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Julie/Julia ou como comer um blog

Julie/Julia Julie/Julia

Ganhei este livro de aniversário de minha amiga Lu Terceiro e do Daniel Doro. Nesses meus tempos de trocas de fraldas, pouco sono e pouco tempo para lazer adulto, “Julie/Julia”, escrito pela norte-americana Julie Powell, foi meu amigo nos poucos minutos que me sobram antes de cair no sono, passada de cansaço.

Já percebi que um bebê tem ação um pouco anticultural na vida da mamãe que acaba de se tornar mãe. Francisco trouxe um repertório de cantigas de roda e quadrinhas d’antanho muito divertido para minha vida, mas colocou por algum tempo a literatura, os blogs, a culinária, o cinema, a música e quaisquer outros assuntos adultos em segundo, terceiro, quarto e quinto plano. Mandou tudo para plano algum, sendo bem franca. Por isso, o livro de Julie Powell caiu bem nesses tempos de papinhas turbinadas, me conectava com o mundo adulto.

Julie gosta de se apresentar como uma desequilibrada maluca por vodka-tônicas que encasquetou de preparar 524 receitas em 365 dias e narrar suas experiências em um blog.

As receitas vêm de um livro sobre culinária francesa de Julia Child, uma espécie de Dona Benta que tinha um programa de TV nos Estados Unidos popular como o de Ofélia aqui no Brasil.

Julie decidiu cozinhar feito louca depois do trabalho a troco de nada, criou para si um desafio que preenchesse seu vazio existencial. De dia, era secretária de uma repartição pública ligada à reconstrução do Ground Zero, o local onde houve o atentado de 11 de setembro. De noite, encarava coisas fora de moda como extrair o tutano de uma pata de vitelo para fazer uma porcaria chamada Aspic, com ovos incrustrados lá dentro desse mocotó - ciente do despropósito o tempo todo.

O livro de Julia Child ensinou uma geração de donas de casa americanas a cozinhar pratos franceses. Isso na década de 40.
Julie Powell o transformou em uma forma cult de adiar a decisão de ter filhos.

Para mim, Julie/Julia foi uma leitura leve e amanteigada, digamos assim, sobre uma americana porcalhona e perdida na vida que resolveu escrever palavrões em um blog, servir jantares às onze da noite diariamente e canonizar seu marido, tudo simultaneamente.

Fiquei chocada foi com o orgulho que ela sente em contar como não limpava a cozinha, onde nasceram larvas sob o secador de louças. Oh, céus. Lembrei-me do banco traseiro do carro da amiga americana de minha tia, cheio de meias de nylon usadas e embalagens de hamburger to go. Inesquecível a viagem que fiz nesse banco traseiro cheio de lixo. Quando uma americana negligencia a limpeza, ela sabe como ir longe nisso.

Vida de dona de casa é um mistério, me conte como ter tempo para limpar, escovar, cozinhar, brilhar, ler, entreter, receber, meditar e tudo o mais, sem o surgimento de larvas sob o escorredor de pratos.

Do alto da Paulista

dezoito dezoito

A comedoria do Sesc Paulista tem essa vista absurda. Vai lá, experimente esse tratamento de quente-frio. Primeiro, você sobe no topo do prédio, espia a avenida Paulista do terraço, onde o vento é poderoso e gelado. Depois, entra para experimentar um chá ou café com rosquinhas de fubá que saem quentinhas e são as melhores do mundo. Depois invente algo, o roteiro é mais extenso do que parece, é um prédio inteiro de atividades, alguma coisa você acha para se entreter lá.

Neste fim de semana, por exemplo, a comedoria estava vestida em estilo japonês porque todo o Sesc Paulista comemora os 100 anos de imigração japonesa no Brasil. Pena que acabou a farra dessa exposição chamada Tokyogaqui, tinha butoh e Japão Pop.

Não sei se a comedoria já mudou de roupa, mas no fim de semana a um canto você encontrava uma máquina de karokê. Se ainda estiver lá, tenha piedade, ensaie antes, a gente agradece. Não repita o que eu presenciei: um pai embevecido encoranjando a filha a desafinar barbaramente uns hinos de louvor ao senhor. O que foi aquilo?

Links de boas especiarias

Capital da gastronomia Capital da gastronomia

Antes que você pense que mudei de assunto, abandonei os temas sérios e agora só falo de comida, aviso que isso passa. Os dias andam tão corridos que eu venho aqui escrever de frescurites na minha hora de “recreio” para arejar as idéias.

Dois links geniais:

Grão Vizir Especiarias - vende uma mistura de tchai testada e aprovada

A Senhora das Especiarias - a alquimia de uma japonesa que mora em Gonçalves (Minas Gerais) fabrica geléias exóticas à base de um purê de maçã sem conservantes. Um laboratório de química para gourmets. No Santa Luzia e outros endereços muito finos você encontra os potinhos de geléia. Recomendo os chutneys e o antepastos também. Recomendo tudo, menos a geléia de alfazema.

