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BBC encerra projeto de jornalismo colaborativo

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Fim de uma fase de euforia do jornalismo colaborativo: “The BBC World Service’s citizen journalism project, ‘Your Story’ has been axed due to lack of funding, reports journalism.co.uk.”

Trocando em miúdos: Sua História” (Your Story), projeto de jornalismo cidadão da BBC, lançado em junho de 2008, extingue-se por falta de verba.

Notícias e Informação no momento em que a mídia digital chega à maturidade

Media Re:public: News and Information as Digital Media Come of Age (Re:pública da Mídia: Notícias e Informação no momento em que a mídia digital chega à maturidade) é um estudo divulgado pelo Berkman Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard.

Sua leitura é uma lição de casa para todo mundo que trabalha com comunicação e, principalmente, com notícias. Como eu.

Passo os olhos na conclusão do estudo: “Most of the challenges are linked directly to the disaggregation and  disintermediation of the media business, which offer both new opportunities and new challenges to authors, editors, and audiences alike.” Em resumo: o que fazer com essa mudança? Como ganhar dinheiro, como ter credibilidade? Quem deve produzir notícia? Que modelo de negócio serve para o jornalismo, hoje em dia?

Autores se dizem otimistas

“After a year spent talking to stakeholders across a broad spectrum of media and technology enterprises, overall we are optimistic. We believe that the combination of new and emerging digital media technologies with the deep expertise of the best of the traditional journalism community has the potential to create a news and information environment in the United States and other countries that is richer, more engaging, and more representative than anything that existed previously.”

Em resumo: as coisas estão melhores hoje do que jamais estiveram.

* Página do projeto
* blog
* Download do relatório

Blogs e jornais, paixão de tango

Jornais e blogs, jornais ou blogs, jornais versus blogs, blogs de jornais e até jornais de blogs. Essas duas substâncias díspares e ao mesmo tempo afins estão em discussão em vários posts que li e não se avista consenso nesse caso de paixão de tango.

1- Interney divulgou hoje alguns dos nomes que participam da próxima edição do CampusBlog, uma das áreas do Campus Party 2009.

Como o próprio Edney Souza, que organiza a programação desta edição, fala sempre em formas possíveis de ganhar dinheiro na web e, em particular, com blogs, esse aspecto do debate sobre a blogosfera foi contemplado na lista de discussões, onde leio “monetização” e “empreendedorismo digital”.

Curiosa, procuro as novidades “desta estação”, será que tem alguma? “Miguxas na web”? Ah, não, isso já rendeu. “Mulheres e blogs”? Parece tão antigo quanto “Homens e blogs”. Falando sério: jornalismo, ética e mídia, moral, direito digital, sexo, mobilidade e até política, temas que aparecem na programação, dão o molho básico para começar a cozinhar as tendências da web.

2- Publico.org é um projeto de jornalismo colaborativo que traz nomes conhecidos, como o do Rodrigo Savazoni, Pedro Markun, Paulo Fehlauer, Ceila Santos. “Nosso objetivo é realizar uma cobertura jornalística cidadã, apartidária, colaborativa, plural, diversa, multimídia e hiperlocal da cidade de São Paulo”, explicam.

Não entendi se o projeto está se organizando ou se organizado está. Os posts são poucos, esparsos, sem uma freqüência, o último foi ao ar em agosto. Talvez a cobertura seja feita nos blogs e endereços de cada um dos participantes e a comunidade se agrupe ali para se apresentar como grupo, não entendi. Mas foi por meio do Público que acabei achando debates outros capítulos sobre o que chamei, só para variar, de paixão de tango e que menciono abaixo:

3- Vários nomes para a mesma coisa, assim eu e o Roberto Taddei falávamos em 2005 sobre jornalismo cidadão. Daniela Bertocchi discorda e explica a diferença entre jornalismo cívico e jornalismo cidadão, em entrevista do ExuCaveiraCover.

