O Berkman Center for Internet and Society é um centro de estudos ligados à Universidade de Harvard que possui um projeto chamado Internet e Democracia.
Recebi na semana passada a indicação de um estudo sobre o papel do telefone celular na Revolução Laranja (Orange Revolution) da Ucrânia. Só hoje tive oportunidade de aprender mais sobre o “Incidente do Ovo” e o papel do jornalismo colaborativo em 2004, quando milhares de pessoas se mobilizaram contra fraudes nas eleições. Disputavam a presidência Victor Yanukovych, sucessor do então presidente Leonid Kuchma, e Victor Yuschenko.
O autor do estudo, Joshua Goldstein, pergunta como – em um país que tinha na época apenas 2% a 4% de sua população (48 milhões de pessoas) ligada à internet – tanta gente se mobilizou? Como a informação circulou pelas bordas, correndo na raia fora da grande imprensa, partidária do governo, ou pelo menos, fortemente pressionada pelo governo?
Como foi que os protestos sob baixas temperaturas levaram a uma nova eleição de segundo turno? Como foi mesmo que o candidato de oposição, Yuschenko, ficou com o governo?
Humor
O humor é uma das respostas para a mobilização, afirma o estudo. Foi com muita risada que a informação restrita à elite e aos formadores de opinião desceu até os que não teriam acesso a ela. A brincadeira ajudou a mobilizar e a informar gente que de outra forma estaria longe do assunto.
O tal incidente do ovo foi o seguinte: o candidato do governo fazia campanha quando foi alvejado por um ovo. A grande imprensa ficou com a versão oficial, de que ele havia sido “brutalmente agredido por uma câmera de vídeo”. Todos os tapes foram confiscados, menos um, que ganhou divulgação online.
Uma infinidade de piadinhas e charges começou a circular no país. Criaram até um jogo online chamado “The Boorish Egg”, em que os adversários lutavam contra os que apoiavam o governo com ovos. O incidente ficou popular.
Formadores de opinião
Além do humor, outro motor da mobilização foi a influência dos formadores de opinião, diz o autor. O estudo cita a “Teoria do Fluxo em Dois Passos” (Two-Step Flow Theory), dos sociólogos Katz and Lazardsfeld (1955), para explicar como a internet, o celular e o jornalismo colaborativo fizeram com que as pessoas fossem à rua protestar, mesmo com o frio e a ação policial.
Segundo os sociólogos, a informação toma dois caminhos. O primeiro caminho é dos meios de comunicação de massa diretamente para o público. O segundo caminho é de uma elite de formadores de opinião para o grande público. “Essa teoria delineia como um grupo relativamente pequeno de ativistas e jornalistas cidadãos conseguiu criar um ambiente diferente de informação que desafiou a narrativa apresentada pela mídia controlada pelo governo”, afirma Goldstein.
Gostoso de ler
Joshua Goldstein, um cientista político com carreira acadêmica papo-sério e vários livros, tem um estilo bem gostoso de se ler, o que já é uma maravilha. Quantos estudos acadêmicos naufragam na impermeabilidade da linguagem, no texto chatonildo…
Esse estudo sobre a Revolução Laranja foi publicado agora em Dezembro de 2007. Está saindo do forno fresquinho, portanto, e tem uma vivacidade de quem conta e analisa com entusiamo. Não é ciberchato, não é cibermilitante. Eu “ciberrecomendo”.
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“The Role of Digital Networked Technologies in the Ukrainian Orange Revolution,” Josh Goldstein and the Internet & Democracy Project, December 2007