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O mirante colaborativo de Gonçalves

Olha que idéia fantástica: dividir o horizonte com todos. Em vez de murar o sítio, abrir um jardim suspenso para que todos possam apreciar a linda paisagem do bairro da Pedra Fria, em Gonçalves, Minas Gerais. Foi o que fez Mauro Fernandes, um homem que planta framboesas, physalis e amora orgânicas. Ele mantém um mirante.

No feriado, fui uma das visitantes que encontrou o portãozinho aberto e foi acolhida pelos vasos floridos que enfeitam o deck suspenso a vários metros do chão. Dali se avista todo o vale da Terra Fria e a Pedra do Forno. Uma plaquinha dá o recado para quem não entendeu o espírito da coisa: Não fume.

No mural, aprendo mais sobre essa idéia. Aquelas terras lembram a região do norte de Portugal, quase fronteira da Espanha, onde a mãe de Mauro nasceu. Ele escreve: “Queremos dividir essa vista maravilhosa da Terra Fria com aqueles que por aqui passarem como extensão do carinho que mamãe dispensou a todos que com ela conviveram.” Uma homenagem cheia de vida. Nesse ponto, um mirante é melhor do que qualquer placa de bronze, melhor ainda que poema ou nome de rua, porque ele se renova todo o dia.

Esse plantador de orgânicos abriu um jardim no muro e inventou um treco novo, pensei ao conhecer o lugar: um mirante colaborativo! A minha parte é trazer a estrada para dentro do sítio, a parte dele é abrir o horizonte e mostrar que com idéias a gente inventa novas formas de fazer as coisas.

Azul para inspirar a semana

Azul para inspirar a semana Azul para inspirar a semana

Nem precisei equilibrar um ovo no muro para Santa Clara. Dizem que é uma simpatia infalível para que a chuva pare. Até pedi aos amigos sugestões de outras simpatias para afastar a chuva, mas o que valeu mesmo foi o combinado: sol no fim de semana na praia.

Fiz nada. Recebi cheia de sorrisos o nada. Deixei o vento passear pelo cérebro. Lavei as idéias no mar.

Fotografei flores, brinquei com os cachorros que são os donos da praia, ouvi sobre problemas das favelas do outro lado da estrada e da poluição dos rios.

Depois, reparei nas flores. Quantas flores estranhas nascem no meio da areia.

Vi um pássaro beatnik, o anu branco, guirá. Vi um tiê-sangue, passarinho bonito demais. E um outro chamado sete-cores, pelo menos assim disse o caiçara. De um verde-azul-celeste-sei-lá-como-descrever.

Ainda houve tempo para o pudor da maria-farinha que foge apressada e o furor do quero-quero, que não quer saber de gente perto dos ninhos feitos no chão.

Tudo isso em dezembro, bendita a minha idéia de comemorar um aniversário na praia.

Como fica o texto depois do blog

Duas considerações sobre o texto depois do blog. A primeira, inspirada por um comentário de Chris Anderson, editor da Wired, e a segunda, por Lea Woodward, que mantém o blog Location Independent, sobre pessoas que decidem viajar e trabalhar a partir de qualquer lugar do mundo, longe da luz fluorescente dos escritórios.

O blog arruinou meu texto

Long tail

Na noite do domingo, entretida com a leitura dos meus feeds, achei a entrevista de Anderson para o livro “Blogging Heroes: Interviews with 30 of the World’s Top Bloggers”, que ainda será lançado. A estratégia para divulgá-lo foi permitir a cada um dos 30 blogueiros top do mundo (uhu, isso sim é vip) publicar seu capítulo no endereço pessoal.

Quem me avisou sobre os capítulos disponíveis foi um post da Luciana Terceiro, que hoje vi replicado em outros blogs e comentado no Twitter. Todo mundo quer ler Chris Anderson, autor do livro “The Long Tail” (Cauda Longa, como ele batizou a curva desenhada no gráfico pela pulverização de temas e nichos no mercado). Nessa entrevista, Anderson comenta que o blog arruinou seu texto para a revista:

“By the way, I find blogging ruins me for magazine writing. It’s difficult to write for magazines right now, which is ironic given that I’m a magazine editor. It’s difficult because magazines are a kind of one-size-fits-all product, and the audience is large, with differing interests. You have to write something that tries to satisfy all of [your readers] or many of them, whereas a blog is very self-selecting. If you’re interested in what I have to say, fine. If you’re not, that’s great—go somewhere else.”

