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Do alto da Paulista

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A comedoria do Sesc Paulista tem essa vista absurda. Vai lá, experimente esse tratamento de quente-frio. Primeiro, você sobe no topo do prédio, espia a avenida Paulista do terraço, onde o vento é poderoso e gelado. Depois, entra para experimentar um chá ou café com rosquinhas de fubá que saem quentinhas e são as melhores do mundo. Depois invente algo, o roteiro é mais extenso do que parece, é um prédio inteiro de atividades, alguma coisa você acha para se entreter lá.

Neste fim de semana, por exemplo, a comedoria estava vestida em estilo japonês porque todo o Sesc Paulista comemora os 100 anos de imigração japonesa no Brasil. Pena que acabou a farra dessa exposição chamada Tokyogaqui, tinha butoh e Japão Pop.

Não sei se a comedoria já mudou de roupa, mas no fim de semana a um canto você encontrava uma máquina de karokê. Se ainda estiver lá, tenha piedade, ensaie antes, a gente agradece. Não repita o que eu presenciei: um pai embevecido encoranjando a filha a desafinar barbaramente uns hinos de louvor ao senhor. O que foi aquilo?

Dia de sorte

mangá mangá

Uma “Confraria do Nhoque da Sorte” me aguarda na Vila Anglo Brasileira. É dia 29, dia do nhoque da sorte, reza essa tradição reinventada pelos restaurantes italianos. Ela me faz pensar no monstro do Loch Ness, algo mais afetivo que histórico. Pouco importam as origens da tradição, estamos interessado no efeito, na sorte.

A cozinheira anuncia que aprendeu uns segredinhos novos. O dia parece menos comprido com a miragem dos segredinhos novos, seja qual forem. Isso não importa. É dia de sorte.

Chego à conclusão de que aquilo que nos dá sorte, quando comemoramos esse nhoque da sorte, é o desperdício de tempo somado à lógica cartesiana colocada de banda.

Perder tempo com coisas que não dão dinheiro, mas aproximam os amigos e dão espaço para o acaso, mais um gesto embrulhado em tabu e superstição como colocar uma nota sob o prato do jantar, juntos, esses dois fatores têm o poder de abrir espaço para o mundo de heróis, monstros, donzelas e porquinhos rosa que aparecem em mangás.

Links de boas especiarias

Capital da gastronomia Capital da gastronomia

Antes que você pense que mudei de assunto, abandonei os temas sérios e agora só falo de comida, aviso que isso passa. Os dias andam tão corridos que eu venho aqui escrever de frescurites na minha hora de “recreio” para arejar as idéias.

Dois links geniais:

Grão Vizir Especiarias - vende uma mistura de tchai testada e aprovada

A Senhora das Especiarias - a alquimia de uma japonesa que mora em Gonçalves (Minas Gerais) fabrica geléias exóticas à base de um purê de maçã sem conservantes. Um laboratório de química para gourmets. No Santa Luzia e outros endereços muito finos você encontra os potinhos de geléia. Recomendo os chutneys e o antepastos também. Recomendo tudo, menos a geléia de alfazema.

Receitas de blogueiros para o filme Estômago

entrada: creme verde entrada: creme verde

O livro de receitas dos blogueiros inspiradas pelo filme Estômago já está disponível para download: baixe aqui.

Na foto, você vê o creme que a Miki inventou inspirada no filme - que eu ainda não consegui ver, pois abril chegou feito um furacão.

O negócio dos orgânicos

Os produtos orgânicos tomam realmente fôlego dentro da cadeia produtiva brasileira. Repare só como os supermercados já oferecem um cantinho para os alimentos sem agrotóxicos (mesmo quando se arriscam a matar alguém do coração ao cobrar dez vezes mais por uma bandejinha de tomates, meigos e frugais).

Leio que se considerarmos as áreas de extrativismo sustentável, a área de plantio de orgânicos no Brasil chega a 6,5 milhões de hectares, o que faz do país o segundo maior produtor mundial, atrás apenas da Austrália.

Esse papo fica sério de 1 a 4 de maio, quando o prédio da Bienal de São Paulo sedia uma Feira de Orgânicos, a Bio Brazil Fair, que promove o 4º Fórum de Agricultura Orgânica e Sustentável. É a primeira edição do evento depois da aprovação, em dezembro, da lei que regulamenta os orgânicos no Brasil. Espera-se com isso um crescimento no mercado, semelhante ao que ocorreu na Europa depois da regulamentação, isso em um cenário atual de expansão de até 500% ao ano, segundo o que diz a Associação dos Produtores e Processadores de Orgânicos do Brasil.

Fico contente com essa movimentação, mostra futuro. Gosto de orgânicos para caramba -por vários motivos, nem todos eles associados à gula. Só não gosto de seu preço, às vezes impraticável. Soube ontem que até em cidades que hoje se destacam pela plantação de cana há produtores de alimentos orgânicos. Parece uma ótima idéia mesclar as culturas, o ambiente agradecerá essa gentileza.

Homeopatia

Essa eu não sabia: segundo o pesquisador Flávio Maurílio de Freitas, que participa desse Fórum, a homeopatia pode ajudar a combater pragas no cultivo dos orgânicos. “Enquanto na forma tradicional de controle de pragas e doenças se gasta mais de R$ 1 mil numa estufa que comporta 300 pés de tomate, com a homeopatia se gasta R$ 40”, diz ele em texto divulgado pelos organizadores. Faz sentido usar homeopatia (que para mim funciona às mil maravilhas) e quem sabe assim bandejinha de tomates passe a custar menos.