O “jornalismo participativo” (colaborativo) ocorre quando um cidadão, ou grupo de cidadãos, assume uma função ativa no processo de recolha, reportagem, análise e divulgação de notícias e informações”, diz Bertochi. “O “jornalismo cívico”, por outro lado, procura encorajar a participação, mas as organizações noticiosas mantêm um elevado nível de controle através da determinação da agenda temática, da seleção dos participantes e da moderação das conversas.”

Continuo discordando e considero participativo e colaborativo os nomes mais bonitos. E só.

4- Em O Jornalismo Morreu, encontrei ainda uma entrevista com Beth Saad, parceira de blog da Daniela e professora da USP, sobre… O destino dos jornais. “O poder ainda não rejuvenesceu e, mesmo aqueles mais jovens que estão muito próximos do nível de decisão, ainda estão sob a tutela de uma cultura empresarial muito forte, arraigada a valores familiares e ao tamanho do poder social e de formação de opinião que o jornalismo supostamente possui”, diz Beth Saad.

Concordo com o comentário, que me lembrou a letra de uma música: “Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não…”

5- Donos da Mídia www.donosdamidia.com.br - Um projeto de cartografia dos grupos de mídia brasileiros.

“Produzido pelo Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom), entidade parceira do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, e idealizado pelo jornalista Daniel Herz, Donos da Mídia, é uma grande, inédita e valiosa base de dados sobre os grupos de mídia do Brasil”, explica o excelente blog da UFBA Jornalismo e Internet – GJol.

Donos da Mídia traz artigos que falam em “concentração da mídia e coronelismo eletrônico”, por exemplo. Nesta “Comparsita”, podem trazer ângulos interessantes para a paixão de tango.

As redes e o jornalismo cidadão

Parabólicas Parabólicas

Converso nesta quinta-feira com estudantes de comunicação de Vitória, durante a 2ª Semana de Comunicação Social da Faesa, que tem como tema “Interdiscursos: as múltiplas vozes no discurso midiático”.

Fui convidada para falar sobre jornalismo cidadão – a produção e divulgação de notícias por quem não é profissional de comunicação. Um dos livros da coleção Conquiste a Rede, da qual sou co-autora, é justamente, “Você faz a notícia – jornalismo cidadão“.

“A separação rígida entre os que fazem as notícias e os que recebem as informações desaparece no mundo virtual. Os profissionais da comunicação têm agora milhares de aliados na tarefa de apurar fatos, conhecer novidades, reunir e comentar informações. Qualquer um pode fazer notícia. O modelo tradicional, que distingue os emissores dos receptores da informação, deu lugar à comunicação feita por meio da colaboração”, escrevemos há dois anos eu e Roberto Taddei no primeiro capítulo do livro.

Nestes últimos dois anos, desde o lançamento do livro (somente pela web, com licença Creative Commons, para permitir que ele tivesse larga distribuição) houve uma explosão do jornalismo cidadão. O fenômeno nem sempre é acompanhado por uma crescente qualidade no material produzido. Muitas críticas são feitas a essa produção.

Eu escrevo sempre aqui no blog sobre os muitos ângulos e questões que o tema traz e costumo dizer que poucas gerações puderam observar uma transformação tão drástica e definitiva na comunicação. Novidades nesse setor mostram que esse fenômeno ainda está em plena transformação.

Para observar a olho nu

Na semana passada, o YouTube lançou o Citizen News, um portal dedicado ao jornalismo cidadão. Há pelo menos dois novos portais em espanhol, o Igooh e o Notícias Latinoamericanas. Em Salvador, na Bahia, foi lançado também recentemente o Boca do Povo, com o slogan “Aqui você faz notícia”.

Ao mesmo tempo em que são poucos os portais exclusivos de mídia cidadã que têm grande repercussão, esses lançamentos mostram a ebulição nessa área. Acredito é precipitado desqualificar a produção do leigo. Tampouco é sensato declarar como valioso tudo o que é publicado.

