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Carmo, um road movie

CARMOPoster

Adorei Carmo, Murilo.

(o filme ganhou o prêmio do público da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, concorreu em Sundance, incluiu meu amigo no IMDb).

Sabe que encontrei diluído ali um eco da viagem que fizemos pela Belém-Brasília? Em Imperatriz, mastigamos um sanduíche de queijo de olho nas barracas de garimpeiros que iam ou vinham de Serra Pelada. A mesma situação de fronteiras diluídas que o filme situa em Mato Grosso do Sul. Na bagunça de Carmo, que é espetacularmente interpretada por Mariana Loureiro, sensacional esse personagem, viu, cabeça para fora da caminhonete na estrada poeirenta, achando que Paris Texas fica perto de Ponta Porã, lembrei da festa que demos no corredor de ônibus para espantar o tédio.

Bão, muito bão o filme. Hit the road, Jack.

Mais sobre Carmo:

Movie, nova revista sobre cinema

Limite Limite

Semana passada recebi notícias do André Forastieri. Ele edita agora Movie, uma revista sobre cinema em versão papel e online.

A primeira coisa que me chamou atenção é que todo o conteúdo é licenciado por Creative Commons.

A segunda é que os suportes são tão importante quanto os títulos ou seja, você navega não só pelos filmes como por lançamento para cada formato: cinema, DVD, Blue-Ray e Séries.

O André continua com aquela ginga/lábia toda e explica:

“Ah, a Movie digital. Esta sexta-feira estreamos. Soft launch, como dizem os gringos, ou em português claro “ainda não está pronta para estrear mas vamo que vamo”.

A versão eletrônica de Movie tem duas grandes diferenças de todos os outros sites de cinema (pelo menos os que a gente conhece).

Primeiro, é o primeiro site de cinema focado em conteúdo em vídeo. Cinema é imagem em movimento. A internet agora é em banda larga. Não tem mais sentido fazer um site sobre cinema cuja maior parte do conteúdo é texto e foto.

Isso vai nos forçar a reaprender a fazer revistas, porque não basta botar um trailer qualquer lá, é preciso pensar editorialmente como transmitir a informação. Também não é televisão, porque vamos combinar vídeo, texto, foto etc. Uma mídia muito nova.

Segundo, uma mídia muito nova como essa exige muitas cabeças pensando, e por isso Movie é colaborativa. O site é absolutamente aberto para colaborações de todos os gêneros.

Todo o conteúdo – produzido por você, por mim, pela equipe e correspondentes e colaboradores de Movie, é publicado com uma licença Creative Commons. O que neste caso quer dizer que este conteúdo pode ser republicado por qualquer um em qualquer lugar da internet, contanto que dê o crédito para o autor e o veículo. Não pagamos nada pelo conteúdo da sua colaboração; não cobramos nada para este conteúdo ser reproduzido livremente na internet; e não cobramos nada, claro, para você acessar o site Movie.

O modelo para pagar as contas é tradicional: publicidade. Com uma diferença interessante: a possibilidade da veiculação de publicidade em vídeo. Vai funcionar? Apostamos que sim, no médio prazo.”

Em resumo, ele convida o povo a colaborar.

OBS: André, demorei, mas dei o toque a tempo. Sucesso nesse projetão!

Bode rei, cabra rainha

Bode rei, cabra rainha, filme de Helena Tassara que foi escolhido como o melhor média metragem da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, estará na TV Cultura. Ele abre a programação de Janela Brasil na quinta, dia 9, às 22h10.

Eu já vi e gostei. Tem humor, poesia, pastoreio, cenas de buchada explícita. Helena contou que a carne preparada como churrasco é saborosa. Eu, por meu lado, compreendo bem uma senhora que diz no filme não conseguir comer o bicho que cria. Eu costumava alimentar coelhos no sítio de meus tios e eles viravam tapetinhos. Foi um ótimo treinamento para virar veggie.

Leia mais sobre Zeca Baleiro nesse filme.

Palavra (en)cantada: a força do verbo em documentário

No fun at all No fun at all

Escolhi assistir ao documentário Palavra (En)cantada com medo do arrependimento. Seria um chatomentário? Seria uma verborragia de especialistas sobre a força do verbo? Uma herança daqueles que me rodeavam, livro em punho e pergunta pronta, “você gosta de poesia”?

Surpreendi-me. Para bem. Ao fim do filme, senti um conforto espiritual. Existem reservas de biscoito fino. Resiste a inspiração.
O verbo ainda tem poder, ufa, que beleza, estamos salvos. O Big Brother Brasil e afins são apenas ilusão, transtorno coletivo de comportamento.

O filme de Helena Solberg e Marcio Debellian tem a seu favor um elenco de pensantes interessantes. Não conhecia a verve poética de Lirinha, que conhecia no microfone, à frente do Cordel do Fogo Encantado. Adorei sua interpretação do poema de João Cabral de Mello Neto. Algo assim: o amor me tirou isso, me tirou aquilo e aquilo e tal, o amor me roubou o medo da morte.

