Arquivo do mês: March, 2008

Águas de março

Na estrada Na estrada

“São as águas de março fechando o verão/ É promessa de vida no teu coração.”

Fotografei sábado e registrei as águas de março fechando o verão, algumas horas antes de elas desabarem em forma de tempestade com raios. Deixaram para a lua cheia da Páscoa apenas uma breve aparição.

Tom Jobim era uma simpatia, um figura. Entre tantos músicos que entrevistei, ele pertence ao grupo dos gênios de grande porte.

“É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira”

Viajei para Campos do Jordão para a abertura de um festival de inverno especialmente para conversar com Tom Jobim sobre a criação da Universidade Livre de Música, da qual ele era patrono. Isso foi em mil novecentos e bolinha. Ele me enrolou um tanto, mas eu não estava com muita pressa mesmo. Nossa conversa acabou sendo rápida, muito rápida, constato hoje, no camarim do Auditório Cláudio Santoro. Tom embrulhado em cachecol e na nuvem de fumaça do charuto. Uma grande figura.

Atropelou o verbo e fugiu: qualidade no jornalismo

Adoro o blog coletivo Conversas Furtadas, que coleciona bobagens ditas na rua. Copio um post chamado Pout-pourri, de Claudio Delamare, sobre estudante de comunicação que não gosta de ler:

- Ah, professor, eu sempre achei essa coisa de ler um saco, nunca gostei.
- Mas aluno de comunicação que não gosta de ler? Não pode.
- Pois é, precisa, né? A agora eu empolguei com um livro que ganhei.
- Qual?
- O Código Da Vinci. Já li todo.
- Tá, OK. É formulão, mas é um começo. Gostou?
- Adorei! Agora tou empolgada, quero ler mais, até já escolhi o próximo!
- E qual será?
- Desvendando o Código Da Vinci.

Atropelou o verbo e fugiu

Essa situação dá uma pista a respeito da qualidade das notícias. Se nem os estudantes de comunicação que, teoricamente, deveriam se interessar pela coisa, mostram-se fluentes na produção de conteúdo, como esperar que a produção do leigo seja excelente? Ainda mais aqui, onde o cidadão é antes de mais nada, brasileiro. Brasil, escutai vossos pandeiros, 32% da população ainda é de analfabetos funcionais.

Só por sorte do destino -e ainda que assim mesmo há inúmeros casos – a contribuição do cara que não é profissional de comunicação é redondinha, pensante, estruturada, criativa, confiável, ética, pertinente, responsável, dá voz aos dois lados, verifica informações antes de divulgá-las e reúne todos os atributos imagináveis para o conteúdo de qualidade. É pura sorte, uma variável metafísica. O leigo não tem idéia de que o que produz tem de ser assim ou assado, se o faz, é por intuição ou porque sabe de orelhada. Uma saída para que haja um salto de qualidade pode ser contar ao leigo o que é bacana fazer quando se publica na web.

O que deveria preocupar a todos é a qualidade do que produzem os profissionais de comunicação. Nós, pobrezinhos, profissionais das comunicações, estamos “trocando o óleo do carro enquanto dirigimos pela estrada”, para usar a expressão de um diretor de uma empresa de comunicação chamado Howard Weaver. A frase desse senhor, sobre a reinvenção da forma de produzir e publicar notícias, que tumultua as redações nesse momento, consta no relatório The State of the Media 2008, divulgado esta semana, a respeito da mídia dos EUA. Qualidade é algo sensível tanto no jornalismo tradicional quanto no jornalismo cidadão.

Jornalismo cidadão

Passo ao segundo episódio desse relatório (leia o primeiro), que aponta para problemas no mundo do jornalismo cidadão. É preciso ressaltar que as críticas que o documento faz, bastante contundentes, vêm de expectativas elevadas que não se cumpriram. Se você estiver interessado em mergulhar na questão, leia mais no capítulo sobre principais tendências do relatório:

“As perspectivas para o conteúdo gerado pelo usuário, que pareciam ser centrais para a próxima era do jornalismo, agora parecem mais limitadas. Jornalistas dizem que a melhor parte da contribuição dos cidadãos são as novas idéias, fontes, comentários e, até certo ponto, fotos e vídeo. Cidadãos postando conteúdo jornalístico, no entanto, mostrou-se algo menos valioso, com pouca coisa nova ou verificável.

