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Horário do rodízio

grafite grafite

Saio de casa e antes de chegar à avenida me dou conta que faltam ainda 20 minutos para o fim do horário do rodízio. É meu dia de ficar de castigo até as 10h.

Francisco espera no bebê-conforto pacientemente. Ele não é desses que se anestesiam imediatamente com o sacolejar do carro. Fica alerta, gosta de ver os vultos que vislumbra pela janela.

Com medo de uma multa, adio a visita ao parque e estaciono em uma rua mais tranqüila à espera do fim do horário. Dez minutos ainda. O muro é grafitado. Até que o grafite é bacana. Nâo vou tirar o cinto. Clic. O enquadramento que a janela do carro permite. Clic. O resultado até que ficou legal.

Errou a cesta, acertou o mundo

Errou a cesta, acertou o mundo Errou a cesta, acertou o mundo

Fui jogar basquete em um filme de Wim Wenders.

Dois anos de blog

Koi Koi

Dias atrás, em 23 de agosto, o blog fez aniversário. O primeiro post, publicado dois anos atrás, chamava-se Os olhos do telescópio Chandra. Eu falava sobre matéria escura e blogs:

“Se mais de três quartos do universo são feitos de mistério, pensei, posso começar a escrever. Algumas vezes, os temas são como a matéria escura, que existe e ninguém ainda sabe o que é.”

É pique pique! Vale comemorar esses dois anos de anotações digitais. Fiz amigos, conversei, escrevi bem, escrevi mal, fotografei bastante. Bolhinhas de ar para todo lado :)

Sou mamãe

varal de brinquedos varal de brinquedos

A novidade chegou em junho: Francisco, meu filho.

Foi um forrobodó. Eu estava em Vitória, era noite de quinta-feira quando recebi a notícia de que poderíamos adotar uma criança. Fiquei ainda mais um dia no Espírito Santo com aquele alvoroço dentro de mim, sem comentar nada com ninguém, só aquela possibilidade ali a me espiar.

Sobraram algumas horas de tempo livre em Vitória e eu aproveitei para visitar o convento da Penha, onde chorei com a cumplicidade da santinha, que segura um bebê no colo. Nesse convento que foi freqüentado por Anchieta, a emoção aflorou em forma de riso e lágrimas misturados. Embalei a novidade e observei durante mais de hora o mar, os barcos e o vôo de um urubu que aproveitava a corrente de ar. Até segunda, no entanto, nada foi. Deixei tudo para ser quando estivesse confirmado.

Foi assim, então, que de uma segunda para uma terça a vida deu uma pirueta e nunca mais foi a mesma. Ganhei uma alegria sem fim. Francisco é gente boa, é fofo, é bonito até não poder mais, um menino que conquista corações.

Naquela segunda-feira, eu e Renato tivemos apenas uma hora e meia para comprar um bercinho de viagem, uma mamadeira, um pacote de fraldas, uma chupeta, uma roupinha, uma lata de leite, um disso e um daquilo. Foi tudo doce e completamente maluco.

Quase três meses depois, ainda sentimos como a falta de preparo nos pegou de jeito. Mas aos poucos nos ajeitamos. Aliás, muito rapidamente nos ajeitamos. Um bebê é cheio de coisinhas muito específicas (colherinha de bebê, por exemplo, é de látex molinho, não serve colher de café que a gente tem na gaveta da cozinha). Por isso, nos ajeitamos a toque de caixa, sem tempo para observar o vôo de pássaros.

Já temos berços (isso, no plural), mamadeiras, roupinhas suficientes.

Já recebemos visitas. Muitas. Celebramos com os amigos, apresentamos o baby para a minha família e a família do Renato, já o introduzimos nas reuniões barulhentas em que todo mundo fala ao mesmo tempo. Perdi a conta das tias, primas e vovós que o levaram do nosso colo para dar beijinhos e voltinhas na sala. Francisco conquista corações e é muito querido. Comemorei em julho no interior, nesse quintal que aparece na foto, seus 7 meses, com bolo, velinha, língua-de-sogra, sorvete, bexigas. O pai estava em viagem de trabalho, teremos de fazer outras festas de mensário, que beleza.