Hana Matsuri, os 2.632 anos de Buda

Buda's birthday Buda’s birthday

Buda fez aniversário no fim de semana e eu fui até a Liberdade comemorar. Cheguei um pouco tarde, quando as “velinhas” já haviam sido apagadas, quando Buda já se preparava para descer do elefante e voltar para uma vida mais contemplativa, depois de dar um rolê pelas ruas do bairro japonês.

Comi hossomaki que comprei na Towa (foto) e aproveitei para renovar ali o estoque de talharim de arroz (feito na Tailândia). Adoro aniversário!

Cadê o hossomaki que estava aqui?

Comida de Dragão

Veja as fotos da Comida de dragão de Renato Targa

Comida de dragão, tradição dos tempos de Artur. Revigora, alerta todos os sentidos e provoca um incêndio.

Está vendo esse molho tailandês chamado Sriracha, o mais alto da fila? Junte a ele suco de tamarindo, de limão cravo, de limão tahiti, um pouco de cominho, coentro e outras cositas más e terás um incêndio pronto para gravar o nome desse prato em sua língua.

Ha, dirá um baiano. Você não sabe do que está falando. Bem, sei sim.

Preparei uma receita oriental no estilo o-que-tem-na geladeira-e-nas-prateleiras-de-casa mais o que eu trouxe da expedição à Liberdade - um maço de aspargos frescos e cogumelos franceses. Na falta de gengibre, usei cebolinha e salsinha. Acrescentei um pouco de açúcar mascavo e tofu fresco, que é branco, não tem gosto de nada e teve um leve efeito no incêndio.

Comemos com voracidade -a fome continua sendo o melhor tempero. Cheguei à conclusão que foi soberba ignorar as receitas e dar uma de alquimista sem brevê.

- “Nem tudo dá certo”, comentei com a Miki, que é cozinheira, pelo telefone.

- “Um lassi, bebida indiana preparada com iogurte, poderia cair bem com essa comida de dragão”, respondeu a Miki.

- Comida de dragão? Hahaha. Um bom nome.

E assim ficou, um exercício para rir dos próprios erros.

Blogs sobre comida fazem a minha festa

Adoro comer bem e, como boa natureba, adoro ler sobre comida. Tenho preguiça de cozinhar todo dia, sou temporã à beira do fogão. Como ler não dá tanto trabalho, os blogs sobre gastronomia e comida entraram na minha vida para ficar, substituindo as revistas femininas e suas incríveis receitas.

Acompanho o que acontece no Slow Food Brasil, que agora promove um concurso de receitas com batata Chefs contra a fome. Leio as últimas descobertas dos Gastronautas Amadores, descobri o enorme acervo de receitas do Trem Bom, visito o Dadivosa.

Ontem copiei uma receita de Pudding de Banana no Cabeça Gorda da Miki. Hoje encontrei ali um menu do dia criado por ela especialmente para o filme Estômago, vale a pena conferir. Encontrei ainda a enorme lista de blogs sobre culinária que o Kafka na Praia organizou.

Para preparar no almoço de hoje o maço de raízes de bardana (ou gobo, como se diz em japonês) que comprei na Liberdade, apelei para o tio Google e foram os blogs que me deram as dicas. Essa planta incomum, com propriedades medicinais, tem uma raiz saborosa que me lembra o gosto de alcachofra. Preparei-a à moda “comida de mãe japonesa”, como me explicou o Comadre Fulozinha, um site de Pernambuco que vende produtos orgânicos.

Não segui nenhuma receita ao pé da letra, adaptei um pouco o que encontrei e preparei a raiz com cebolinha, shoyu e gergelim torrado. No blog Pecado da Gula, encontrei uma receita mais sofisticada, que ficou para outro dia. A bardana ficou assim:

gobo bardana

 

 

América lambuzada de doce de leite

Recomendo esse post cabeça-gorda, como diz a Miki, sobre doce de leite escrito pela antropóloga Esther Katz e publicado pelo Slow Food Brasil. Recomendo aos gulosos como eu. Começa assim: “Os doces de leite não são exclusividade do Brasil, Uruguai ou Argentina. Em todos os países da América Latina, encontram-se variedades de doce de leite, com nomes diversos. Em países em que se fala espanhol, dulce de leche é o nome mais comum, mas também é conhecido como manjar blanco no Chile, Peru, Equador, Colômbia e Panamá - e, nesse último, também como bién-me-sabe -; cajeta no México e na América Central; jamoncillo no México; arequipe na Colômbia; leche de burra em El Salvador e na Nicarágua.”

dulce leche

Gosto de doce de leite.

Torço o nariz para os que não tem estirpe, açucarados, sem graça, sem alma.

Gosto da variedade argentina, escura, usada em recheio de alfajores e pães. Dulce de leche da marca Havanna, que loucura. Isso me lembra a necessidade de um guia sobre “como não engordar um quilo por dia em Buenos Aires”.

Preparei doce de leite em um sítio, uma vez. Em bando, com amigos da faculdade, fui para um sítio em Tietê. Tínhamos uma panela com vários litros de leite. Bem ao lado, a companhia de uma mesa animada pelo jogo de War. Várias horas depois de mexer, mexer e mexer sem fim o que parecia ser um caldeirão de bruxa, aposentei-me do metiê de fazedora de doce de leite. Docinho de leite, agora, só no blog ou no tabuleiro de alguém. Eu, hein, jacaré?