Piscina natural

Ilha de Boibepa

1531: Martim Afonso de Souza avista a ilha.

2016: Eu a chamo de meu bem.

Parte do arquipélago de Tinharé, a ilha de Boipeba fica no município de Cairu, no sul da Bahia, uma de 36 ilhas com vocação para paraíso tropical. Tem piscinas de corais, coqueiros, brisa, uma cultura local forte e renovada e sua história da ilha mistura-se à do descobrimento do Brasil.

Boipeba é bonita como ela só.

No rio do Inferno, a caminho de Boipeba, região que é reconhecida pela Unesco como reserva da Biosfera

Pedaço de Pindorama

Tudo era terra de tupinambás quando chegaram os conquistadores portugueses e castelhanos. Esses índios não eram, tampouco, os mais antigos moradores. Dois milênios antes as ilhas já eram habitadas, atestam sambaquis. Terra antiga.

Os tupinambás compraram briga: os primeiros moradores de Boipeba fugiam de seus ataques no continente. O convento franciscano de Cairu marca um dos núcleos mais antigos de povoamento do Brasil, prova de que os portugueses estavam decididos a se estabelecer, custasse o que custasse. Esse esforço para manter o controle da região oficializa-se em 1536, quando Mem de Sá cria uma sesmaria “das doze léguas de Camamu”, à qual pertencia a “Aldeia e Residência de Boipeba”.

Quando você caminha pelas praias de Boipeba – e você pode contornar toda a ilha se desejar, gostar de caminhar muito e resistir ao sol que nos protege, daqueles de derreter ideias – volta-se à paisagem de um Brasil histórico, mundo das tartarugas marinhas e mangues intocados. Você encontra um trecho de Pindorama.

Céu No ritmo das marés

São poucos povoados  de pescadores na ilha: Velha Boipeba, Moreré e Cova da Onça. A vida ali escorre regida pela tábua de marés e festas de santos, quando é hora de dançar e festejar depois de uma procissão. Em janeiro, Cova da Onça se enfeita com fitas para São Sebastião. O pessoal se vira para chegar até o povoado, seja de barco ou em trenzinho puxado a trator. Quanto às marés, quem vive de pesca sabe que na vazante é hora de procurar polvo nas piscinas de coral que se formam por toda a ilha.

Um caranguejo com cérebro na caminhada pela mata até a praia de Cueira

Um caranguejo com cérebro na caminhada pela mata até a praia de Cueira

A fartura de frutas, a abundância das matas e do mar estão preservadas. Por isso voamos para lá, em busca de um céu que não limita, de um sol que não falta e da promessa de sossego.

Praia de Tassimirim resume a ópera: coqueiro, mar azul e calmo, brisa, bora andar

Praia de Tassimirim resume a ópera: coqueiro, mar azul e calmo, brisa, bora andar

Sossego

A nau Madre de Dios afundou na Ponta dos Castelhanos, um dos lugares mais impressionantes que visitei nos últimos anos. Pouca coisa mudou desde esse naufrágio. Sabe um lugar onde se ouve o silêncio? É lá.

Céu, mar, sal, água de coco e sol inclemente: isso cura

Céu, mar, sal, água de coco e sol inclemente na Ponta de Castelhanos

De barco, bicicleta, trator ou a pé

Carros não circulam na ilha. Para quem vai passear, isso é uma boa, mudança de ritmo garantida. Você escolhe entre caminhar, pedalar ou combinar um passeio de barco com um pescador ou nas agências turísticas que seguram boa parte da economia local. Entre as vilas de Velha Boipeba e Moreré o transporte é feito por trem puxado a trator, que sai de hora em hora na alta temporada.

Transporte de mercadorias na vila de Velha Boipeba só de jegue ou bicicleta

Transporte de mercadorias na vila de Velha Boipeba só de jegue ou bicicleta

Onde ficar

A ilha de Boipeba tem pousadas e restaurantes para todo o tipo de visitante, do milionário de bom gosto ao hippie que veio para a rave. Acompanhei o desembarque de um senhor diretamente na praia de Moreré, que não tem porto. Além de pagar uma boa grana pelo transporte direto, ele não ficou nem um pouco triste em se molhar, mala na cabeça, tênis na mão. Também presenciei duas garotas que falavam espanhol (permanece o interesse dos “castelhanos” pelas terras) negociarem meia garrafa de licor de guaraná porque não tinham dinheiro para a garrafa toda. “Después a chente volta para comprar a outra metade”, diziam. “Você sabe que a chente volta.” Céus. Será que é bom? Depois me conte.