Receitas de blogueiros para o filme Estômago

entrada: creme verde entrada: creme verde

O livro de receitas dos blogueiros inspiradas pelo filme Estômago já está disponível para download: baixe aqui.

Na foto, você vê o creme que a Miki inventou inspirada no filme - que eu ainda não consegui ver, pois abril chegou feito um furacão.

O negócio dos orgânicos

Os produtos orgânicos tomam realmente fôlego dentro da cadeia produtiva brasileira. Repare só como os supermercados já oferecem um cantinho para os alimentos sem agrotóxicos (mesmo quando se arriscam a matar alguém do coração ao cobrar dez vezes mais por uma bandejinha de tomates, meigos e frugais).

Leio que se considerarmos as áreas de extrativismo sustentável, a área de plantio de orgânicos no Brasil chega a 6,5 milhões de hectares, o que faz do país o segundo maior produtor mundial, atrás apenas da Austrália.

Esse papo fica sério de 1 a 4 de maio, quando o prédio da Bienal de São Paulo sedia uma Feira de Orgânicos, a Bio Brazil Fair, que promove o 4º Fórum de Agricultura Orgânica e Sustentável. É a primeira edição do evento depois da aprovação, em dezembro, da lei que regulamenta os orgânicos no Brasil. Espera-se com isso um crescimento no mercado, semelhante ao que ocorreu na Europa depois da regulamentação, isso em um cenário atual de expansão de até 500% ao ano, segundo o que diz a Associação dos Produtores e Processadores de Orgânicos do Brasil.

Fico contente com essa movimentação, mostra futuro. Gosto de orgânicos para caramba -por vários motivos, nem todos eles associados à gula. Só não gosto de seu preço, às vezes impraticável. Soube ontem que até em cidades que hoje se destacam pela plantação de cana há produtores de alimentos orgânicos. Parece uma ótima idéia mesclar as culturas, o ambiente agradecerá essa gentileza.

Homeopatia

Essa eu não sabia: segundo o pesquisador Flávio Maurílio de Freitas, que participa desse Fórum, a homeopatia pode ajudar a combater pragas no cultivo dos orgânicos. “Enquanto na forma tradicional de controle de pragas e doenças se gasta mais de R$ 1 mil numa estufa que comporta 300 pés de tomate, com a homeopatia se gasta R$ 40”, diz ele em texto divulgado pelos organizadores. Faz sentido usar homeopatia (que para mim funciona às mil maravilhas) e quem sabe assim bandejinha de tomates passe a custar menos.

Comida de Dragão

Veja as fotos da Comida de dragão de Renato Targa

Comida de dragão, tradição dos tempos de Artur. Revigora, alerta todos os sentidos e provoca um incêndio.

Está vendo esse molho tailandês chamado Sriracha, o mais alto da fila? Junte a ele suco de tamarindo, de limão cravo, de limão tahiti, um pouco de cominho, coentro e outras cositas más e terás um incêndio pronto para gravar o nome desse prato em sua língua.

Ha, dirá um baiano. Você não sabe do que está falando. Bem, sei sim.

Preparei uma receita oriental no estilo o-que-tem-na geladeira-e-nas-prateleiras-de-casa mais o que eu trouxe da expedição à Liberdade - um maço de aspargos frescos e cogumelos franceses. Na falta de gengibre, usei cebolinha e salsinha. Acrescentei um pouco de açúcar mascavo e tofu fresco, que é branco, não tem gosto de nada e teve um leve efeito no incêndio.

Comemos com voracidade -a fome continua sendo o melhor tempero. Cheguei à conclusão que foi soberba ignorar as receitas e dar uma de alquimista sem brevê.

- “Nem tudo dá certo”, comentei com a Miki, que é cozinheira, pelo telefone.

- “Um lassi, bebida indiana preparada com iogurte, poderia cair bem com essa comida de dragão”, respondeu a Miki.

- Comida de dragão? Hahaha. Um bom nome.

E assim ficou, um exercício para rir dos próprios erros.

Blogs sobre comida fazem a minha festa

Adoro comer bem e, como boa natureba, adoro ler sobre comida. Tenho preguiça de cozinhar todo dia, sou temporã à beira do fogão. Como ler não dá tanto trabalho, os blogs sobre gastronomia e comida entraram na minha vida para ficar, substituindo as revistas femininas e suas incríveis receitas.

Acompanho o que acontece no Slow Food Brasil, que agora promove um concurso de receitas com batata Chefs contra a fome. Leio as últimas descobertas dos Gastronautas Amadores, descobri o enorme acervo de receitas do Trem Bom, visito o Dadivosa.

Ontem copiei uma receita de Pudding de Banana no Cabeça Gorda da Miki. Hoje encontrei ali um menu do dia criado por ela especialmente para o filme Estômago, vale a pena conferir. Encontrei ainda a enorme lista de blogs sobre culinária que o Kafka na Praia organizou.

