mesmo.

Fiquei surpresa em encontrar milhares de loucos como eu, que encararam a tarde gelada para ouvir jazz de primeiríssima qualidade. Um programão exótico no parque Villa-Lobos.

Sexta-feira é dia de graça

bailarina bailarina

Dieu merci c’est vendredi!

Foi com essa saudação garimpada em meus feeds que meu dia começou. Foi assim que lembrei das mitologias que envolvem esse dia que marca o fim da jornada de trabalho da semana na era industrial. Uma coisa que o século 20 e a nova economia aboliram, sexta já não é mais fim nem começo de nada.

Sexta-feira é o nome do amigo do Robinson Crusoe. Começa daí a simpatia do dia de Vênus (dies Veneris, em latim), de Freyja (deusa germânica pagã da fertilidade, da beleza, do amor) e de Shukra, deus hindu que monta um cavalo, um crocodilo ou um camelo e que é igualmente associado às qualidades feminas, às artes, à dança. Em sânscrito, sexta é Shukravaar.

Em português, toda essa influência de Vênus ficou subterrânea. Como dizia uma professora de italiano que tive, Piera Camerini, só mesmo em português foram os feirantes que decidiram o calendário. Porque em português contamos os dias como feirantes: a feira do primeiro dia, do segundo e assim vai.

Em todo o caso, a moçada ainda “guarda” a happy hour da sexta-feira como dia de comemorar a vida, festejar. Eu estou nessa, para mim hoje é dia de “clássico”: assisto pela primeira vez ao vivo Arnaldo Cohen ( Rachimaninov e Brahms) e depois experimento o restaurante da Sala São Paulo. Um clássico para temperar com toque de Vênus a feira do sexto dia.

Trilha do filme sobre Rolling Stones no YouTube

Rolling Stones e o diretor Martin Scorsese no centro

Todas as músicas de Shine a Light, documentário de Martin Scorsese sobre os Rolling Stones, estão disponíveis para você ouvir agora no YouTube. Muito bom. Estou curiosa para ver o filme, gravado no Beacon Theater de Nova York em 2006. Tem participações de filme de Jack White, da banda White Stripes, de Christina Aguilera e do guitarrista Buddy Guy.

Ouça Shine a Light.

Eu soube via Gui Fellitti Gui Felitti, do Chá Quente.

Gravadoras unem-se ao MySpace

Deu no New York Times: MySpace junta-se à Universal, Sony e WEA em site de música. É o “mais novo esforço da debilitada indústria musical para conter o declínio de suas perspectivas”, segundo o jornal.

Pelo que eu entendi, o serviço é gratuito e paga-se com publicidade. Em troca dá streaming, listas personalizadas, grupos de amigos e download. Fala-se em cobrar uma assinatura mensal para download ilimitado.

“Chris DeWolfe, executivo chefe do MySpace, uma divisão da News Corporation, descreve o serviço, que será apresentado no fim deste ano, como um lugar só para toda a música, nas suas variadas encarnações digitais.”

Se as gravadoras não podem combater o download irrestrito, juntam-se a ele, inexoravelmente.

Bonito ser testemunha de algumas mudanças muito rápidas. Comecei a trabalhar justamente nessa área: primeiro tive um programa de rock no rádio, depois pesquisei música no Centro Cultural São Paulo, fui produtora da MTV, repórter da seção cultural de dois jornais, cansei as pernas em shows em estádio de futebol e festivais. O negócio todo mudou tão radicalmente, caramba. Não sobrou nada desse império das grandes gravadoras. Posso ouvir sua queda. “Quem te viu, quem te vê.”

Águas de março

Na estrada Na estrada

“São as águas de março fechando o verão/ É promessa de vida no teu coração.”

Fotografei sábado e registrei as águas de março fechando o verão, algumas horas antes de elas desabarem em forma de tempestade com raios. Deixaram para a lua cheia da Páscoa apenas uma breve aparição.

Tom Jobim era uma simpatia, um figura. Entre tantos músicos que entrevistei, ele pertence ao grupo dos gênios de grande porte.

“É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira”

Viajei para Campos do Jordão para a abertura de um festival de inverno especialmente para conversar com Tom Jobim sobre a criação da Universidade Livre de Música, da qual ele era patrono. Isso foi em mil novecentos e bolinha. Ele me enrolou um tanto, mas eu não estava com muita pressa mesmo. Nossa conversa acabou sendo rápida, muito rápida, constato hoje, no camarim do Auditório Cláudio Santoro. Tom embrulhado em cachecol e na nuvem de fumaça do charuto. Uma grande figura.

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