Nessa viagem a um outro lado da vida, o blog, o e-mail, as aulas, as palestras e os encontros foram todos para o espaço. Houve até quem não entendeu direito o post anterior, embora a roupinha ali no cabide para secar, aquela “uma roupinha para começar tudo”, a meu ver explique muita coisa.

Explico, então, tim-tim por tim-tim: sou mamãe e não sobra tempo para bulhufas. Por um período imagino que o ritmo será esse. Sem tempo para conversar aqui no blog.

Parei hoje aqui graças à porcaria de uma virose. Estou longe do Francisco para que ele não pegue esse bichinho também (se bem que, com certeza, ele é imune, pois continua com ótima saúde, apetite e humor). O pai foi passear com ele ao ar livre, para aproveitar o horário bom do sol e eu fiquei aqui, escrevinhando.

Nos últimos meses li alguns livros - todos sobre bebês, obviamente. O que esperar no quinto mês de vida, como preparar a comida, quais os cuidados a tomar quando ele começar a engatinhar. O desenvolvimento da linguagem. Chupeta or not chupeta?

Ontem, indisposta, perdi o sono e fiquei lendo o que as amigas de uma lista de discussão chamada “Materna SP” falam. Fiquei a fim de usar sling, um paninho para carregar Francisco no colo. Quem sabe sem abusar tanto da minha coluna, já que o cara é fortinho.

Sendo assim, ainda não sei para onde corre esse rio. O blog sempre falou de comunicação e tal, agora eu quero mais é saber onde acho o sling (no Gama, nesse site babywearing e na loja Maria Barriga eu já sei que tem). Não deixei de gostar de comunicação, nessa noite já li as novidades sobre o mundo da mídia social, dos blogueiros, dos jornais etc. Mas devo ser sincera: meus olhos voltam-se para essa incrível discussão sobre a quantidade de sal a colocar na papinha. O que é irrelevante para a maioria dos que passeiam por aqui, eu sei. E que nem será mais tão importante daqui a um tempo, quando eu já estiver em outro estágio dessa história e o sling tornar-se impraticável para um meninão :)

Como eu disse, ainda não sei para onde correrá esse rio.

Acorda para a vida

Sem açúcar com afeto Sem açúcar com afeto

Segunda-feira é uma questão de referencial. Depende da fase. Pode ser um dia que se aproxima do feriado e da viagem. Ah, pegar a estrada…Essa é minha fase, um privilégio não muito comum na minha rotina. Parece que não é o caso para muita gente. Além de Garfield, que odeia as segundas-feiras, vários têm essa preguiça ancestral de voltar ao formigueiro depois de um domingo de cigarra.

Tomo um café, leio as notícias, ouço a moçada chiar nesse radinho esquisito que é o Twitter, um muro de recados de 140 caracteres no máximo. Há ecos de uma ressaca, mau humor e de bugs no sistema nessa ágora digital em perpétua cacofonia. Muitos ali trabalham com projetos para a web.

Tomo um café, leio as notícias, ligo o radinho esquisito, desligo. Faz sol, tenho de trabalhar, são dez horas e tudo vai bem.

Dia de sorte

mangá mangá

Uma “Confraria do Nhoque da Sorte” me aguarda na Vila Anglo Brasileira. É dia 29, dia do nhoque da sorte, reza essa tradição reinventada pelos restaurantes italianos. Ela me faz pensar no monstro do Loch Ness, algo mais afetivo que histórico. Pouco importam as origens da tradição, estamos interessado no efeito, na sorte.

A cozinheira anuncia que aprendeu uns segredinhos novos. O dia parece menos comprido com a miragem dos segredinhos novos, seja qual forem. Isso não importa. É dia de sorte.

Chego à conclusão de que aquilo que nos dá sorte, quando comemoramos esse nhoque da sorte, é o desperdício de tempo somado à lógica cartesiana colocada de banda.

Perder tempo com coisas que não dão dinheiro, mas aproximam os amigos e dão espaço para o acaso, mais um gesto embrulhado em tabu e superstição como colocar uma nota sob o prato do jantar, juntos, esses dois fatores têm o poder de abrir espaço para o mundo de heróis, monstros, donzelas e porquinhos rosa que aparecem em mangás.