Fatos, furos e redes

No Brasil, os blogs são a parte mais vistosa dessa tendência. Pelo que posso perceber, eu também apostaria algumas fichas nas redes sociais. Ferramentas que mesclam publicação de conteúdo com uma comunidade on-line têm todos os ingredientes para que o jornalismo cidadão floresça.

Twitter, Friendfeed, Google Reader, Justin TV, entre outros, são serviços que conectam um grupo e permitem a qualquer um acompanhar o que dizem os produtores de informação e de conhecimento, no que prestam atenção os pesquisadores, o que comentam os jornalistas. Oferecem cobertura ao vivo, ás vezes com o requinte de imagem e áudio, cursos, palestras e encontros fechados que cobram caro o ingresso dos participantes.

Essas ferramentas de publicação de conteúdo que também são redes são como um termômetro, revelam o buzz, o que os formadores de opinião consideram relevante agora, as últimas notícias que impactam aquele grupo conectado. Em suma, as redes são ótima fonte de notícias e oferecem material em primeira mão. Muitas vezes antes do que qualquer outro veículo de comunicação.

Questões sobre jornalismo cidadão

Só um muro Só um muro

Questões políticas permeiam a produção do jornalismo cidadão. Encontro essa constatação em dois blogs. Andy Oram, editor da O’Reilly Books, com quem já conversei bastante por e-mail, escreve no O’Reilly Blog sobre os dez anos do Berkman Center for Internet & Society, uma instituição para pesquisa de temas relacionados à internet da Universidade de Harvard. O assunto é a produção peer to peer (p2p, entre pares, ou cidadãos): Yochai Benkler, others at Harvard map current and future Internet.

No blog GJOL, da universidade Federal da Bahia, a indicação é para Reclaiming the Media, um livro disponível para download. Aliás, fiquei sabendo do livro pelo Clico, logo Existo, um cantinho da blogosfera atento à “produção cidadã”, dos que não são profissionais de comunicação.

Política, uma palavra capaz de provocar calafrios em nossa espinha, tão desgastada está em nossa terra brasilis. Aqui no Brasil, política é pior que catapora, varíola, dengue e gripe juntas. Conhecemos o lado chatonildo, corrupto, velho e corrompido dessa força. Nesses dois posts, alívio, encontro um esforço para posicioná-la de uma forma saudável, como um ar fresco que renova nossa forma de pensar. Isso é raro quando se fala em política. Nem eu mesmo sei se acredito nessa palavra, só de ouvi-la me dá um sono.

Andy Oram conta o encontro de vários pensadores que se reuniram para discutir como Harvard pode posicionar-se para levar conhecimento útil para seis milhões de pessoas excluídas no mundo. Ambição assim.

Nesse livro, que ainda não li, encontro um capítulo sobre pluralismo: Making a difference to media pluralism: a critique of the pluralistic consensus in European media policy. Já começo a gostar da idéia. Nessa questão de jornalismo cidadão cintila uma característica: a variedade de opiniões. Só isso já é muito. São possibilidades, promessas, potencial.

O que se faz com isso, onde isso vai dar, se é bom, se é ruim, bem, isso é papo em Harvard, na Bahia, em São Paulo. Até no Irã, que tem a quarta maior blogosfera do mundo, coisa que eu não sabia.

Este blog no Estadão

Saiu neste domingo a reportagem O caos de São Paulo organizado nos blogs, uma matéria supersimpática do Estadão sobre blogs que mostram um lado bacana de São Paulo. Fui entrevistada e fiquei contente não só de ter sido lembrada, mas com esse jeito generoso de olhar os blogs. Estar de bem com a vida é tudo, inclusive numa reportagem. Parabéns aos repórteres Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli.

