anacarmen.com faz 10 e a internet, 25

Há dez anos eu colocava no ar meu blog www.anacarmen.com e há 25 Tim-Berners Lee publicava a primeira página da world wide web, que até hoje não mudou de URL. Escolhi o mesmo dia sem querer: em 2006, eu mirava na inclusão digital quando lancei a coleção Conquiste a Rede com licença Creative Commons, para download gratuito. Quatro livros em parceria com o Roberto Romano Taddei que rodaram países e continentes onde se fala português e assim cumpriram nesses 10 anos sua importante missão de permitir acesso a um conhecimento que leva o internauta do consumo passivo de informação ao status de produtor de conteúdo. Na época, achei que seria bom manter os livros perto de mim e não apenas em portais e pastas de computadores alheios, por isso criei um blog com meu nome.

Com o tempo, percebi que a escolha havia sido marota. Falava-se sobre “monetização de blogs” na época, o que hoje é nomeado de outra forma – como fazer  dinheiro sendo um autor autônomo de conteúdo digital – e, como eu pesquisava o assunto, sabia bastante a respeito. Recebi tantas ofertas para anunciar e escrever “posts pagos ou publieditoriais”, tantas, mas não arrisquei seguir por esse caminho. Assim como não gosto de usar uma camiseta com um logotipo gigante estampado no peito, não tinha vontade, naquele momento, de associar uma faceta mais comercial a meu blog. Uma escolha de resultado dúbio, pois aos poucos veio a vida e me deixou tão ocupada que os posts rarearam e me vi sem tempo para escrever só por prazer ou simplesmente manter o blog atualizado (com ou sem prazer envolvido). Sou profissional de conteúdo e projetos digitais até hoje e os dias encolheram à medida que as redes sociais nos conectaram mais e mais  e o celular tornou-se essa maravilha que oferece toda essa conexão até em cachoeira no meio do mato.

No trabalho, aprendi sobre content marketing em tempos de mudanças sísmicas. Informação, de boa qualidade e de boa fonte, no que depender de mim, que uma marca divulga para associar-se a coisas que têm relevância na vida de seu público/de seu consumidor. Mudei de ideia sobre blogs e marcas ao mesmo tempo em que os dois também se transformaram.

Para ser muito sincera, acho uma pena o silêncio de anos. Estou aqui de volta, sem saber se é nova fase ou arroubo. Meu primeiro post falava sobre o telescópio Chandra e matéria-escura: “Descobriu-se que três quartos do universo são feitos de energia escura e outros 21% constituem-se de matéria escura, duas coisas que revelam sua natureza apenas pelos efeitos gravitacionais que causam. Apenas 4% do universo são de matéria comum, da qual são feitos estrelas, planetas e seres humanos… Se mais de três quartos do universo são feitos de mistério, pensei, posso começar a escrever. Algumas vezes, os temas são como a matéria escura, que existe e ninguém ainda sabe o que é.”

Evolução

Nos 25 anos de internet, as questões são bem diferentes daquelas de dez anos atrás, quando eu falava no blog sobre as incríveis ferramentas que surgiam e o vocabulário que as acompanhava: microblogging, software livre, redes sociais, curadoria de informações, mobilidade.

Pulsam hoje novas questões, igualmente interessantes, como publicidade, sexualidade e memória no ambiente digital. Inovação com significado. Data driven, a produção baseada em dados massivos. Por aí afora.

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Lançamento da nova linha de pesquisa do Centro Internacional de Pesquisa Atopos, da ECA/USP, no I Seminário Aoristos: sentires em rede, 14 de abril de 2016: “Feitos científicos e práticas sociais sugerem novos modos de experienciar e “sentir” a realidade. Webcams, aplicativos, tecnologias vestíveis e de realidade aumentada são alguns dos dispositivos responsáveis por nos envolver em insólitas experiências estéticas e afetivas. Nossas noções de espaço e tempo parecem se dissolver diante da emergência de uma série de questões inéditas: seria possível, por exemplo, demarcarmos o lugar de ocorrência das vídeo-chamadas, dos games online ou das incontáveis trocas de fotos e mensagens nas redes sociais? Trata-se do corpo, dos dispositivos, dos cabos, das nuvens, dos satélites ou de nenhum ou todos esses elementos?”