Adorei também o mergulho nas imagens de arquivo que o filme traz. Por meio dela, descobri que a impertinência e a burrice dos repórteres televisivos tem linhagem, que remonta a 1967, quando Caetano Veloso apresentou “Alegria, Alegria” no festival da Record.

O antepassado dos repórteres sem graça dispara para Caetano: “E aí, como é que você coloca Coca-Cola e Cardinale na mesma música? De onde vem isso e por que fazer isso?” Faltou perguntar o sentido da vida.

Duas horas viajando em letras da MPB, os olhos de Chico Buarque para me ajudar a viajar, um canto trovadoresco interpretado por Adriana Calcanhoto só para abrir o apetite, no começo. Que filme bacana, como é bom falar português, como eu gosto dessa misturança brasileira que deu em música e poesia.

Sob a tag blogueiros

Nome próprio/ Première Nome próprio/ Première

Assisti a uma sessão do filme Nome Próprio, de Murilo Salles, na companhia de muitos blogueiros. Como a personagem do filme tem um blog, aha, que tal chamar um punhado de blogueiros? Tá na moda chamar um punhado de blogueiros. Fomos muitos para lá, a lista de URLs presentes é longa. Sábado, sessão da meia-noite no Unibanco do Frei Caneca.

Topei. Mesmo que “um pedaço da blogosfera brasileira” seja bom motivo – conheço vários blogueiros interessantes – gostei da idéia da première mais ainda porque estava curiosa sobre o filme. Para falar a verdade, não sabia direito do que se tratava. Tinha algo a ver com o Campus Party, Clarah Averbuch, algo assim bem vago, sendo que eu nem sabia se já tinha lido coisas dela. Ainda não sei.

Gostei:

1- O filme não é uma grande bobagem. Não é previsível. Está longe de ser um Duro de Matar 19. Ponto para ele por arriscar.

2- A Leandra Leal arrasa.

3- Na hora em que um cara que a blogueira bêbada conheceu no bar diz para ela que é de Ribeirão Preto e que não vai acontecer nada, que eles vão ficar ali só de boa, eu ri muito. Parece documentário. O filme tem outros momentos assim, de verossimilhança.

OBS: o post do Zander também menciona o rapaz de Ribeirão Preto.

Não gostei:

1- Tem um quê das pornochanchadas. Tem hora em que lembra umas melecas do fim dos 70, começo dos 80, quando os alunos e professores de cinema da ECA-USP lançavam filmes na Boca do Lixo. Uma coisa mezzo aliche, mezzo mussarela. Encontro entre o cinemão e a falta de cabimento. Muitas vezes ele chega ao bizarro. Eu vi um pedaço de braço no canto esquerdo da tela. Ao meu lado, Renato chiava porque não tinha nada de iluminação, esqueceram de fazer a fotografia, o desenho de luz. Tem esse lado trash.

O Eric Messa, que segura o celular nessa foto, também reclamou da tosqueira e mencionou a mídia espontânea que o filme geraria.

2- Ninguém merece cena de barata e de junkie em momentos sujos. Escatologia sem contexto não dá. Não é assim um “Cheiro do Ralo”, que trata desses assuntos com propriedade, como lembrou Pedro Markun, um dos blogueiros e twitteiros.

OBS: No post “porno-digitada”, Fernando Mafra menciona Bukowski, outro comentário recorrente. “Não é Fante, nem Bukowski”, dizia-se no bar.

O post de hoje de vários dos blogueiros convidados reclama da personagem junkie, dizem que ela é chata. Todos preferem dizer que foi melhor a conversa no bar Exquisito pós-filme, do que o filme em si.

Eu não chego a ser tão drástica. O Exquisito deixou meu casaco de inverno com cheiro de pastel. Detesto isso. Depois, quando um filme não tem correria de carrões eu já acho ótimo, ele já começa a ter crédito comigo. Mas eu acho que se perdeu ali uma oportunidade de falar de algo mais interessante. Menina com dor existencial quer ser escritora, mas toma bolinha, bebe cerveja quente (outra coisa que chocou muito o grupo dos blogueiros) e é meio mala não chega a ser um tema profundo.

3- Pena que a blogueira seja o clichê.

Explico: blogueira em 2001 tem sofrimentos existenciais, bebe cerveja quente e toma bolinha. Fica louca, escreve no blog, expõe a vida na internet, bebe cerveja quente, toma bolinha, escreve no blog. É nessa base. Podia ser uma blogueira menos chata.

Leandra Leal, você arrasa, mesmo como junkie sem nada para fazer da vida. Mas nem você salva o filme desse climão de fim de festa de gente chata.

Receitas de blogueiros para o filme Estômago

entrada: creme verde entrada: creme verde

O livro de receitas dos blogueiros inspiradas pelo filme Estômago já está disponível para download: baixe aqui.

Na foto, você vê o creme que a Miki inventou inspirada no filme – que eu ainda não consegui ver, pois abril chegou feito um furacão.