Falando em sabor local, o chocolatier Fernando processa as amêndoas de cacau da terra e vende suas criações em Velha Boipeba, na praça onde os meninos brincam de carrinho à noite. Na lista de gostosuras locais eu incluo ainda cocadas com goiaba e suco de mangaba.

Velha Boipeba, Moreré, Cova da Onça. Essas são as maiores vilas de pescadores da ilha. Moreré foi a eleita pelas tribos alternativas todas. Encontrei lá todos os argentinos que gostam rave. Alguém bateu o tambor e eles vieram, desistiram de voltar e praticavam vinyasa yoga no restaurante que faz o receptivo do pacote turístico. Mistureba daquelas, na boa.

Na comunidade de Velha Boipeba

Em Velha Boipeba comi o melhor acarajé de minha vida. Dona Dalva e Josane, mãe e filha de santo, vieram de Valença para as festas do fim de ano, estavam de passagem. Vendiam o quitute na pracinha onde as crianças da vila brincam à noite. Quem provou, provou.

Em Velha Boipeba, o acarajé de Josane, o melhor que já provei

O acarajé de mãe Dalva e Josane: acompanhado apenas pela “salada”, um vinagrete de tomate verde e cebola

É nessa vila que atracam os barcos de Valença e Morro de São Paulo. É a que possui melhor estrutura de comércio e restaurantes, além de variedade de pousadas. Com uma ou outra exceção, como a Casinha Amarela da fotógrafa italiana Cristina Cenciarelli, a hospedagem de charme e de luxo não é o forte. Hostels e opções econômicas de hotel dividem espaço com o aluguel de quartos dos próprios moradores.

Uma das coisas que me supreenderam foi observar a placa “temos vagas” em uma casinha meia-água, onde aparentemente já morava uma dezena de pessoas. O coração é grande e como o calor e a brisa são constantes e não há carros, a sala – cadeiras, sofás, família inteira de prosa no começo da noite – vai para a rua. Talvez por isso sobre mais espaço lá dentro para os mochileiros.

Convivência pacífica de universos paralelos em Velha Boipeba

Convivência pacífica de universos paralelos em Velha Boipeba, que está na rota de hip(sters)-hip(pies)-hip(er ricos)

Moreré

Hotel encravado no morro com nome em francês, tem. Pousadinha descolada e lagosta grelhada, também tem. Moreré está no roteiro do charme, mas também na rota do bicho-grilo feliz. Há espaço para o PF em frente à rodoviária do trator. A miragem pemanece. Quando a maré baixa, dá para jogar futebol. Mas se você quiser se refrescar no mar  na vazante, melhor caminhar até Bainema, a praia ao lado. A trilha é enfeitada por hibiscos. Da forma que for, não há dor.

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A variação de marés deixa a trave do gol sob a água em Moreré

A variação de marés deixa a trave do gol sob a água em Moreré

Quando o mar recua, a praia fica pronta para o jogo de futebol

Piscinas de coral

As marés formam piscinas naturais em Moreré. Visitá-las é um daqueles passeios oficiais do lugar, o que nunca resulta em poesia. Dezenas de barcos ancoram no meio do oceano, lado a lado. Quem está hospedado em Morro de São Paulo também vem. Uma lancha liga o som, o barco ao lado põe outra música. Os peixes deveriam fugir, mas se acostumaram a receber pedaços de pão. A menina que só quer tomar cerveja no barco-bar nem coloca o snorkel para não estragar a maquiagem. Uma perda de tempo juntar-se a esse barulho todo.

Passei por lá em um barco de pesca tuque-tuque uma-hora-a-gente-chega do Charlie Brown, pescador de fala malandra que perdeu seu tempo explicando ao povo maquiado e mais interessado em bar flutuante que em peixinho no coral que não se deve jogar pão. “É o fermento, faz mal para os peixes”. Uma perda de tempo dupla, essas piscinas do axé.

Alugue uma lancha, uma canoa. É mais caro fugir do lotação, mas você pode ter a minha sorte de fazer amigos. Sinceros. Dêem risadas por uns dias até decidirem dividir uma lancha para chegar às piscinas de coral em frente às praias de Bainema e Castelhanos. Lindas. Aí, sim.