 

Intercon 2015: a publicidade digital cheia de novos desafios

Intercon 2015: uma maré de desafios para a publicidade nos meios digitais e a novidade da nuvem de dados

Como a China está mudando a internet:

Reproduzo abaixo um vídeo de agosto de 2016 em que o New York Times aborda uma dessas novas questões, a concentração em uma única rede – a chinesa WeChat – de informações pessoais, bancárias, comerciais e o funesto poder orwelliano que o governo pode assegurar com seu filtro sobre milhões de pessoas.

Entrevistas

Foram muitas monografias de graduação e até de pós-graduação, como a da Magaly do Prado, que incluíram Conquiste a Rede na bibliografia. Uma ironia,  já que fizemos eu e o Roberto, um tremendo esforço para explicar em linguagem de cartilha coisas bastante complexas, como upload, RSS, pensar global e agir local. Tínhamos em mente o analfabeto digital e fomos parar na academia. Os livros me dão uma sensação de serem mal escritos, de faltar a eles estilo, graças a esse esforço de buscar simplicidade. Com certeza, eu e Roberto sabemos ser mais charmosos em um parágrafo do que você vai ler ali.

Foram muitos – muitos mesmo, eu precisaria ser mais de uma para atender tudo com o carinho merecido – que me procuraram para entrevistas e complementos dessas pesquisas acadêmicas. Jornalistas e blogueiros também fizeram perguntas e eu tentei falar o que pensava, como em entrevista por email com o Luiz Valério, um blogueiro de Roraima, nascido no Ceará, que nunca conheci pessoalmente, e que desde o início do blog me procurou. Mandou uma lista de 16 questões e eu reproduzo aqui a primeira. Dez anos depois, a resposta ainda faz sentido, o que é uma admirável quando se trata de mundo digital:

O blogueiro americano Hugh Hewitt diz em seu livro blog que, diante da crise de credibilidade da “mídia hegemônica”, os blogs se colocam no papel de veículos de comunicação que estão conquistando cada vez mais a confiança do público. Você concorda com isso?

Eu acho que a questão da credibilidade é central tanto na grande imprensa quanto na blogosfera. Em ambas, ela não estará jamais resolvida, uma vez que credibilidade é algo que se constrói com o tempo e que pode ser destruído em um instante. Blogs são uma forma de comunicação entre pares e realmente conquistam um público cada vez maior. Mas dizer que os blogs conquistam cada vez mais a “confiança” do público já é algo diferente. Muitos internautas, principalmente abaixo de 25 anos, segundo estatísticas de acesso à internet no Brasil, costumam procurar informação por meio dos buscadores e muitas vezes caem em blogs através do resultado de sua busca, sem exigir muitas credenciais de sua fonte de informação. Isso  mostra que  boa audiência nem sempre é decorrente de credibilidade.  Acredito que os blogs são fonte de informação e ganham espaço com a diversidade de pontos de vista que oferecem. Confiança e credibilidade ainda são questões delicadas – tanto na blogosfera quanto em grandes veículos de comunicação.

Conexões e a necessidade do silêncio

Na retrospectiva dos 10 anos vejo como o blog estabeleceu conexões interessantes, tanto na área acadêmica quanto na pessoal. Infelizmente essa multiplicidade também deixou o caldo que se forma menos concentrado, alimentou uma multiplicidade de nós mais fracos e enfraqueceu o hub (para usar uma terminologia de um tempo em que eu estudava inteligência coletiva, lá longe, no início do século 21).

Houve um momento em que precisei silenciar, interagir menos com pessoas desconhecidas, responder menos questões existenciais e técnicas. “O que você acha desta experiência do uso do Twitter para fazer a cobertura das entrevistas no Roda Viva?” perguntava a Bel Colucci, por exemplo, quando ela me chamava para participar do programa de entrevistas da TV Cultura. Eu adorava, mas fazia uma ginástica danada para conseguir participar, não tinha com quem deixar o baby e já estava bem difícil conciliar trabalho com a chegada de um menino na minha vida.

Passei a escrever menos. Houve um silêncio de dois anos.