O que se comenta a respeito de jornalismo cidadão

Eu e o Francisco Madureira, do Clico, logo existo, conversamos com estudantes de Comunicação do Mackenzie no ano passado sobre jornalismo cidadão. As meninas, muito simpáticas, deixaram comigo a íntegra do papo em CD, um cuidado que nem todo mundo tem. Ponto para elas. Elas também colocaram o vídeo no YouTube e eu acho legal mostrar aqui os trechos que elas escolheram das nossas entrevistas porque o assunto continua chamando a atenção dos estudantes e dos profissionais de comunicação, ontem mesmo conversei com uma repórter do portal Comunique-se a respeito. “Eu acho que a diversidade é a melhor coisa que a gente ganha com isso”, digo nesse papo. Acho mesmo.

Novo milênio trouxe o Botecocamp

MILENIO MILENIO

Neste sábado de sol vários blogueiros e jornalistas reuniram-se em São Paulo para discutir notícias, blogs, web e business plan, nessa ordem. Como eu cheguei muito no final do Newscamp, ouvi alguma coisa (pertinente) sobre business plan para projetos web e vi quando o evento começou a transformar-se em Botecocamp. Boteco é o destino final de qualquer uma dessas reuniões, pelo que pude entender.

Conheci figuras novos e, como sempre, achei tudo muito divertido, embora eu ainda não entenda como tantos jovenzitos inteligentes pratiquem esse esporte radical e tão diferente, a tal da desconferência, que é uma versão renovada dos antigos debates.

Em sábado de sol? Não é exótico ter 20 e poucos anos e passar o dia a discutir Twitter e “mo-ne-ti-za-ção”?

No fim do evento, o Botecocamp deu um toque de fim de tarde na praia a todas essas idéias e trouxe ares do novo Milênio, que você pode ver na foto. Na verdade, Milênio é o nome auspicioso do fornecedor do toldo que cobria as mesinhas do boteco.

Como o tempo anda curto para falar sério e eu não participei de várias das discussões, se você quiser saber mais:

Ah. Tive uma conversa muito original com Renato Cruz, do Estadão, Jorge Cordeiro, jornalista que trabalha para o Greenpeace Brasil e com Juliano Spyer, do Não Zero, gravada pelo Juliano, nem sei precisar exatamente sobre o quê. O Newscamp virava botecocamp e a gente ficou conversando no portão, sem deixar o treco terminar. Mas a conversa estava tão interessante que a gente continuava ali, ouvindo bronca de quem queria encerrar o evento. Quando eu conseguir saber mais, dou o link.

Jornalismo cidadão é passageiro de segunda classe nos grandes portais

Juliano Spyer fez uma pergunta interessante pelo Webinsider: Por que o jornalismo participativo não decola nos portais?

Por chat, tivemos um papo, que reproduzo porque é assim que a gente fala na vida real, no meio da correria do dia-a-dia:

Ana: Carta de leitor? Nem li e já concordo.

Juliano: hahahaha

Ana: Eu ouvi naquele encontro da BBC o Terra e o G1 reclamarem de qualidade. Estou para escrever que isso nunca vai dar certo. Gente com cabeça boa e texto melhor ainda não vai perder tempo se relacionando com aquelas seções merrecas de grandes portais, perder tempo produzindo conteúdo para elas.

Juliano: Então escreve. Putz, perfeito.

Os grandes veículos não preparam um lugar relevante para receber essas contribuições do internauta. Não criam motivação alguma para seu público colaborar. Se o que é enviado tem qualidade, é por puro acaso, obra do destino, pela conjunção de astros ou por intuição de um internauta com certo desconfiômetro. Escrevi outro dia sobre isso: se nem alguns estudantes de comunicação se interessam pela produção de notícias com qualidade, por que um leigo o faria?

Agora, me diga: por que eu, internauta, enviaria conteúdo com algum valor jornalístico para esses grandes portais? Meu conteúdo será maltratado, ficará escondido e eu não vou ganhar nada com isso. O YouTube e até o meu blog, com audiência miudinha, de nicho, serão melhores aeroportos para essa produção. É isso o que sente o internauta que não é profissional de comunicação mas tem certo talento, formação e conhecimento para compartilhar.

