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O veredicto para o jornalismo cidadão sugere limitações

Está no relatório The State of the News Media 2008: “O veredicto para o jornalismo cidadão no momento sugere limitações”. Bonito esse rococó para dizer: “não é tudo aquilo que se dizia ser”. Está na quinta edição do relatório Anual do Projeto para Excelência em Jornalismo (Project for Excellence in Journalism - journalism.org), que aponta as tendências da mídia nos Estados Unidos.

Isso é apenas o começo do relatório. É bombástico. Vamos por episódios, como se fosse uma novela.

A realidade é cada vez mais complexa

“Os críticos tendem a ver a tecnologia como promotora da democratização da mídia e o jornalismo tradicional em declínio. O público, dizem, fragmentou-se com as novas fontes de informação. Algumas pessoas até disseminam a noção de “Cauda Longa” (Long Tail).

A realidade surge cada vez mais complexa. Mesmo com tantas novas fontes, mais pessoas consomem hoje o que as redações tradicionais (antigas) produzem do que antes, principalmente da imprensa escrita. Os sites do top 10, ligados a velhas marcas, pertencem a uma oligarquia que comanda uma parte maior da audiência do que comanda nos veículos tradicionais. O veredicto para o jornalismo cidadão sugere limitações. As pesquisas mostram que blogs e sites ligados a assuntos públicos atraem uma audiência menor do que se esperava e são produzidos por pessoas com formação ainda mais de elite do que os jornalistas.”

Pensar como um internauta

Acompanho o debate sobre a produção de conteúdo pelo público - jornalismo grassroots, open source, código aberto, colaborativo, enfim, jornalismo cidadão - com atenção. Poucas gerações têm a oportunidade de testemunhar uma transformação tão drástica, em tão pouco tempo, na comunicação. Por isso acredito ser importante prestar atenção àquilo que um relatório desses diz. É um dado novo no tabuleiro.

Como procurei registrar nos posts anteriores, com trechos do debate promovido pela BBC sobre o tema, a produção de conteúdo feita pelo internauta é assunto do momento, cheio de arestas e partes mal iluminadas. Os grandes portais brasileiros deram depoimentos preciosos. Estou a mastigar o que eles disseram antes de opinar, mas saltou as olhos que a BBC, como empresa jornalística tradicional, mostra-se ágil para incluir o internauta como produtor de informação.

A meu ver, uma das maiores falhas que se pode cometer na reestruturação das redações é uma abordagem de empresa aqui, usuário lá. É um erro ater-se à identificação de oportunidades para tirar proveito daquilo o “usuário”, o “cliente” ou o “leitor” produz, quando o melhor seria pensar de forma inversa, pensar como um internauta faria. Acho que a BBC percebeu um pouco essa diferença e começou a “pensar” como um internauta. Esse é um ótimo rumo.

No próximo episódio, as grandes tendências

As grandes tendências:

  • A notícia deixa de ser um produto para se tornar um serviço.
  • As perspectivas para o conteúdo feito pelo usuário, antes imaginadas como centrais para a próxima era do jornalismo, agora aparecem mais limitadas.
  • E mais…

Aquário para a imprensa no Campus Party

Aquário para a imprensa no Campus Party Aquário para a imprensa no Campus Party

Humor é tudo :)

Antigos hábitos, novo cenário

Quando digo que a grande imprensa experimenta novos caminhos para sobreviver às inovações da mídia eletrônica, não estou sugerindo que a extinção dos meios tradicionais está próxima. Observo uma adaptação deles ao novo cenário.

Continuo leitora de livros, revistas e jornais no papel. Sou do tipo que lê rótulo dos produtos e embalagem, leio filipeta que me entregam na rua. Cresci amarrotando o jornal na mesa do café da manhã e isso continua como parte do início do meu dia. Mas também acesso o noticiário pela internet, leio e-mails, participo esporadicamente de fóruns. Quando consigo ter tempo, consulto meu leitor de RSS, passeio por blogs, vlogs, flogs, posto e comento etc. Esse é o novo contexto a que me refiro.

Certo?

Andrea de Carli, lá do Rio Grande do Sul, é professora e estuda o uso de informática na educação. Fez uma adaptação de um trecho do livro Podcast e deixou-a disponível para todo mundo, como eu e o Roberto, autores da coleção “Conquiste a Rede”, sugerimos. Ensinar como fazer é importante, pode fazer diferença na vida profissional e pessoal do leitor. Valeu!
Andrea deixou o seguinte comentário sobre meu texto anterior: “Muito bom post Ana, mas acredito que este exista um exagero em achar que a internet tomará conta de nossas vidas desta maneira, inutilizando certas mídias que há tempos estão por aí. Vejo abrindo-se um leque de mídias que poderão auxiliar, com competência e planejamento, todos os campos de estudo.”

Realmente, é um exagero. De qualquer forma, eu evitaria a palavra “inutilizar”, pois reciclagem é sempre uma postura mais atual. E não estou falando em extinção. Certo, Andrea?

Jornalismo cidadão no jornalzão

Tocamos em um ponto importante: a informação capilarizada e segmentada, presente em milhares de canais diferentes, muitas vezes dirigida a nichos muito específicos, esse “leque de mídias” a que Andrea se refere. A grande imprensa muda em resposta a essa transformação. Ela tem se aproximado dos novos meios de comunicação, aprendido com eles, se aliado e se adaptado.

Falei sobre isso com um repórter do caderno Link do Estadão. Vamos ver o que sai dessa conversa na edição do dia 26 de fevereiro, que abordará o jornalismo cidadão. A grande imprensa também já parou para comentar o novo cenário.

Semana passada a agência de notícias Associated Press anunciou que passa a usar o jornalismo cidadão como fonte, depois de firmar parceria com NowPublic.com (os editores da AP verificarão e garantirão a veracidade das informações). É mais um exemplo dos tempos de grandes mudanças na comunicação.