O pessimismo não está restrito à mídia tradicional. O conjunto de notícias produzidas por cidadãos e os blogs está chegando a um nível significativo. Mas um estudo sobre jornalismo cidadão contido nesse relatório verificou que a maioria desses sites não deixa estranhos fazer nada além de comentar o material do próprio site, o mesmo que fazem os sites da mídia tradicional. Poucos permitem postar notícias, informação, eventos da comunidade ou cartas ao editor. Blogs são ainda mais restritivos. Em resumo, em vez de rejeitar o papel de “guardião do portal” (gatekeeper) do jornalismo tradicional, os jornalistas cidadãos e os blogueiros parecem estar recriando esse papel em outros lugares.”

Vai fundo

Feio e gostoso, linda e disfuncional

Feio e gostoso/Ugly and delicious Feio e gostoso/Ugly and delicious

Sinto-me como aquele dinossauro rosa chamado Barney quando olho para os pés. Não é à toa que o logo do Croc é uma pata de dinossauro.

Durante vários meses observei os pés das crianças: elas adoram, não tiram do pé. Percebi que as meninas enfeitam os Crocs com botões de bichinhos quando o vendendor tentou me empurrar um par. “Se as crianças gostam”, pensei, “deve ser confortável”.

Os meses se passaram, precisei de um novo chinelo, tranquei o senso estético no porão e experimentei um. Que cor? Esse prata pareceu coisa de astronauta, mellhor do que o pé do Barney. Descobri que, além de medonho, ele é muito gostoso. As crianças deram a dica.

Aproveitei e despachei um par de havaianas sem ergonomia e sem cabimento. Lindas e totalmente disfuncionais:

havaiana rosa

O veredicto para o jornalismo cidadão sugere limitações

Está no relatório The State of the News Media 2008: “O veredicto para o jornalismo cidadão no momento sugere limitações”. Bonito esse rococó para dizer: “não é tudo aquilo que se dizia ser”. Está na quinta edição do relatório Anual do Projeto para Excelência em Jornalismo (Project for Excellence in Journalism – journalism.org), que aponta as tendências da mídia nos Estados Unidos.

Isso é apenas o começo do relatório. É bombástico. Vamos por episódios, como se fosse uma novela.

A realidade é cada vez mais complexa

“Os críticos tendem a ver a tecnologia como promotora da democratização da mídia e o jornalismo tradicional em declínio. O público, dizem, fragmentou-se com as novas fontes de informação. Algumas pessoas até disseminam a noção de “Cauda Longa” (Long Tail).

A realidade surge cada vez mais complexa. Mesmo com tantas novas fontes, mais pessoas consomem hoje o que as redações tradicionais (antigas) produzem do que antes, principalmente da imprensa escrita. Os sites do top 10, ligados a velhas marcas, pertencem a uma oligarquia que comanda uma parte maior da audiência do que comanda nos veículos tradicionais. O veredicto para o jornalismo cidadão sugere limitações. As pesquisas mostram que blogs e sites ligados a assuntos públicos atraem uma audiência menor do que se esperava e são produzidos por pessoas com formação ainda mais de elite do que os jornalistas.”

Pensar como um internauta

Acompanho o debate sobre a produção de conteúdo pelo público – jornalismo grassroots, open source, código aberto, colaborativo, enfim, jornalismo cidadão – com atenção. Poucas gerações têm a oportunidade de testemunhar uma transformação tão drástica, em tão pouco tempo, na comunicação. Por isso acredito ser importante prestar atenção àquilo que um relatório desses diz. É um dado novo no tabuleiro.

Como procurei registrar nos posts anteriores, com trechos do debate promovido pela BBC sobre o tema, a produção de conteúdo feita pelo internauta é assunto do momento, cheio de arestas e partes mal iluminadas. Os grandes portais brasileiros deram depoimentos preciosos. Estou a mastigar o que eles disseram antes de opinar, mas saltou as olhos que a BBC, como empresa jornalística tradicional, mostra-se ágil para incluir o internauta como produtor de informação.

A meu ver, uma das maiores falhas que se pode cometer na reestruturação das redações é uma abordagem de empresa aqui, usuário lá. É um erro ater-se à identificação de oportunidades para tirar proveito daquilo o “usuário”, o “cliente” ou o “leitor” produz, quando o melhor seria pensar de forma inversa, pensar como um internauta faria. Acho que a BBC percebeu um pouco essa diferença e começou a “pensar” como um internauta. Esse é um ótimo rumo.