O mirante colaborativo de Gonçalves

Olha que idéia fantástica: dividir o horizonte com todos. Em vez de murar o sítio, abrir um jardim suspenso para que todos possam apreciar a linda paisagem do bairro da Pedra Fria, em Gonçalves, Minas Gerais. Foi o que fez Mauro Fernandes, um homem que planta framboesas, physalis e amora orgânicas. Ele mantém um mirante.

No feriado, fui uma das visitantes que encontrou o portãozinho aberto e foi acolhida pelos vasos floridos que enfeitam o deck suspenso a vários metros do chão. Dali se avista todo o vale da Terra Fria e a Pedra do Forno. Uma plaquinha dá o recado para quem não entendeu o espírito da coisa: Não fume.

No mural, aprendo mais sobre essa idéia. Aquelas terras lembram a região do norte de Portugal, quase fronteira da Espanha, onde a mãe de Mauro nasceu. Ele escreve: “Queremos dividir essa vista maravilhosa da Terra Fria com aqueles que por aqui passarem como extensão do carinho que mamãe dispensou a todos que com ela conviveram.” Uma homenagem cheia de vida. Nesse ponto, um mirante é melhor do que qualquer placa de bronze, melhor ainda que poema ou nome de rua, porque ele se renova todo o dia.

Esse plantador de orgânicos abriu um jardim no muro e inventou um treco novo, pensei ao conhecer o lugar: um mirante colaborativo! A minha parte é trazer a estrada para dentro do sítio, a parte dele é abrir o horizonte e mostrar que com idéias a gente inventa novas formas de fazer as coisas.

O cozinheiro sonha

O cozinheiro O cozinheiro

Rua Pavão, Vila Madalena, oito e meia da noite, o cozinheiro sonha.
Eu passo e roubo o momento.

Sexta-feira é dia de graça

bailarina bailarina

Dieu merci c’est vendredi!

Foi com essa saudação garimpada em meus feeds que meu dia começou. Foi assim que lembrei das mitologias que envolvem esse dia que marca o fim da jornada de trabalho da semana na era industrial. Uma coisa que o século 20 e a nova economia aboliram, sexta já não é mais fim nem começo de nada.

Sexta-feira é o nome do amigo do Robinson Crusoe. Começa daí a simpatia do dia de Vênus (dies Veneris, em latim), de Freyja (deusa germânica pagã da fertilidade, da beleza, do amor) e de Shukra, deus hindu que monta um cavalo, um crocodilo ou um camelo e que é igualmente associado às qualidades feminas, às artes, à dança. Em sânscrito, sexta é Shukravaar.

Em português, toda essa influência de Vênus ficou subterrânea. Como dizia uma professora de italiano que tive, Piera Camerini, só mesmo em português foram os feirantes que decidiram o calendário. Porque em português contamos os dias como feirantes: a feira do primeiro dia, do segundo e assim vai.

Em todo o caso, a moçada ainda “guarda” a happy hour da sexta-feira como dia de comemorar a vida, festejar. Eu estou nessa, para mim hoje é dia de “clássico”: assisto pela primeira vez ao vivo Arnaldo Cohen ( Rachimaninov e Brahms) e depois experimento o restaurante da Sala São Paulo. Um clássico para temperar com toque de Vênus a feira do sexto dia.

Dá para caminhar em São Paulo?

corredor corredor

Caminhar é a melhor forma de ocupar um lugar na cidade e também faz bem à saúde.

Conheço o bairro a pé, me encanto porque ele ganha rosto, mostra o sorriso, resmunga. Às vezes, caminhar impõe um estado de alerta.

Caminhar desautomatiza o trajeto. Desperta alguma emoção. Caminhar economiza o dinheiro de uma condução.

Caminhar é cada vez mais difícil, as calçadas banguelas têm armadilhas.

Caminhar é um projeto que tem de andar na arquitetura da agenda do meu dia, pois é preciso levar as idéias para um passeio.

E aí, dá para caminhar em São Paulo?

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