A busca espiritual em Darjeeling

“Você fala como Marlene Dietrich, suas roupas são sempre feitas por Balmain. Você vive em um apartamento de luxo do boulevard Saint Michel, onde você guarda seus discos dos Rolling Stones. Você vai a festas nas embaixadas, onde conversa em russo e em grego. Você vem da Sorbonne. Mas diga, aonde você vai, adorável, quando está sozinha?”

free music

Como é a busca espiritual?

Ela tem como trilha “Where do you go to (My lovely)”.

A música de Peter Sarstedt foi hit em 1969 (!!!). Pelo menos, é assim no filme Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited), dirigido por Wes Anderson. O aloprado diretor (seu Jorge cantando Bowie em português, lembre-se, foi coisa do cara) desta vez filma entrelinhas. Só filma o que não é dito.

Sendo assim, ao término do filme, tive aquela sensação de… bem… era isso? No dia seguinte, ainda com a cabeça no travesseiro, abri os olhos e passei a gostar mais e mais do filme. É daqueles que precisam assentar, que caem melhor depois que você mastiga e remói as cenas de pastelão. Os dias passam e Darjeeling fica cada vez mais interessante, mais “Darjeeling Unlimited”.

Esse filme com nome de chá e de uma cidade indiana para onde os ingleses fugiam durante os tórridos verões da colônia não tem limites quando se trata de ridicularizar a busca espiritual-pronta-entrega. Vista um sári e um colar de flores, ajoelhe-se diante de um templo nos confins da Índia, dê três pulinhos e alcançarás a purificação. Argh, explica o filme, sem limites quando se trata de pisar em cima da alma dos que ousarem confundir busca espiritual com malas Louis Vuitton. Daí a música que fala de verões e invernos do jet-set.

Genial

Os caras chegam ao templo sagrado de blá-blá-blá e um dos irmãos vira de costas para aquele santificado atalho para o nirvana e só pensa em achar um adaptador para tomadas com os camelôs. Assim é o ser humano. Louco por camelôs.

Hotel Chevalier

Como eu gostei de “Darjeeling Limited”, poderia passar horas a dizer o filme é genial por explicitar apenas o que não é essencial. Tudo o que realmente importa não é dito. Mas vou dizer apenas que é essencial ver Natalie Portman nua em Hotel Chevalier, um curta-metragem que explica tudo sobre o longa porque não explica nada. Essa tal busca espiritual, sabe como é. Não tem nada a ver com serviço de quarto em hotéis com talheres de prata.

Ex-girlfriend: Whatever happens in the end, I don’t wanna lose you as my friend.
Jack: I promise, I will never be your friend. No matter what. Ever.

Bálcãs: janelas para a cultura cigana

Metais ardidos, acordeon, som de bandinha de coreto da praça. Opa opa! Um gole de aguardente entornado de uma vez só. Pula, pula, ô-pa. Mais um gole, metais ardidos, mais festa.

Quem viu um dos filmes de Emir Kusturica sabe mais ou menos como celebram os ciganos do leste europeu. A tradição dos Bálcãs é de esbórnia, é uma música aparentada com o trio elétrico baiano – pelo menos na inspiração dionisíaca.

Kusturica que, além de ser um dos meus diretores favoritos, é também músico. Em 2001, ele fez uma divertida turnê de trem com a banda No Smoking Orchestra, registrada no documentário Memórias em Super-8 (Super 8 Stories). Emir toca guitarra, o irmão, Stribor Kusturica, toca bateria. Os dois brigam bastante.

Goran Bregovic é outro da minha lista de luminares do gênero metais ardidos. A história do Bregovic é ótima: nascido em Sarajevo, filho de mãe sérvia e pai croata, foi celebridade do mundo pop com uma banda punk. Depois, tornou-se um respeitado na música erudita e fez a trilha sonora de vários dos filmes de Kusturica.

Assisti a Bregovic na Sala São Paulo. Única vez, provavelmente, em que rolou uma ciranda na platéia da elegante sala de concertos. Foi uma delícia dançar em círculo suas músicas “para casamentos e funerais”, como é o título de um de seus álbuns. Pula, pula.

Balkan Beats

Tom B , grafiteiro, ilustrador e DJ, chegou de Londres com um carregamento de Balkan Beats e colocou gentilmente as novidades na web para a gente ouvir. Sensacional.
Ele conta o seguinte: “Nos anos 90, com a queda do Muro e a guerra na Iugoslávia, toda uma geração emigrou do Leste Europeu – principalmente pra Alemanha – e amadureceu em contato com o fino da música eletrônica. Hoje em dia, DJs e produtores de lá estão retomando esse som de raiz; temperado com coisas tipo dancehall, hip-hop, miami bass e reggaeton”.

Borat, roteiro Didi Mocó estragado do extremo leste europeu

É a partir da base dos descendentes dos nômades do leste europeu que Borat avança até ultrapassar a linha Didi Mocó da falta de cabimento. Sem o refinamento de um Kusturica, Borat com seu bigodón e suas frases sobre “usar a irmã” enfia o pé na jaca mole e termina sem graça, na minha opinião. O roteiro para música cigana acima leva a melhores fontes. Não perca seu tempo.