Nativos digitais e um mar chamado www

Tem criança na internet: e agora?

Eles são nativos digitais, não conhecem o mundo sem internet. Não há tédio se houver um game por perto. Reúnem-se para jogar e recusam sorvete, banho de cachoeira e passeio de bicicleta se continuarem reunidos, joy stick na mão, empenhados em criar mundos imaginários no Minecraft. São arquitetos habilidosos capazes de uma rica abstração para conceber maquetes de universos impossíveis, com piscinas para cavalos, torres e fogo. Paredes azulejadas, gramados, chão de pedra, uma sala com lareira, com várias lareiras e o maior trampolim já visto. Para eles, não existe tédio.

Quando o celular do vovô tem problema, o netinho pega o aparelho aperta aqui e ali e em seguida o devolve, resolvendo a questão em instantes. Vovô e vovó se admiram, a criança sente-se esperta porque é mesmo, possui tanta facilidade para entrar na rede, interagir e navegar. A diferença é geracional, por isso fala-se em nativos digitais, eles têm outro cenário mental. O problema é que não tem noção alguma do perigo que se esconde ali. E só vai ter quando for mais velho.

Um conselho meu, que trabalho com projetos digitais há muitos anos: o acústico é sempre ótima opção para as crianças e os jovens.

1- Qualquer chance de fugir dos eletrônicos deve ser aproveitada. Quando inventar algo com eles, tente fazê-lo fora da rede. Museu, parque, praça, cinema – loja não, supermercado se for inevitável – piscina, fazenda, um lugar em que a criança nunca foi ou onde há muito tempo ninguém vai, tudo isso é melhor que o eletrônico.

Sabe por que dá para ser radical e falar isso? Crianças e jovens naturalmente procuram os vídeos do YouTube, os games (on e off-line), os chats e as mídias sociais e uma mudança de ambiente lhes fará bem. Para todos nós a internet substituiu um passeio na praça da matriz, ela é hoje a pracinha virtual que promove encontros com amigos, com a família, com os afetos. Ir para esse mundo é a coisa mais fácil no dia a dia. Viagem, mesa de restaurante, fila de espera, manhã de folga, tudo é pretexto para a criança impaciente e o jovem entediado procurarem seus eletrônicos. Para variar, mude a direção.

2- Não crie perfis para seu filho ter acesso à mídia social antes da idade permitida.  Bom, pelo menos eu acho melhor não criar, na dúvida.

3- Não deixe que ele tenha acesso à internet longe de sua supervisão.

Atenção, crianças:

Saúde de crianças e adolescentes na era digital,  documento elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e divulgado em novembro de 2016, traz recomendações interessantes para as crianças, entre elas:

1- Não compartilhe senha com ninguém.

2- Lembre-se que a internet é um espaço público e as mensagens trocadas ficarão para sempre gravadas e acessíveis, como uma história de você ou como uma impressão digital.

3- Preste atenção para não adicionar qualquer pessoa desconhecida e jamais marque encontros com pessoas estranhas ou conhecidas apenas da Internet e que enviam mensagens solicitando encontros com você!

4- Seja respeitoso online e trate os outros como gostaria de ser tratado, afinal você merece respeito de todos também. Evite repassar mensagens que possam humilhar, ofender, zombar ou prejudicar a pessoa que recebe este seu recado.

Para os pais, alguns conselhos:

1- Conversar com seus filhos.

2- Evitem postar fotos de seus filhos para pessoas desconhecidas ou público em geral. Aprenda sobre os meios de configuração de privacidade.

3- Planejar as refeições sem qualquer uso de equipamentos na mesa.

4- Considerar e avaliar com mais atenção crianças e adolescentes que apresentem comportamentos agressivos, dissociativos entre o mundo real e o virtual, dependentes da tecnologia-Internet-videogames, que apresentem transtornos de sono, alimentação, higiene, uso de drogas ou queda do rendimento escolar ou pratiquem /apresentam sinais de violência/ bullying/cyberbullying, sinais corporais de automutilação (self-cutting) ou quando relatam “desafios” online com colegas da escola. Encaminhar para psicoterapia cognitivo-comportamental e terapias adjuntas quando necessário e precocemente, inclusive terapia de família. (fecha aspas)

Converse com seu filho

A Nethics, uma empresa de consultoria e educação digital, foi chamada pelo colégio de meu filho para conversar sobre comportamento na internet. A palestra tinha um título capcioso, Pais analógicos, crianças digitais. Como nasci na época analógica, que eu chamo também de “acústica” por brincadeira, de “unplugged”, até vai, mas sou muito digital, tá? Por profissão, por ser editora e produtora de conteúdo digital, estou longe de ser uma mãe analógica. Preciso me policiar, pois leio notícias pelo celular e pelo computador, ouço música, trabalho, bato papo, faço compras, pago contas e tenho vários aplicativos da hora, como o que mostra as constelações no céu na direção em que você aponta o celular.

Se eu não prestar atenção, meu filho vai me encontrar o dia inteiro mesmerizada diante da tela. Quem sou eu para dizer a ele dá um tempo dos eletrônicos, não é mesmo? Refeições não têm eletrônicos lá em casa por princípio.

Na noite da palestra, quis ouvir as recomendações de Alessandra Borelli, especialista em direito e educação digital. Interessadíssima, fui ouvir casos sobre pais responsabilizados pelas atitudes criminosas dos filhos, como mandar um vídeo com cenas de sexo para um grupo de whatsapp de colegas de escola, todos menores de idade. O vídeo era criminoso.

Não está fácil para os pais dos nativos digitais, viu? Cada história de arrepiar o cabelo. Recomendações que eu trouxe dessa noite:

1- Não faça check-in quando chegar em algum lugar. Fica fácil para alguém acompanhar sua rotina e de sua família.

2- Jamais tire foto suas na intimidade. De jeito nenhum.

3- Jogos online são o principal meio de acesso de pessoas mal intencionadas.

4- Regra de etiqueta para os pais: nunca escreva pelo seu filho nas redes sociais.

Com todo esse mundo contemporâneo desabando em problemas em que ela é chamada para resolver, Alessandra Borelli ainda assim salientou que a “relação de confiança é melhor que controle parental, já que sempre existirá a possibilidade de acessar sites inadequados ou cometer crimes a partir de outros lugares.” Adorei.

Voltamos, em looping, à uma das primeiras recomendações: fale com seu filho.

 

 

 

 

 

 

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