Transnational Dialogues e fantasmas da globalização

A chinesa Guo Rui conta que gostaria de erguer um monumento em memória daqueles que morreram de fome na zona rural de seu país entre 1959 e 1961, um período que ficou conhecido como A Grande Fome. Durante dois anos, no vilarejo onde viveu seu avô, Guo Gaoling, ela perguntou aos moradores mais velhos se lembravam dos nomes de quem morreu de fome nesse período. Ahn? Era invariavelmente a resposta que obtinha na primeira vez em que perguntava.

Guo Rui veio ao Brasil com o Transnational Dialogues, um programa artístico e cultural entre Brasil, China e União Européia que busca um novo ângulo, digamos assim, para pensar a respeito de “novas geografias decorrentes da globalização e da emergência de um mundo multipolar e artístico”. A cineasta e jornalista esteve em São Paulo para exibir na Cinemateca Brasileira “A Grande Fome do meu Avô”, concluído em 2013. Era um entardecer quente de março, desses de virar um carro e deixá-lo com as roda para cima.

A votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff trouxe de volta a experiência de conhecer Guo e os fantasmas que emergem de seu filme, com atmosfera que lembrou o russo Tarkovsky. São cenários esfumaçados, apenas delineados, traçados pela memória esmaecida de pessoas que prefeririam não falar a respeito do que foram forçados a testemunhar. O garimpo da história oral para resgatar um fio da meada a partir de relatos de quem tem dificuldade em discernir o que é sonho, o que é esquecimento.

Cena de "A Grande Fome de Meu Avô", documentário de Guo RuiHomens e mulheres marcados pelo tempo como pouco ocidentais se permitem:

– Lembra-se de Guo Gaoling?

– Ahn?

– Guo Gaoling.

– Quem?

– Guo Gaoling.

 

Guo Rui, diretora do documentário A Grande Fome do Meu Avô na Cinemateca Brasileira

Guo Rui, neta de Guo Gaoling e diretora do documentário “A Grande Fome do Meu Avô”

Passada a primeira barreira, ser entendida, Guo Rui entabulava com seus os moradores do vilarejo uma conversa quase surreal. A jovem, que nunca conheceu seu avô, buscava descobrir como foi o tempo dos refeitórios, como lembram eles desse período no século 21. Todas as “refeições”, todos os 100 gramas de batata-doce servidos diariamente por pessoa (crianças recebiam rações ainda menores), eram oferecidos em galpões. Nas casas não havia alimento, panelas, fogão ou forno. Todos confiscados pelo governo. O avô de Guo Rui, membro do partido comunista, era o funcionário responsável por organizar a distribuição de alimento nesses galpões convertidos em refeitórios.

“Se me lembro de Guo Gaoling? Claro que me lembro dele. Ele batia em sua avó”, conta uma das entrevistadas. “Ele não cuidava bem dela, nem dos filhos. Ela também comia nos refeitórios, ele não levava comida extra para ela. Ela comia o que nós comíamos.”

O monumento que é uma lista de nomes

A cada entrevista, Guo extrai a duras penas nomes de quem morreu de fome na época. E faz uma lista. Na tela, esse inventário cresce aos poucos, de conversa em conversa. A câmera passeia pelo chão batido das moradias, pelo rio oleoso cheio de lixo que corta a vila, mostra cenas de refeições. Os dias atuais parecem ser de bonança e prosperidade comparados às lembranças que ela colhe.

As memórias surgem envoltas na neblina da imprecisão, há tanto tempo ninguém lembra deles que perderam forma e número. Da época resta um travo amargo, o trauma de quem sobreviveu.

O documentário sobre o funcionário do refeitório Guo Gaoling faz parte do Memory Project, lançado em 2010 pelo cineasta Wu Wenguang. A filmografia desse projeto de memória sobre o período da Grande Fome é extensa. O tema causa desconforto no governo chinês até hoje. É difícil lembrar momentos em que a integridade física esteve ameaçada. Colocar os fatos em perspectiva, avaliá-los sob o frescor de tempos de bonança (ou nem tanto) é recuperar e construir sentido.

Fernanda Ramone, coordenadora do Transnational Dialogues no Brasil e Guo Rui

Fernanda Ramone, coordenadora do Transnational Dialogues no Brasil, e Guo Rui na Cinemateca Brasileira

Guo Rui explicou que fez o filme por motivos pessoais e porque é uma história que muitos desconhecem, poucas décadas depois. “Why did I go back to this village? I was neither born nor brought up here. I had no nostalgia. I think I am tracing the origin and power of my name”, escreve. A origem e o poder de meu nome: minha história, minhas raízes, em suma.

Talk Real Marginalia

Talk Real Marginalia, debate promovido pelo Transnational Dialogues sobre a produção artística das margens

Talk Real Marginalia, debate promovido pelo Transnational Dialogues sobre a produção artística das margens

Outro encontro do Transnational Dialogues ocorreu dias depois, desta vez no centro de São Paulo. A proposta era discutir “como as margens adquirem uma nova centralidade ao esculpir futuras alternativas em um momento em que modelos econômicos e democráticos parecem falhar”. Encontrei ali Guo Rui, Fernanda Ramone, o brasileiro articulador de redes Erik Rodrigues e Robin Resch, artista plástico alemão e curador dos diálogos transnacionais.

Da platéia, Talk Real Marginalia, foi um papo confuso, em que as discordâncias sobre o cenário da produção artística no Brasil não conseguiram sequer dialogar. Falava-se, mas não se sabe direito sobre o quê.

Os dias quentes que acompanharam os diálogos transnacionais de março trazem, de certa forma, um bom ângulo para observar o momento de confusão política, de falta consonância e diálogo, falta de paciência e coerência. Sobram fantasmas do passado recente no Brasil.

Tempos difíceis que sacolejam as margens, o centro, a espiral, tudo.

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *