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Ponto de ônibus

Ponto de ônibus Ponto de ônibus

Ondbus, como diz o Francisco.

Hoje ele fez seu primeiro passeio com a escola de ondbus. Imagine um ondbus com 20 criancinhas, todas felizes e com um frio na barriga. Do lado de fora, pais nervosos e uma mãe repetindo o mantra: “Eles sabem o que estão fazendo. Eles estão acostumados. Eles sabem o que estão fazendo”.

Foram ao aquário. Tudo muito abstrato: quem mora no aquário, quem mora no mar? Tubarão morde a gente, carro morde a gente?

Tudo muito abstrato, explicar o que é natureza, o que é cultura, o que é cidade…

Por que sujaram o rio Pinheiros? Por que jogaram lixo no rio, mamãe? Por que a ponte tem fios? A ponte morde?

Desfraldar

sem fralda sem fralda

Francisco hoje vestiu uma cueca. Já não usa fraldas. O dia é especial, como se fosse uma formatura da fase bebê. Agora é oficial: ele é um “menino grande”, não é mais bebê.

Ele veste um “cacaco de tapu” (casaco de capuz) e leva à escola um “tapacete” de bombeiro, está pronto para o dia. Como é fofo! Como é gostoso acompanhar essa expansão e esse aprendizado.

Desfraldar é coisa de barco que desfralda as velas para atravessar oceanos e conquistar novos mundos.

Troca de figurinhas e o Gênio do Crime

figurinhas Figurinhas e Pinot Noir

Cena 1: Estou em um café e na mesa ao lado três garotas próximas dos 30 anos debatem futebol com muita propriedade – ao menos, para meus ouvidos leigos. Enquanto falam, colam figurinhas no álbum da Copa. Parece tão insólito quanto três rapazes discutindo bordados ponto cruz.

Puxo conversa. Gostam tanto assim de futebol? Trabalham com isso? Não? É só hobby? Não?Trabalham na agência de publicidade ao lado e estão viciadas em álbuns de figurinha. Aquele já é o terceiro.

Cena 2: Vou ao cinema do shopping Eldorado ver “Alice” do Tim Burton e da escada rolante observo um mar de cabeças debruçadas sobre álbuns de figurinhas. É uma feira de trocas. Lembro de ouvir falar em troca também nos corredores do Conjunto Nacional e em determinadas bancas de jornais.

Cena 3: Grande churrasco de Dia das Mães com várias famílias reunidas. Na varanda, as crianças e os jovens trocam figurinhas. Quietos, à parte, negociam. Levo minha taça de vinho e apoio no álbum para registrar o momento jogo-de-bafo-versão-2010.

Cena 4 (flashback): Sou criança e devoro em dois dias o livro “O Gênio do Crime”. Boa literatura infanto-juvenil de João Carlos Marinho que fica na memória por duas razões: Bolachão, o protagonista, acampa às margens da marginal Tietê (nem naquela época isso era possível) e soluciona de forma engenhosa o roubo de álbuns de figurinhas.

Cena 5 (a partir de junho): Pipoca pronta para assistir ao jogo. Quem joga mesmo?

Manter a perspectiva

Geometria Geometria

Retomo a antiga rotina hoje de trabalhar por projeto.

É

sempre

bom

manter

a

perspectiva.

Buenos Aires

El Ateneo El Ateneo

Lia um post sobre roteiro gastronômico em Buenos Aires . Fui parar ali porque uma amiga escreveu sobre ele; lembrei de outra amiga, Marlene, que mora na cidade há bilênios. Bilênios? Isso não existe, certa feita me disse um editor. Mas o fato é que a amiga mora há bilênios em Buenos Aires, lugar que não visito a… bilênios.

Adoramos, todos nós na família, Buenos Aires. Meu pai é viciado em tango. Meu avô tocava tango. Minha tia dança tango. Minha mãe, quando não consegue fazer meu pai parar, aparece com passagens para Buenos Aires, derrota para qualquer argumento. Eu gosto de seus ares europeus, eu gosto de viajar. Eu já fui para Buenos Aires de carro, de avião e de ônibus, via Rosário, porque tinha inundação na estrada.

Já fui a Buenos Aires para um casamento doido que tinha cinco orquestras. Fui quando era criancinha. Fui quando casada. E minha amiga mora lá bilênios.

Meu filhote, heresia das heresias, nem alfajor provou ainda (só ovo Kinder, brigadeiro, brigadeiro de colher, bolo de aniversário, tudo o que for de chocolate lhe sabe bem). Francisco ainda não conhece Buenos Aires – falha trágica nesse roteiro. Aí vem.

Minha foto de El Ateneo, essa linda livraria que ocupa um antigo teatro, foi publicada na versão online de uma reportagem sobre as melhores livrarias do mundo do jornal inglês The Guardian. Eu aqui. Longe desse tal restaurante Sucre de que fala o guia gastronômico, longe de Palermo, de Buenos Aires, com saudades de mim, de ter tempo para escrever e ler.

