Rio 2016: questão de gênero e estilo

As Olimpíadas das mulheres, como foi logo chamada, é também da torcida nas mídias sociais e das historinhas paralelas. Foram elas, mais que o desfile de músculos (ui) e a quebra de recordes, o de sempre, que me sensibilizaram. Logo no início, quando o clima vai dar zika foi substituído pela alegria de arte-brasileira-na-veia na abertura, as mulheres abriram bracinhos e brações à vontade. Não haveria espaço para o modelo linda/recatada/do lar entre pedidos de casamento entre elas no calor da entrega de medalhas e o papo sobre a menstruação que atrapalhou a medalhista chinesa de natação.

Um menino de 8 anos interessado em polo aquático e badminton e um bonitão que cobriu as Olimpíadas de Sydney a meu lado também são em parte responsáveis pelo meu interesse. Há ainda um certo alívio para a ressaca da política brasileira que esse as largadas, braçadas e os 36 canais ao vivo de esporte oferecem. Truque barato e rápido, mas cicatrizante.

chloe logarzo reproducao

Chloe Logarzo levou a geral das redes sociais ao delírio com seu gesto de comemoração de um gol. O comentarista da TV disse que era “o famoso sinal do Ronaldinho”. Sei, disseram os internautas.

As mulheres puseram as questões de gênero em campo. Ganharam memes porque não vieram de salto alto no futebol;  jogaram vôlei de praia de chador e, do outro lado da mesma rede, de biquíni. Joanna Maranhão comprou a briga com os internautas que conseguiram dizer pelas redes, depois que foi desclassificada, que ela merecia a violência. Processo neles, prometeu. Já coreanas do norte e do sul tiraram uma selfie juntas, dando uma aula de política. 

Alquimia da geral

Uma arquibancada expandida e sem modos sobrepõe-se nas redes sociais aos lugares numerados dos estádios e arenas. Dessa cozinha do capeta saem comentários ardidos, humorados, insolências e barbaridades. Não dá para separar as Olimpíadas das hashtags, seria perder uma de suas dimensões.

Fora tudo isso ainda há notícias mal feitas e inventadas. Como aquela do treinador que teria atribuído ao candomblé a vitória de um brasileiro e que depois se revelou uma criação literária do repórter, como se isso existisse em jornalismo.

A historinha mal contada dos nadadores norte-americanos – Ryan Lochte entre eles – um assalto na primeira versão; um fuá em um posto de gasolina segundo a apuração da polícia. Um dos tweets diz que o Lochte superou Bolt em velocidade porque “aprendeu a dar migué em apenas 10 dias de Brasil”.

Gambiarra

Nessa linha Cidade Maravilha Purgatório da Beleza e do Caos segue o repórter australiano (sempre eles?) Anthony Sharwood, do Huffington Post, que postou fotos em um bar sujinho e virou o “gringo” do bem que sabe apreciar o que temos de melhor. A arquibancada veio abaixo com o selfie com copo com cerveja na mão, mesa de plástico na calçada.

"Don't tell my boss how much fun I'm having at #Rio2016" (Não conte ao meu chefe o quanto estou me divertindo no #Rio2016). A simpatia de Anthony Sharwood, repórter do Huffington Post, bastou para transformá-lo em celebridade do Tweeter

“Don’t tell my boss how much fun I’m having at #Rio2016”. Não conte ao meu chefe o quanto estou me divertindo no #Rio2016. A simpatia de Anthony Sharwood, repórter do Huffington Post, bastou para transformá-lo em celebridade do Tweeter. A arquibancada aprecia a adesão a esse mundo nada arrumadinho em que vivemos

“In Rio for and loving it. Falo Português do Brasil muito mal. Olá e obrigado a todos os meus novos seguidores brasileiros. Eu preciso de uma cerveja”, escreveu no perfil. Troféu simpatia para o gringo.

O estilo das Olimpíadas é assim #foratemer, sem finesse, com atitude

Todo dia uma escultura em gelo colocada na calçada de Copacabana onde se lê Legado 2016 passa pela minha timeline. Foi a Olimpíada em que construíram um campo de golfe em área de preservação e por isso capivaras aparecem toda hora para espiar os jogos. Um dirigente do COI foi preso por tráfico de ingressos e a ciclovia à beira-mar caiu em acidente com vítimas, só para citar alguns dos pontos nevrálgicos do evento. Toda vez, no entanto, que a câmera acompanha o horizonte do Rio de Janeiro, suspiramos admirados novamente, porque a cidade é um cenário dos sonhos. O Museu do Amanhã tem uma flor esculpida em metal que compõe com a linha da água. Há Phelps, o peixão com uma história de vida incrível, medicado com ritalina na infância por ser muito ativo, e há Bolt, aquele que vence com um sorriso de passeio.

Nascem novos mitos e ídolos como Isaquias Queiroz, da canoagem, recordista, assim como a judoca Rafaela Silva, em superação de obstáculos trazidos pela pobreza, acidentes e histórico familiar conturbado.

A narração com data de validade expirada “vai perder, vai ganhar, perdeu, ganhou” (sic) do Galvão Bueno é atropelada pelas notícias de verdade: outro boteco sujinho, chamado Bin Laden, é o lugar mais animado nos arredores da Vila Olímpica. Deu no New York Times, veja bem, que esse boteco de 5 caixas de cerveja por dia passou a vender 25 a 30 – não mais porque o freezer não comportava – com a frequência de atletas de todo o mundo em busca do Rio de verdade, do Rio bagunçado como essas histórias paralelas.

Como disse Ant Sharwood, foi em uma viela atrás do Sambódromo, onde foi cobrir tiro com arco, nas palavras dele “exatamente o tipo de bairro que todos os repórteres australianos foram aconselhados a evitar”, que ele descobriu uma rua de verdade e gente vivendo uma vida de verdade – “not the beautiful-but-sterile Rio of the sparkling Olympic Park precinct”, ou seja não a linda e estéril Vila Olímpica. Então conseguiu-se um feito nessa Olimpíada, o de mostrar nosso rosto feio e com ele e arte, costurar o dia a dia.

Medalha, medalha, medalha

Medalha, medalha, medalha – para mim, isso sempre foi coisa do Muttley, cachorrinho da Corrida Maluca, companheiro do Dick Vigarista. Já uma Olimpíada com estilo, como essa, é outra coisa. Desperta dúvidas existenciais. Se eu tivesse continuado a treinar corrida de 100 m, coisa que fiz aos 10, 12, sei lá, se soubesse que esporte pode ser interessante, chegaria lá?

Sabia que eu já experimentei salto em altura? Que corri com um queniano recordista, Peter Koech, quando passei um tempo nos Estados Unidos? Entre uma mordida no pão e um gole de café, me vi proferindo esse tipo de confidência à mesa para o menino de 8, que se mostrou ligeiramente surpreso ao saber que eu não fui sempre esse cansaço nas corridas.

A primeira Olimpíada que me pegou. Continuo sem interesse em tênis de mesa que, no meu entender, deve ser jogado apenas nas tardes quentes de férias para espantar o tédio. Acho levantamento de peso um absurdo, só penso nos discos e vértebras da coluna de quem pratica essa herança de motoristas de biga. É melhor parar por aqui porque vou ofender os que amam tudo isso.

Rio 2016 foi aquela surpresa, apesar de todo o glamour, dos desvios de dinheiro, da confusão política, dos que foram retirados do estádio porque acham o governo interino ilegítimo e expressaram seu desagrado com faixas. Mesmo assim, é possível garimpar vida, com direito a toda sua imperfeição e drama, entre as mordidas no bronze, prata e ouro.

 

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