Inesquecíveis as horas a planar sobre o coral. Ali, os peixes coloridos e cardumes não são incomodados. Uma espécie tem no corpo olhos da pena de pavão. Use uma camiseta com proteção solar. O sol da Bahia continua lindo. O sol continua sempre.

Lugar sem tempo

No início do século 21, a fotógrafa italiana Cristina Cenciarelli mudou-se para Boipeba e dedicou seu olhar à pesca e ao candomblé desde então. Tem livros de arte e uma pousada chamada Casinha Amarela. Lembra de Josane e mãe Dalva, as baianas do acarajé de outro mundo? Pois encontrei Josane assim que desembarquei na Casinha Amarela, na margem oposta da vila, onde estavam os amigos com quem mergulhei nos corais. Quando a gente está disponível, a ilha providencia. Nesse vídeo tem-se uma ideia do universo de suas imagens:

Como chegar

Fiz questão de participar da gincana aeroporto de Salvador/ferry boat/Bom Despacho/Valença/ilha de Boipeba e do jeito mais raiz possível. Enfeitei a gincana com um pernoite em Salvador na casa de familiares antes de ir para o ferry boat e como deu tudo errado no timing dessa travessia de balsa, que atrasou 45 minutos, houve outro suavizador, um táxi da ilha de Itaparica (Bom Despacho) até Valença. Gastamos nesse luxo o triplo do que gastaríamos de ônibus, mas ganhamos conforto e um papo com o motorista sobre como anda a região e como era tudo antigamente.

Na próxima vez eu experimento ir até Valença de avião (sai de Viracopos, com escala em Belo Horizonte). Já conheço toda aquela experiência antropológica do ferry boat. Uma cena que a sintetiza: dois violeiros se apresentam para os passageiros, tocam três músicas (duas antigas do Roberto Carlos e uma gospel que desconheço), os passageiros cantam, alguns se entusiasmam e batem palma para passar o tempo (cerca de uma hora de travessia), contribuem com os artistas. Fim.

Os violeiros se posicionam em seguida na frente da outra metade dos passageiros do ferry, os que estão sentados do outro lado do corredor. Alguém pede uma música. Eles ignoram a voz do povo e executam nos violões as mesmas três músicas, provavelmente as únicas que sabem tocar. Fim. A mocinha paulista vestida só com saída de praia enjoa, o vendedor de picolé fatura, os estrangeiros sorriem extasiados com a vista da Baía de Todos os Santos. Esse é o ferry boat.

Catamarã, avião, lancha

Há um catamarã de Salvador para Morro de São Paulo, outra opção a se pensar. Para os destemidos e com orçamento mais encorpado, é possível ir de avião. Já experimentei voltar de Morro de São Paulo uma vez e, para você ter uma ideia, ajudei a empurrar o avião pelas asas até o fim da pista de grama.

O importante é que de Valença em diante o percurso passa para a categoria vida boa. O transporte coletivo é feito em lanchas e leva-se uma hora e 40 minutos pelo rio do Inferno até Boipeba. O nome deve ser herança dos tempos do tupinambás e seus ataques, um inferno. Hoje as margens têm mata nativa, manguezais e o trânsito no rio é intenso. Sua lancha vai balançar muito cada vez que outra embarcação cruzar com ela.

Na Boipebatur você encontra algumas explicações sobre como chegar à ilha. Você não deveria se queixar da gincana. É ela quem protege a ilha do turismo massivo. Ainda protege – espera-se a construção de um resort de luxo na região para breve. Veremos como transformará a região.

É proibido levar mala com rodinhas

A mala perfeita para a viagem de avião é o grande mico na viagem de lancha, no desembarque no píer e nas ruas de pedra ou areia das vilas de pescadores. Escolha algo pequeno, quem sabe uma mochila, ou prepare-se para ser o turista trapalhão de filme da sessão da tarde.

Grafite no pau a pique em Moreré: convivência de universos paralelos

Grafite no pau a pique em Moreré: convivência de universos paralelos

Um pouco mais de história

Gabriel Soares de SouzaTratado Descritivo do Brasil em 1587

UM LUGAR NA HISTÓRIA: A CAPITANIA E COMARCA DE ILHÉUS ANTES DO CACAU / Marcelo Henrique Dias e Ângelo Alves Carrara ( Orgs. )

Memorial da Câmara de Cairu

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