Hora de beber mais água. De lembrar dos pontos onde comprar água de coco fresca. Hora de subir mais de 1.800 colinas. Hora de ler Fernando Pessoa, Borges e ir a uma exposição de arte moderna. Ou tomar um suco de clorofila. Ou um expresso de estirpe, sem açúcar, com afeto. Hora de comprar novas Havaianas, modelo mais antigo possível, sola rasa, tiras largas. Hora de deixar o pedestre atravessar a faixa no seu ritmo de formiguinha, a deixar o coração de piloto de F-1 insensato a espera. Hora de renovar a fórmula da homeopatia e comprar um novo boné. Hora de migrar seus links favoritos para outro sw. Hora de inventar um show para assistir, uma praia para conhecer, uma cachoeira para lembrar como é gelado o veráo na serra. Hora de olhar o mundo pelo avesso e praticar uma postura invertida de yoga. Hora de tomar um chá herbal, de escovar a pele com uma escova, de mudar de shampoo e passar protetor solar. Hora de pensar em estrelas cadentes, bons vinhos, árvore de Natal e lembrancinhas. Hora de estudar, aprumar, reunir, renovar. Acordar para cuspir. Perder a vergonha, andar sem rumo, esperar na fila, pagar o pato, contar com quantos paus se faz a canoa, limpar um armário, esvaziar uma gaveta, plantar e colher orégano, manjericão, hortelã, tomilho e alecrim frescos. Calor, puxa. Tomates, orgânicos, locais, sinceros, ois sinceros, tchaus honestos.
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Um livro e 136 km depois
by bike at another Joshua Tree
Balanço. Julho teve um verão embutido em si, com temperaturas de 33 graus. No poeirão da terra roxa do interior de São Paulo, registrei movimentos em escala microscópica dentro de mim.
No fim do mês, pedalei 136 km e li Me and the Biospheres, de John Allen, depois de conversar um pouco com o próprio, que passou alguns dias no Brasil. Um senhor com mais de 80 anos muito interessante, que levou adiante o projeto da Biosfera 2 e entende de coisas complicadas como Rumi, respiração, oceanos.
(De email enviado em agosto para amiga) Tomei alguns cafés a ver um bem-te-vi gordo expulsar um sabiá e dois passarinhos azuis da trepadeira da varanda da frente, ô beleza.
Francisco testou seus limites todo dia, toda meia hora. Foi chatinho. Fez beicinho, manha, gritou, esperneou, bateu. Educar. Conjuguei as filigranas desse verbo.
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Mastro de São João
Pó de café, ovos, grãos, açúcar. No buraco do mastro de São João misturam-se as oferendas que garantem boas colheitas e prosperidade.
Ainda me lembro menina surpresa com a cena. Jogar ovos no buraco. Quanta comida! Ovos se espatifando na madeira. Quero jogar também.
Um dia, consegui jogar a misturança. Cargo de importância, jogar oferendas.
Erguer mastro é sempre um acontecimento. Só depois que o mastro está erguido a festa começa. E depois, durante todo um ano, ele aguenta firme, a desbotar. Às vezes se rasga, vira um trapo, um vestígio.
A tradição de erguer o mastro finca as origens em ritos de solstício de verão europeu. Os portugueses trouxeram essas tradições para o Brasil. A quadrilha vem de uma dança de salão francesa do século 18, “quadrille”. Os padres jesuítas introduziram as festas juninas e por volta de 1600, muitos séculos atrás, já se comemorava o nascimento de São João.
São João é festeiro, gosta de música, de fogos. Tem a companhia de um carneirinho, que carrega no colo. “Acordai, acordai, acordai João.” João dorme e precisa ser acordado para a festa de seu aniversário. É dia 24.
Essa história eu escrevi especialmente para levar na festa da escola do Francisco.São João adora fogueira.
PULA A FOGUEIRA
autor: João B. Filho
Pula a fogueira Iaiá,
pula a fogueira Ioiô.
Cuidado para não se queimar.
Olha que a fogueira já queimou o meu amor.
Nesta noite de festança
todos caem na dança
alegrando o coração.
Foguetes, cantos e troca na cidade e na roça
em louvor a São João.
Nesta noite de folguedo
todos brincam sem medo
a soltar seu pistolão.
Morena flor do sertão, quero saber se tu és
dona do meu coração.
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O que é conceito
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Fofurices aos 3
“Mamãe, como se fecha só o olho esquerdo?”
Francisco quer aprender a piscar. Em frente ao espelho, franzi exageradamente o olho e pensei que o ensinava como se faz.
“Vou perguntar ao Diego”, disse ele, não satisfeito. Diego é o professor da manhã. Leva jeito para ser ídolo dos meninos.
Registrei aqui algumas delícias dos primeiros anos de Francisco. Depois esqueci de registrar outras façanhas. Esta semana Francisco assistiu a um vídeo sobre circo, quem contou foi Mariana, a professora da tarde.
“Por que você não falou nada sobre circo para a mamãe, hein, filho?”
“Porque é segredo.”
Verbalizou pela primeira vez o que eu já sabia. Da minha vida, mamãe, cuido eu, falou? Aos 3.