No próximo episódio, as grandes tendências

As grandes tendências:

  • A notícia deixa de ser um produto para se tornar um serviço.
  • As perspectivas para o conteúdo feito pelo usuário, antes imaginadas como centrais para a próxima era do jornalismo, agora aparecem mais limitadas.
  • E mais…

Meu blog vestiu roupa nova e saiu por aí

Um rabicho, um capricho Um rabicho, um capricho

Esta semana meu blog vestiu roupa nova e saiu por aí.

O layout é do designer Fabio Sasseron, que soube traduzir meus desejos como nem eu mesma faria. Foi ele quem escolheu como tema essa foto da flor, que tirei logo pela manhã, quando a luz é cheia de matizes. Florescer é sempre uma escolha inspirada. Valeu Sassê!

Do layout, passamos para a programação e para o código em php, para o mundo WordPress, uma missão de relojoeiro-ninja que o Renato Targa desempenhou com total elegância.

Os fóruns de discussão do WordPress receberam perguntas e contribuições do Renato durante os meses em que pensamos a nova arquitetura de informação. Os prazos estouraram, mas quem nasce sabendo de plug-in bilíngüe para o WordPress, não é mesmo? Obrigada Rê, ficou lindo!

Nos próximos dias classificarei os posts antigos com tags, um recurso que o WordPress passou a oferecer quando meu blog já tinha um bom tempo de vida. Com isso, o RSS pode causar alguma confusão, ao entender que são atualizações. Se você receber no agregador conteúdo já publicado, olá! Sou eu mexendo nos fiozinhos da “cozinha”.

Já comecei a publicar algumas páginas em inglês, apesar de possíveis “vexames do ingrêis”. Pago esse pato porque acho que o inglês abre uma outra janela. São tantas pessoas com quem poderei conversar, superada essa barreira de língua.

Dizem que internet é um avião que se constrói durante o vôo. Perfeito. Vesti roupa nova e voei por aí.

Márcia Menezes do G1: reputação no jornalismo cidadão

Durante o debate “O Novo Jornalismo: Convergência e Atividade”, realizado em São Paulo em 13 de março, Márcia Menezes, diretora de conteúdo do G1, disse que aposta o sistema de rating – ou seja, de reputação do colaborador – para contar com contribuições confiáveis. O material que “o cara que colabora todo dia e sempre” envia é mais confiável, segundo ela.

g1a

A qualidade das contribuições enviadas pelo internauta não é aquela maravilha, comenta ela. “A gente recebe um monte de releases e textos copiados da internet”. (Isso não me surpreende, uma vez que o portal não foi pensado como um YouTube da vida, para receber colaborações. Quem envia conteúdo para um megaportal de jornalismo como é o G1 ou está com tempo livre ou tem algum interesse, como as assessorias de imprensa).

“Esta questão de colaboração e interatividade é ótima, é um novo conceito, você tem que dar atenção e valor, só que você precisa ter um enorme cuidado, na hora em que você incorpora isso com seu nome e com seu aval. A gente vai ter de contratar todos os jornalistas formados para checar todos os e-mails que chegam? A gente vai colocar em uma página separada tudo o que chega e pescar algo dali? Há vários modelos.”

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=B6xNBC92_kY[/youtube]

Participaram também do debate sobre “O Novo Jornalismo: Convergência e Interatividade”, Américo Martins, editor executivo da BBC para Américas e Europa; Andrea Fornes, produtora executiva da MSN Brasil; Antonio Prada, diretor de conteúdo do Terra América Latina, e Pete Clifton, diretor da BBC News Interactive. O debate, realizado em 13 de março no Centro Brasileiro Britânico, foi uma iniciativa da BBC Brasil para marcar seus 70 anos.

Leia mais sobre jornalismo cidadão

Antonio Prada, do Terra, fala sobre jornalismo cidadão

 antonio prada

Para Antonio Prada, diretor de conteúdo do Terra América Latina, “uma coisa é o usuário produzir conteúdo com as ferramentas disponíveis, outra coisa é o uso que se faz desse conteúdo dentro das regras do bom jornalismo”.Durante o debate “O Novo Jornalismo: Convergência e Interatividade” realizado em São Paulo no dia 13 de março, Prada comentou que o conteúdo enviado pelo público para o portal Terra hoje é mais relevante do que há dois anos, quando foi lançado o Você Repórter, um espaço para contribuições do público.