Para fechar essa retrospectiva incompleta e seletiva, lembro como tudo começou, como era o papo naquela época, já que se a gente esquece até o que comeu no café da manhã, imagine o que se pensava quando o YouTube não existia e a conexão de banda larga ainda era sonho para a maioria dos brasileiros.

Ronaldo Lemos apresentou Conquiste a Rede:

Você é a Mídia: Saiba Como!

Há uma novidade difícil de ser ignorada. Em todo o mundo, nos países pobre ou ricos, a mídia tradicional está sendo transformada por um competidor que não existia antes. Esse competidor é a própria sociedade. Tradicionais empresas de mídia, do New York Times à NewsCorp, passando pela “velha senhora” BBC, todas estão tendo de repensar seus modelos de negócio e mesmo seu modelo de redação para competir nos novos tempos.

Mas como tudo isso foi possível? Como a sociedade, esse corpo desorganizado e fluido, conseguiu desenvolver ferramentas para mudar para sempre o modo como a informação é produzida e disseminada? A resposta a essa pergunta pode ser encontrada na coleção “Conquiste a Rede”, organizada por Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei. Através dela, é possível compreender de forma articulada as ferramentas de transformação que estão por trás destas mudanças.

E não apenas compreender: a coleção “Conquiste a Rede”, como denota o nome, possui uma dimensão prática que é fundamental. Ela explica em detalhes e traz dicas úteis para qualquer internauta interessado em fazer crescer sua presença digital na Internet. Vale notar que a coleção está em sintonia com o espírito de “do it yourself” que está tomando conta das práticas tecnológicas desse começo de século.

Nesse sentido, a coleção aborda, por exemplo, o fenômeno dos blogs e sua crescente importância. De ferramentas utilizada por adolescentes para relatar agruras pessoais, os blogs atualmente desempenham um papel cada vez mais importante, influenciando na política, na economia e na própria idéia de formação das notícias.

Lendo o livro sobre blogs é possível aprender as melhores práticas sobre como tornar um blog dinâmico e relevante. As dicas valem tanto para usuários iniciantes, quanto para blogueiros experientes. É bom lembrar que ambos autores são jornalistas de currículo não só invejável mas que compreendem profundamente a dinâmica da comunicação na Internet. Em outras palavras, são autores cujo DNA jornalístico já nasceu digital.

Essa mesma estrutura se repete para os demais temas abordados na coleção: os videologs e fotologs (ferramentas de compartilhamento de vídeos e fotos pela rede), os podcasts (programas de rádio virtuais, feitos para serem ouvidos em qualquer lugar) e a emergência do chamado “jornalismo cidadão”. Este último, um dos fenômenos mais interessantes e importantes da rede. Jornais inteiros, bem outros tipos de informativos, são hoje sendo produzidos sob o lema de que “todo cidadão é um repórter”. As dicas constantes na coleção ajudam qualquer “bom cidadão” a caminhar também no sentido de se tornar também um “bom jornalista”.

Por fim, cumpre chamar à atenção para o fato de que os autores puseram em prática seu lema de “faça você mesmo” também na modalidade inovadora de lançamento dos livros. Não só será possível obter a versão impressa dos exemplares de cada um deles, mas é também possível baixar todo o conteúdo pela rede. Os autores utilizam uma licença do “Creative Commons” para distribuir sua obra. Essa licença permite à sociedade como um todo, dentre outros direitos, distribuir os livros livremente, desde que seja para fins não comerciais. Tudo dentro do mesmo espírito colaborativo das transformações e ferramentas que são abordadas na obra.

Depois de tudo isso, fica o convite ao leitor da coleção para começar a participar de tudo isso que está acontecendo. É assim que estamos todos tendo a oportunidade de construir a nova mídia do século XXI. Vamos nessa.

Monstro das Letras, um grafitti de Fefe Talavera em São Paulo que fotografei em e postei no dia em que lancei meu blog, 23 de agosto de 2006

Monstro das Letras, foi como chamei esse lambe-lambe alfabético da artista Fefe Talavera, que fotografei e postei no dia em 23 de agosto de 2006, dia em que o www.anacarmen.com foi ao ar

 

 

 

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