Ele comenta que a revista precisa atingir o grande público e o blog é auto-seletivo. Se o leitor não está interessado no que ele tem a dizer, tudo bem, segue seu caminho e acabou-se a preocupação do autor. Acho que ele fala mais de liberdade do que de estilo, afinal, o leitor insatisfeito também abandona a revista, mas como funcionário de uma empresa, a reação não pode ser igualmente bem-vinda. Deve ser isso. Anderson também comenta como foi proveitosa a experiência de escrever “The Long Tail” junto com os leitores, de forma colaborativa. Acho que ele se refere ao prazer de ter interlocutores, ao resultado que é sempre melhor quando se tem um grupo que trabalha feliz e com generosidade pelo melhor resultado.

Blogo em cenários paradisíacos

Lea Woodward é para mim essa foto:

Lea Woodward

Você tira a Lea e coloca a Ana e tem idéia da visão que eu tive no início de 1999, enquanto mergulhava em um rio limpinho durante o verão, a poucos quilômetros da praia. Meses depois eu começava a trabalhar na web, para a web, em novos projetos web etc. Na época em que avistei essa miragem, não havia conexão sem fio, mas eu sabia que ela chegaria. A linha discada tornava impossível ser LIP, como diz Lea, Location Independent Professional (Profissional Independente de Local).

Guardei a visão: trabalhar na web pode ser algo portátil. Ainda não sou LIP, ainda dependo de local, mas Lea diz que tem algumas dicas. Ela escreveu um livro, lançou um vídeo, criou um blog e senta em coqueiro na área “quem sou eu” de seu blog graças às dicas. Uma visita superficial ao endereço não revela dicas tão preciosas assim. As cinco orientações básicas poderiam estar em qualquer guia de viagem.

Cá entre nós: o segredo, que ela não conta de cara, é ser pioneiro em uma determinada trilha. A trilha começa como picada, estreita, tortuosa, quase invisível. À medida em que se torna popular e o segredo se espalha, ela vira avenida e perde o valor.

Poluição no rio Tietê leva espuma a Pirapora

Nasce riacho, vira rio, conhece os males do mundo e chega a Pirapora exausto, ensaboado. Como se alguém tivesse esquecido uma gigantesca máquina de lavar aberta, o rio Tietê ali espuma.

espuma pirapora

Enquanto os peregrinos comem pastel com leite e café em Pirapora do Bom Jesus, o vento leva e traz o cheiro da poluição.

pirapora rio

Fiz o percurso até a cidade espantada com minha disposição em fotografar no domingo o local de peregrinação, distante apenas 52 km da Praça da Sé. “Sou caipira Pirapora, nossa Senhora!”, citei Renato Teixeira. “Aprazível Pirapora”, eu não parava de pensar. Na estrada, um lixão à esquerda e um rio oleoso e morto à direita. Garças, insistentes, sobrevoam as margens até hoje. Um grupo caminhava na trilha de terra com varas de pescar na mão. Teorizamos: deve ser peixe dos afluentes, ainda limpos antes de chegarem ao rio esgotado.

pirapora anjo

O nome vem do tupi guarani. Significa peixe (Pira) que pula (Pora), imagine. Hoje em dia, até peixe precisa de fé para encarar a situação.

Ao passar por Santana do Parnaíba, a conversa no carro voltou-se para a verdadeira índole dos bandeirantes, gente sem um pingo de medo nem dó, caçadores de índios. O passeio ficou totalmente educativo quando na volta passamos pela porta do parque Villa-Lobos, pois o antigo aterro sanitário agora atrai criancinhas com seus triciclos, prova de que ambiente é também uma questão de vontade política.

“Aprazível Pirapora”, um novo Cubatão da periferia de São Paulo.