Esse tempo a gente inventa. Esse Buenos Aires mítico também. Não existe. Só nos blogs, nas saudades, nas conversas com as amigas, nos planos com o filhinho, nos shows de tango que não são para turistas, só para poucos, muito poucos.

Quando Francisco nasceu para mim, eu costumava inaugurar o supermercado toda manhã de domingo. Sete horas e eu já estava lá, coletando suprimentos antes de o bebê acordar. Invariavelmente o supermercado tocava Bajofondo. Naqueles tempos, a trilha era um conforto.

Buenos Aires não é capital da Argentina, é uma terra inventada, mítica, daquele tipo onde ainda restam dragões, castelos com fosso, heróis com missão.

Longe daquela coisa palpável de Kirchner, dos taxistas irados com a política econômica (sempre eles, em qualquer lugar do mundo). Longe disso.

O estado em que nos encontramos eu e a internet

A torre do lobo A torre do lobo

Francisco fala como o Cebolinha. Começou a fazer aulas de natação e tem um pouco de medo. Ainda se interessa por caminhar com sapatos de adulto. Quer fazer tudo “tozinho”.

Eu voltei a trabalhar fora de casa e estamos os dois estranhando horrores. Eu voltei a trabalhar com internet o dia todo e, por isso mesmo, olhei com gula para o relatório The State of Internet, relatório anual do Pew Research Center’s Project for Excellence in Journalism. Só vontade, ando sem tempo para degustar.

O estado da internet deve ser melhor que o meu estado, imagino. Ô correria. Uma amiga de blog perguntou no post anterior, feito às pressas na época de carnaval: “Cadê você?”

Somos duas que não sabem de mim, Vivian. Cadê eu, eu e o meu estado com a internet.

No caminho para a escola, Francisco conversa comigo na cadeirinha instalada no banco de trás do carro.

- “Mamãe, a torre do lobo. Machucou o bumbum”.

Tradução: ele viu uma torre igual àquela por onde o lobo desceu na casa do porquinho da casa de tijolo, onde o esperava um caldeirão cheio de água quente, que queimou seu… bumbum.

- Filho, o nome disso é chaminé.

E assim a vida se esgueira pelas dobras, interessantíssima se a gente tiver olhos para vislumbrar.

Carnaval

Era carnaval Era carnaval

Calor

na

roça.

Verão

sem

vergonha.

2010

cor molhada cor molhada

Sem mais, me despeço, inté, ciao para esse ano. Nos últimos dias terminei três livros que esperavam por um bom momento, recheados com um marcador. O momento chegou, já passou, me dou por satisfeita em termos de últimos preparativos para a nova década.

Não apareço aqui tão cedo, pelo jeito, aproveito para desejar um 2010 fresquinho a você. Tomei toda essa chuva que acompanha os últimos dias deste ano – chuva para lavar mesmo, dirão os mais entusiasmados. Chuva além da conta para meu gosto, para lavar, ensopar, enlamear, gotejar. Pois que 2010 traga a chuva que você pediu, na sua medida.

Que traga o essencial, o essencial invisível aos olhos. E que seja largo de horizontes. Com muito riso.

Em fogo baixo até dourar

Cook and look Cook and look

Fim de ano dá uma preguiça/cansaço. O entorno de dezembro, espécie de papel de embrulho feito de preparativos, confraternizações, balanços, planos, presentes e correria, mescla-se à rotina como maquiagem pesada, dessas que só é boa quando a gente retira com algodão umedecido.

Eu olho para o presépio de palha e acho que alguma coisa se perdeu nesses natais desde a minha infância. Os anos não terminavam assim quando eu era criança.

Dezembro, temporais e verão. O ano cozinha em fogo baixo, até dourar. Gosto de fim e recomeço. Pausa para água de coco, bolo de aniversário e jingle bells. Muito jingle bells. Francisco diz “dji-go-bell” diante de qualquer luzinha que pisca, papai noel ou árvore enfeitada.

Cartão de Natal do Hubble

hubble seasons greetings

Sabe o que combina com tanto pisca-pisca? Galáxias e supernovas! Cartões de Natal do telescópio Hubble.

Uma árvore da 25

Onde? Onde?

Sei que é cedo para pular sete ondinhas, mas é tarde para a árvore de natal, que eu não tenho. Há anos. Uma árvore do terraço quebrou o galho algumas vezes, em outras nada quebrou o galho. Um sapo-Noel musical pregado com ventosa na geladeira no ano passado faz arder a memória. Francisco gosta dessa bagunça de Papai Noel roqueiro, ou mesmo sapo. Será que esse ano eu compro uma árvore na 25?

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