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Deslocamentos
Hoje é dia de deslocamento, vou sair daqui e vou ali, volto já.
Vou sair do conforto de minha opinião formada e vou ouvir um cara que eu sempre considerei muito brega. Ele me lembra calça boca sino, parquinho de diversões na festa da padroeira, fumaça de churrasquinho de gato. O inimaginável, ir a um show do Odair José, é totalmente por conta de Helena Tassara. Ela roda durante esse show parte de seu documentário “Eu vou tirar você desse lugar”, seu primeiro longa-metragem. Minha amiga cineasta diz que o filme, sobre os cantores que eu sempre considerei muito bregas, “trata da censura moral e política, dos preconceitos e patrulhas ideológicas e estéticas que incidiram sobre esses artistas e suas canções durante o auge do período militar”. ”E não interessa o que os outros vão pensar”, como diz o Odair José.
Hoje também é dia de São José. Viva São José! Quem me lembrou foi o cartaz da padaria, é dia de comer zepoli, um doce italiano. Pelo Facebook, aprendi uma mandinga devocional. Tudo isso e ainda é manhã de sábado. Você escreve nomes das frutas que lembrar em um papel. Faz um desejo, brinca de bingo com os papéis e tira uma fruta. Até o ano que vem, no dia de São José, tem de ficar sem comer a tal fruta. Viva São José, que atende os pedidos!
Hoje ainda é dia de Perigeu. A lua vai parecer grande, muito grande, no dia em que sua órbita mais se aproximar de nós. Já sei que vai ser um dia de atmosfera diferente (deslocamentos). Semana passada encontrei uma amiga na fila do restaurante, sábado à noite. Peguei carona em sua brincadeira com os amigos de ler horóscopo pelo iPhone de uma astróloga que deve ser famosa, pela cara que ela fez quando eu perguntei. Susan Miller, a astróloga, prevê uma certa fragilidade no meu ser nesse dia (deslocamentos). Vou me sentir assim não sei direito o que, assim meio esquisita. Mais esquisita.
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Unidos da cabaninha
Francisco é um ser tão sociável que convida alguém no ponto de ônibus para ir à nossa casa.
O homem segura um DVD (Paixão de Cristo). Francisco vem de bicicleta sem pedal pela calçada e para a poucos centímetros do homem. Encara.
Sua bicicleta é chamada de trainer, foi feita para treinar equilíbrio, tem pneu, breque e um sininho estridente como buzina. Ela deixa qualquer um pasmo. Parece que Francisco é um acrobata chinês, aos 2 anos ele anda na maior velocidade em uma bicicleta sem rodinhas. Ergue os pés, embala, segura firme no guidão quando passa por buracos, desce rampa. Aos 2 anos e 8 meses, faz cada coisa que só eu sei. Juntos, percorremos as ladeiras do bairro em passeios memoráveis. Sua bicicleta não tem pedais, o que talvez explique alguma coisa. Talvez.
Diz ao homem no banco de ônibus:
- Eu também tenho DVD. Você precisa ir na minha casa ver.
O homem quase cai do banco e todo o pessoal que espera o ônibus acha graça. Francisco já está com plateia. Do lado de cá, a família que saiu para passear a pé se contorce e tenta disfarçar o riso. Imaginamos o figura da Paixão de Cristo lá em casa, assistindo a DVDs do Francisco. A consideração geral: esse aí vai dar trabalho.
Vislumbro para nós um futuro de casa cheia. A classe toda, os passageiros da perua, as crianças da praça, os amigos da rua, o time de futebol, o pessoal que estava na lanchonete, na loja, os colegas de alguma coisa feito skate, astronomia, banda, grupo de teatro, unidos da cabaninha.
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Lua e a chuva
São Paulo virou um deserto
com baldes de água nos quartos.
Toalhas encharcadas,
umidificadores.
Que venha a chuva.
Esse deserto com poeira entre nuvens de poluição.
Cinzas e acobreadas, essas nuvens, um espetáculo da janela.
São Paulo sonha com a chuva. Enxergo nuvens e miragens.
Ontem terra da garoa, hoje anseio por água.
Que venha chuva limpinha,
fresca, renovadora,
com enxurrada para levar barco de papel
e mais nada. Ah. E mais nada.
Chuvinha besta, que dispensa o auxílio chuvuoso de um guarda-chuva.
Chuvinha discreta e fina.
Paulistana chuva que a lua observa.
Garoa fina e elegante.
Garota.
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Ponto de ônibus
Ondbus, como diz o Francisco.
Hoje ele fez seu primeiro passeio com a escola de ondbus. Imagine um ondbus com 20 criancinhas, todas felizes e com um frio na barriga. Do lado de fora, pais nervosos e uma mãe repetindo o mantra: “Eles sabem o que estão fazendo. Eles estão acostumados. Eles sabem o que estão fazendo”.
Foram ao aquário. Tudo muito abstrato: quem mora no aquário, quem mora no mar? Tubarão morde a gente, carro morde a gente?
Tudo muito abstrato, explicar o que é natureza, o que é cultura, o que é cidade…
Por que sujaram o rio Pinheiros? Por que jogaram lixo no rio, mamãe? Por que a ponte tem fios? A ponte morde?
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