Das Park: um hotel que usa tubulões de cimento

Em Ottensheim, cidade austríaca às margens do Danúbio, prossegue até outubro uma experiência diferente de hospedagem, criada pelo designer Andreas Strauss. É dirigida a espíritos e bolsos despojados. O Das Park Hotel oferece lençóis, cobertor, cama de casal e uma tomada para recarregar eletrônicos e em troca pede aos hóspedes que paguem somente o que acharem que devem pagar, de acordo com o tempo de uso do hotel e de suas possibilidades.

Das Park

Como banheiro, chuveiro e lanchonete pertencem ao parque onde estão os quartos, tudo é muito minimalista. Segundo o criador do projeto, que funciona entre maio e outubro pelo terceiro ano, o Das Park Hotel é uma forma barata de hospedagem que oferece uma experiência de aconchego em um espaço público.

Depois de fazer a reserva, o interessado recebe or e-mail a senha para trancar o quarto e usar o local de armazenagem disponível dentro de um dos três tubulões.

Das Park Hotel

Tem gente experimentando coisas diferentes, comentam aqui em casa. É um experimento para outra cultura, outro hemisfério, penso com meus botões. Começa com um e-mail e termina com elegância. Acho que por aqui não daria muito certo, a começar pelo pagamento da hospedagem. O hóspede deixa a soma no quarto antes de sair.

Dica do Pan-Dan, via Luciana Terceiro.

É época de ver baleias francas e jubartes

Ver baleias é uma experiência forte. São seres pré-históricos que a gente ainda pode observar. Dinossauros do mar que se deslocam em grupos. Saltam. Cantam.

Baleia jubarte 2

Do litoral da Patagônia até a Praia do Forte, na Bahia, é o momento para observar baleias. Entre julho e outubro elas migram para águas mais quentes para acasalar e amamentar os filhotes. Imbituba, em Santa Catarina, uma cidade onde se caçava baleias, hoje há uma área de preservação onde é possível avistar os esguichos em forma de “v” das baleias francas. Mas é na península de Valdez, uma língua de terra da Argentina que avança sobre o mar e que é protegida como patrimônio natural da humanidade pela Unesco, que se encontra sua maior concentração. Eu vi jubartes em Itacaré, tão perto da costa que se avistava ainda o farol.

farol itacare

Também chamadas de baleias corcundas, as jubartes fazem acrobacias e tem uma vocalização complexa, comunicam-se por meio do canto e transformam a canção no decorrer da temporada. Vi machos, que têm mais de 12 metros de comprimento e pesam até 30 toneladas, elevarem-se sobre a água para impressionar a fêmea. Do barquinho, pareciam prédios de apartamento produzindo um tremendo splash na água. Assombroso.

No litoral da Bahia, dizem que as jubartes se concentram na região de Abrolhos. Mas como podem ser vistas também em Itacaré e na Praia do Forte, tenho impressão que o litoral nessa época é um grande corredor para baleias. Fêmeas e seus filhotes, machos jovens, grupos que navegam velozes e que a gente pode acompanhar por alguns momentos. Quem chegar perto verá.

  • Essas fotos foram feitas pelo Renato em Itacaré. As minhas não deram em nada, pois eu fiquei maravilhada com os bichos e perdi a concentração. Juro que pulei na água para tentar ouvir o canto. Outro dia falei das baleias no jornal, aproveito para recomendar novamente. É uma experiência e tanto.

Viagem Second Life à Coréia do Sul

A foto abaixo foi tirada essa semana em Seul, durante um fórum sobre jornalismo cidadão promovido pelo jornal Ohmynews. O brasileiro Carlos Rix foi convidado a participar e decidiu não ir sozinho. Levou em vídeo o papo que tivemos eu, ele e Roberto Taddei no restaurante Feira Moderna, na Vila Madalena, sobre perspectivas para o jornalismo cidadão no Brasil.

Achamos que a bandeirinha do Brasil de flores de papel seria um cenário simpático.

Ao ver a foto, senti-me estranha. Estive virtualmente esta semana na Coréia do Sul. Uma viagem nos moldes de Second Life: o vídeo levou passear minha timidez, voz, trejeitos e idéias. Fui, mas não fui.

Seul