A BBC sacou que maltratar a produção do jornalismo cidadão era uma forma errada de pensar e promoveu uma gigantesca reestruturação em suas equipes e na arquitetura de suas páginas para dar ao internauta um lugar mais relevante e que proporcione uma vivência mais interessante no momento em que ele se relaciona com a grife do jornalismo. Se tiver interesse, leia mais sobre o debate a respeito de um “novo jornalismo”, promovido pela BBC Brasil em São Paulo.

Mais sobre jornalismo cidadão

Atropelou o verbo e fugiu: qualidade no jornalismo

Adoro o blog coletivo Conversas Furtadas, que coleciona bobagens ditas na rua. Copio um post chamado Pout-pourri, de Claudio Delamare, sobre estudante de comunicação que não gosta de ler:

- Ah, professor, eu sempre achei essa coisa de ler um saco, nunca gostei.
- Mas aluno de comunicação que não gosta de ler? Não pode.
- Pois é, precisa, né? A agora eu empolguei com um livro que ganhei.
- Qual?
- O Código Da Vinci. Já li todo.
- Tá, OK. É formulão, mas é um começo. Gostou?
- Adorei! Agora tou empolgada, quero ler mais, até já escolhi o próximo!
- E qual será?
- Desvendando o Código Da Vinci.

Atropelou o verbo e fugiu

Essa situação dá uma pista a respeito da qualidade das notícias. Se nem os estudantes de comunicação que, teoricamente, deveriam se interessar pela coisa, mostram-se fluentes na produção de conteúdo, como esperar que a produção do leigo seja excelente? Ainda mais aqui, onde o cidadão é antes de mais nada, brasileiro. Brasil, escutai vossos pandeiros, 32% da população ainda é de analfabetos funcionais.

Só por sorte do destino -e ainda que assim mesmo há inúmeros casos – a contribuição do cara que não é profissional de comunicação é redondinha, pensante, estruturada, criativa, confiável, ética, pertinente, responsável, dá voz aos dois lados, verifica informações antes de divulgá-las e reúne todos os atributos imagináveis para o conteúdo de qualidade. É pura sorte, uma variável metafísica. O leigo não tem idéia de que o que produz tem de ser assim ou assado, se o faz, é por intuição ou porque sabe de orelhada. Uma saída para que haja um salto de qualidade pode ser contar ao leigo o que é bacana fazer quando se publica na web.

O que deveria preocupar a todos é a qualidade do que produzem os profissionais de comunicação. Nós, pobrezinhos, profissionais das comunicações, estamos “trocando o óleo do carro enquanto dirigimos pela estrada”, para usar a expressão de um diretor de uma empresa de comunicação chamado Howard Weaver. A frase desse senhor, sobre a reinvenção da forma de produzir e publicar notícias, que tumultua as redações nesse momento, consta no relatório The State of the Media 2008, divulgado esta semana, a respeito da mídia dos EUA. Qualidade é algo sensível tanto no jornalismo tradicional quanto no jornalismo cidadão.

Jornalismo cidadão

Passo ao segundo episódio desse relatório (leia o primeiro), que aponta para problemas no mundo do jornalismo cidadão. É preciso ressaltar que as críticas que o documento faz, bastante contundentes, vêm de expectativas elevadas que não se cumpriram. Se você estiver interessado em mergulhar na questão, leia mais no capítulo sobre principais tendências do relatório:

“As perspectivas para o conteúdo gerado pelo usuário, que pareciam ser centrais para a próxima era do jornalismo, agora parecem mais limitadas. Jornalistas dizem que a melhor parte da contribuição dos cidadãos são as novas idéias, fontes, comentários e, até certo ponto, fotos e vídeo. Cidadãos postando conteúdo jornalístico, no entanto, mostrou-se algo menos valioso, com pouca coisa nova ou verificável.