Para preparar no almoço de hoje o maço de raízes de bardana (ou gobo, como se diz em japonês) que comprei na Liberdade, apelei para o tio Google e foram os blogs que me deram as dicas. Essa planta incomum, com propriedades medicinais, tem uma raiz saborosa que me lembra o gosto de alcachofra. Preparei-a à moda “comida de mãe japonesa”, como me explicou o Comadre Fulozinha, um site de Pernambuco que vende produtos orgânicos.

Não segui nenhuma receita ao pé da letra, adaptei um pouco o que encontrei e preparei a raiz com cebolinha, shoyu e gergelim torrado. No blog Pecado da Gula, encontrei uma receita mais sofisticada, que ficou para outro dia. A bardana ficou assim:

gobo bardana

 

 

América lambuzada de doce de leite

Recomendo esse post cabeça-gorda, como diz a Miki, sobre doce de leite escrito pela antropóloga Esther Katz e publicado pelo Slow Food Brasil. Recomendo aos gulosos como eu. Começa assim: “Os doces de leite não são exclusividade do Brasil, Uruguai ou Argentina. Em todos os países da América Latina, encontram-se variedades de doce de leite, com nomes diversos. Em países em que se fala espanhol, dulce de leche é o nome mais comum, mas também é conhecido como manjar blanco no Chile, Peru, Equador, Colômbia e Panamá - e, nesse último, também como bién-me-sabe -; cajeta no México e na América Central; jamoncillo no México; arequipe na Colômbia; leche de burra em El Salvador e na Nicarágua.”

dulce leche

Gosto de doce de leite.

Torço o nariz para os que não tem estirpe, açucarados, sem graça, sem alma.

Gosto da variedade argentina, escura, usada em recheio de alfajores e pães. Dulce de leche da marca Havanna, que loucura. Isso me lembra a necessidade de um guia sobre “como não engordar um quilo por dia em Buenos Aires”.

Preparei doce de leite em um sítio, uma vez. Em bando, com amigos da faculdade, fui para um sítio em Tietê. Tínhamos uma panela com vários litros de leite. Bem ao lado, a companhia de uma mesa animada pelo jogo de War. Várias horas depois de mexer, mexer e mexer sem fim o que parecia ser um caldeirão de bruxa, aposentei-me do metiê de fazedora de doce de leite. Docinho de leite, agora, só no blog ou no tabuleiro de alguém. Eu, hein, jacaré?

Slow food no Brasil

Eu não sabia, mas o movimento do slow food tem se articulado também no Brasil. Criado na Itália por Carlo Petrini, ele tem mais a ver com o cuidado com a procedência e produção dos alimentos e o respeito a tradições locais do que com o tempo que se leva para devorar um prato, como o nome pode sugerir. “Slow Food segue o conceito da ecogastronomia, conjugando o prazer e a alimentação com consciência e responsabilidade, reconhecendo as fortes conexões entre o prato e o planeta”, define o movimento brasileiro. Se você quiser, pode baixar o Manual do Slow Food.

Depois de um evento em Brasília, o 1º Terra Madre, o Slow Food Brasil leva agora dois representantes, Margarida Nogueira, do Rio de Janeiro, e Paulo Chanel, de Piracicaba, ao encontro internacional que se realiza entre 8 e 11 de novembro em Puebla, no México. São esperadas 600 pessoas de mais de 130 países. Tudo isso aprendo graças ao link enviado pela Luciana Terceiro, ops, Lu Freitas, que sabe que sou um bom garfo e interessada em culinária.

Fico curiosa depois de passear pelo saboroso texto de Marcelo Terça-Nada no Overmundo. Que gosto terá o baru? E cagaita? Como é que é o nome, hein?

baru

Foto: Baru no blog do Slow Food Brasil

Sal, um restaurante que Ratatouille aprovaria

Ratatouille, o ratinho que sabe cozinhar, aprovaria o Sal, restaurante anexo à Galeria Vermelho. É o tipo de lugar em que ele se sentiria em casa. Da mesa você pode assistir ao lufa-lufa entre panelas, conchas, molhos, temperos. Vidros de azeite e vinagre perfilam-se em uma prateleira com muita elegância. Há poucas mesas e um garçom budista bom de papo, Júnior.

Felipe Henrique Fogaça (ops, corrigida pelo próprio, em comentário abaixo) é o chefe e proprietário. Simpático e jovem, estudou gastronomia na FMU. Seus pratos perfumados e gostosos são preparados ali em frente aos clientes. Já experimentei um risoto de brie e um espaguete de quínua com legumes e shitake. Boooooom.

Espie o Sal pela janelinha:

Sal

Sal www.salgastronomia.com.br: Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis, fone 31513085

Inícios podem ser difíceis, como esse do Ratatouille:

Ratatouille

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