Completo 10 anos sem cigarro.
Parar de fumar foi uma das coisas difíceis que encarei.
1- Descompressão
Por um ano, acalentei nos dedos a ideia de que parar era um fato, não uma possibilidade. Eu iria parar de fumar. Nâo era preciso parar justamente hoje, nem amanhã, mas isso iria acontecer no médio prazo. Ficava sem cigarro por dois dias, depois quatro, voltava a fumar durante outros dez, depois conseguia uma janela maior e assim se passaram meses e meses. Seriam 11 anos desde o início dessa viagem, na prática.
2- Ninguém precisa saber
Muita gente nem reparou: você fumava?
3- Em caso de emergência
Guardei dois cigarros na gaveta para usar quando quisesse. Sem neura. Nunca usei. Pulei o ridículo de anunciar que tinha parado de fumar e começar a “serrar” cigarro alheio. Além disso, foi uma forma de evitar o charme do proibido.
4- O outro não é problema meu
Posso me juntar aos amigos no fumódromo. Posso ir ao show no inferninho. Posso beber chopp no Filial e não vou fumar só porque o outro acendeu um cigarro às duas da manhã. Uma dura lei da vida: o outro não é problema meu.
5- Um copo de água
Deu vontade de fumar? Bebe um copo de água. Não resolve nada, mas distrai. O corpo agradece.
6- Tempo para cuidar do assunto
Sei que são dez anos desde que parei de fumar não porque estou na contagem dos minutos desde então, mas porque escolhi uma época de poucas pressões e muita diversão – férias no Canadá e EUA – para inaugurar oficialmente a nova fase. Viagem inesquecível a que a data ficou associada. Dez dias antes do embarque. Sou péssima para datas, mas cheguei a Toronto em 1º de maio. Não era feriado, memorizei.
7- Nem uma tragadinha
Duas tentativas fracassaram com essa brincadeira de só uma tragadinha. Uma delas durou dois anos! Assumi o estilo AA: não sei fumar socialmente.
8- Meu gatilho
Descobri que fumava para espantar o cansaço. Nos plantões de fim de semana na redação do jornal. Na madrugada gelada de um show que eu havia transmitido ao vivo para a TV, enquanto os peões desmontavam as câmeras, quando sobrava eu e o meu sono.
9- Informação sobre o vício
Trabalhei na comunicação do Hospital do Câncer A.C. Camargo e fiz parte da equipe que criou uma campanha sobre comportamentos que levam ao câncer, produzida pela agência JWT. Nessa época, mergulhei em papers e estudos científicos sobre tabagismo e conversei muito com médicos famosões. Escrevi a respeito, consolidei algum conhecimento.
Já havia escrito uma reportagem sobre como parar de fumar nos anos 80, uma tentativa louvável da editora de moda do JT na época, Maiá Mendonça, de me tirar dessa vida. Cheguei a visitar uma clínica que dava choque no fumante cada vez que ele levava o cigarro à boca (behaviorismo tosco).
Mas o que mais me ajudou em termos de vivência foi uma reportagem que fiz em uma clínica para recuperação de viciados em drogas. Eles usavam o método dos 10 passos e eu, como repórter, entrei nos passos como uma forma de assumir que eram viciados. Ouvi coisas que eles provavelmente não contaram para mais ninguém. Ali aprendi a respeitar o inimigo, a ser mais humilde. Vício é um comportamento definido, não importa no que você é viciado. Aprender como o vício funciona é muito esclarecedor.


Lucia Freitas
April 21st, 2009 at 4:11 pm
preciso de mais informação. Um post “doce” como este seu me faz respirar – claro que acendi um cigarrinho na sequência – e querer parar de verdade. Mais, Aninha, por favor…
Tato
April 22nd, 2009 at 8:12 am
Você inspira.
Beati Di Giorgi
April 27th, 2009 at 8:17 pm
Oi Ana Carmem,
Hoje completo 4 dias sem fumar. Me identifico com suas impressões e sensações. Espero ter o mesmo sucesso e comemoremos, respectivamente, 20 e 10 anos sem fumar.
bjs
Beati