O pessimismo não está restrito à mídia tradicional. O conjunto de notícias produzidas por cidadãos e os blogs está chegando a um nível significativo. Mas um estudo sobre jornalismo cidadão contido nesse relatório verificou que a maioria desses sites não deixa estranhos fazer nada além de comentar o material do próprio site, o mesmo que fazem os sites da mídia tradicional. Poucos permitem postar notícias, informação, eventos da comunidade ou cartas ao editor. Blogs são ainda mais restritivos. Em resumo, em vez de rejeitar o papel de “guardião do portal” (gatekeeper) do jornalismo tradicional, os jornalistas cidadãos e os blogueiros parecem estar recriando esse papel em outros lugares.”

Vai fundo

O veredicto para o jornalismo cidadão sugere limitações

Está no relatório The State of the News Media 2008: “O veredicto para o jornalismo cidadão no momento sugere limitações”. Bonito esse rococó para dizer: “não é tudo aquilo que se dizia ser”. Está na quinta edição do relatório Anual do Projeto para Excelência em Jornalismo (Project for Excellence in Journalism – journalism.org), que aponta as tendências da mídia nos Estados Unidos.

Isso é apenas o começo do relatório. É bombástico. Vamos por episódios, como se fosse uma novela.

A realidade é cada vez mais complexa

“Os críticos tendem a ver a tecnologia como promotora da democratização da mídia e o jornalismo tradicional em declínio. O público, dizem, fragmentou-se com as novas fontes de informação. Algumas pessoas até disseminam a noção de “Cauda Longa” (Long Tail).

A realidade surge cada vez mais complexa. Mesmo com tantas novas fontes, mais pessoas consomem hoje o que as redações tradicionais (antigas) produzem do que antes, principalmente da imprensa escrita. Os sites do top 10, ligados a velhas marcas, pertencem a uma oligarquia que comanda uma parte maior da audiência do que comanda nos veículos tradicionais. O veredicto para o jornalismo cidadão sugere limitações. As pesquisas mostram que blogs e sites ligados a assuntos públicos atraem uma audiência menor do que se esperava e são produzidos por pessoas com formação ainda mais de elite do que os jornalistas.”

Pensar como um internauta

Acompanho o debate sobre a produção de conteúdo pelo público – jornalismo grassroots, open source, código aberto, colaborativo, enfim, jornalismo cidadão – com atenção. Poucas gerações têm a oportunidade de testemunhar uma transformação tão drástica, em tão pouco tempo, na comunicação. Por isso acredito ser importante prestar atenção àquilo que um relatório desses diz. É um dado novo no tabuleiro.

Como procurei registrar nos posts anteriores, com trechos do debate promovido pela BBC sobre o tema, a produção de conteúdo feita pelo internauta é assunto do momento, cheio de arestas e partes mal iluminadas. Os grandes portais brasileiros deram depoimentos preciosos. Estou a mastigar o que eles disseram antes de opinar, mas saltou as olhos que a BBC, como empresa jornalística tradicional, mostra-se ágil para incluir o internauta como produtor de informação.

A meu ver, uma das maiores falhas que se pode cometer na reestruturação das redações é uma abordagem de empresa aqui, usuário lá. É um erro ater-se à identificação de oportunidades para tirar proveito daquilo o “usuário”, o “cliente” ou o “leitor” produz, quando o melhor seria pensar de forma inversa, pensar como um internauta faria. Acho que a BBC percebeu um pouco essa diferença e começou a “pensar” como um internauta. Esse é um ótimo rumo.

No próximo episódio, as grandes tendências

As grandes tendências:

  • A notícia deixa de ser um produto para se tornar um serviço.
  • As perspectivas para o conteúdo feito pelo usuário, antes imaginadas como centrais para a próxima era do jornalismo, agora aparecem mais limitadas.
  • E mais…

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