Paulo Francis

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Paulo Nogueira escreve sobre Paulo Francis com a elegância necessária. Francis, como nós, jornalistas, chamávamos o mito, podia pecar em qualquer coisa, menos em estilo. Tinha um estilão.

Comecei a ler sua coluna, “Diário da Corte”, publicada a partir de 1977, ainda menina. As ilustrações, assinadas por Mariza, traziam desenhos bastante surreais, envoltos em bolhas, corpos distorcidos. Texto, ilustração, estilo e autor eram agradavelmente dissonantes naqueles tempos de fim da ditadura militar.

Paulo, o Nogueira, encarou a missão impossível de entender e explicar um jornalista tão complexo sem costurar trechos e mais trechos de citações. Considero uma proeza, pois é irresistível pinçar frases de efeito de Francis, que soube ser engraçado e delicioso em um sem fim de vezes. Mas seria uma pescaria barata.

“Barata Descascada”, xingou Francis a certa altura de uma briga sem eira nem beira com Caio Túlio Costa. Agradavelmente dissonantes, esses episódios de cordialidade zero que Francis colecionou estão todos na reflexão sobre seu talento para a polêmica, sem chegar a ser o melhor da festa.

“Paulo Francis, Polemista Profissional”, lançamento da Imprensa Oficial, acompanha o mito com um olhar original, com o conhecimento de quem vivenciou esse  jornalismo que reuniu condições para a existência de um Francis.

Ao ler o livro, posso sentir o cheiro do café ruinzinho do Estadão e da Folha quando Nogueira conta que Francis dizia que os editores às vezes eram mais realistas que o rei. Nogueira é narrador ímpar. Acompanhou, vivenciou e resmungou com o próprio Francis sobre os azares da corte.

Paulos, vocês juntos estão ótimos.

2 comentários sobre “Paulo Francis

  1. Paulo Francis era primo de papai, Sergio Barcellos, outro intelectual carioca amante de Wagner, do cinema fordiano e dos “good bad books” do infefável Somerset Maugham.

    Francis foi também padrinho de batismo católico de minha irmã, Claudia Silvares Barcellos em priscas eras.

    Francis foi um homem de efeito, um radical orfão, mais assonante do que dissonante num Brasil – parafraseando o próprio -, “uma terra de capachos”.

    O jornalismo de hoje é apenas notícia. E quando este vem em incessantes turbilhões sensacionalistas aí é que o povão vai ao delírio. Duvido que um Bernard Shaw ou quem sabe um Samuel Johnson – os patriarcas do jornalismo civilizado -, inconformistas do jeito que eram, dessem de ombros para essa patuscada atual. Bajular a massa não a faz pensar, já disse Paulo Francis, o sábio.

    Shaw, irlandês irascível e antenado, escreveu sobre tudo: teatro, política, economia, sexo. A opinião jornalística foi quase que totalmente exterminada há dez anos. Tanto lá quanto aqui. Hoje, acho que sucumbiu por completo, pois é servido trivial e frio numa bandeja de latão com uma maçã assada entupindo a boca do chamado ‘press realese’.

    A análise jornalística só não foi mesmo pras cucuias, pois estacionou nas cadeiras das universidades.

    O jornalismo da era Francis/Barcellos/Moniz Vianna e cia limitada são outros quinhentos mil-réis.

    Saudades.

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