“O que acontece é muito interessante, porque no começo a gente recebia muita coisa que era lixo. No caso do Terra e do Você Repórter, que surgiu há dois anos, a gente optou nessa primeira fase por filtrar o material. Como o conteúdo enviado pelo internauta está muito relacionado a breaking news, a cidadanias, e ele pode ir para a primeira página, isso acaba afastando os aventureiros”, acredita Prada.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=hHAc0UUlJUQ[/youtube]

Participaram também desse encontro, permeado pelas questões do jornalismo cidadão, Américo Martins, editor executivo da BBC para Américas e Europa; Andrea Fornes, produtora executiva da MSN Brasil; Márcia Menezes, diretora de jornalismo do G1 e Pete Clifton, diretor da BBC News Interactive. O debate, realizado em 13 de março no Centro Brasileiro Britânico, foi uma iniciativa da BBC Brasil para marcar seus 70 anos.

Mais sobre jornalismo cidadão

Andrea Fornes, do MSN: jornalismo ganha com participação do usuário

O que fazer com o conteúdo produzido pelo internauta foi a questão que permeou todo o debate “O Novo Jornalismo: Convergência e Interatividade”, realizado em São Paulo, no Centro Brasileiro Britânico, em 13 de março. Organizado pela BBC Brasil em comemoração de seus 70 anos, o encontro reuniu representantes de grandes portais – Terra, MSN Brasil e G1 – e da BBC. Pete Clifton, diretor da BBC News Interactive, apresentou a reetruturação que a BBC faz no momento para dar espaço ao jornalismo cidadão e permitir ao internauta que personalize sua experiência. A mediação do debate foi feita por Américo Martins, editor executivo da BBC para Américas e Europa.

Andrea Fornes, produtora executiva da MSN Brasil, diz que sua empresa decidiu investir em conteúdo e que a estratégia é usar o ponto forte, software, para promover a interatividade. Ela comenta que hoje há dois modelos para o usuário comunicar-se com o portal. Pelo primeiro, ele envia um e-mail, que é filtrado pela redação, e pelo segundo, ele deixa um comentário em uma página. Fornes diz que é preciso um novo modelo para as duas partes se comunicarem.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=YFuO6X1mhRc[/youtube]

A empresa onde eu trabalho não tem tradição na produção de mídia e há um ano e meio dois anos resolveu investir em conteúdo. O Brasil foi um dos primeiros a ter uma pessoa na posição que eu ocupo hoje, ou seja, de diretor de conteúdo, para começar a transformação do portal. Já havia o negócio on-line, mas ele estava adormecido e não recebia a atenção da Microsoft”, comenta. No vídeo, ela explica que a MSN Brasil procura oferecer conteúdo e serviços locais por meio de parcerias.

Na foto abaixo, Andrea Fornes e Pete Clifton.

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Mais sobre jornalismo cidadadão e tendências do jornalismo on-line

Colaboração do internauta norteia reformulação da BBC

“Foram muitas ocasiões em que a colaboração de nosso público transformou o que fazemos e em que sua contribuição melhorou a qualidade do que nós colocamos no ar”, disse Pete Clifton, diretor da BBC News Interactive, nesta quinta-feira, em São Paulo, durante o debate “O Novo Jornalismo: Convergência e Atividade”. No encontro organizado pela BBC Brasil para marcar seus 70 anos, ele mostrou como a gigante britânica se reformula para que o internauta personalize sua experiência quando estiver nas páginas da BBC.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=4tgYOHbc8OY[/youtube]

Participaram também da conversa Américo Martins, editor executivo da BBC para Américas e Europa; Andrea Fornes, produtora executiva da MSN Brasil; Antonio Prada, diretor de conteúdo do Terra América Latina, e Márcia Menezes, diretora de jornalismo do G1.

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Jornalismo Cidadão

O que fazer com a produção de conteúdo pelo internauta foi a questão que permeou todo o debate. Como integrar as diferentes equipes e orquestrá-ls em um grande e poderoso núcleo multimídia foi outra questão bastante discutida, principalmente porque a BBC passa no momento por uma reformulação de toda sua estrutura na forma de produzir e publicar conteúdo. Veja alguns dos slides que Clifton mostrou:

slide bbc

Cidadão-repórter é desafio para o ‘novo jornalismo’, resumiu a cobertura da própria BBC Brasil. “O surgimento do cidadão-repórter enriquece o material jornalístico e acrescenta novos pontos-de-vista para os meios de comunicação, mas também apresenta desafios para os profissionais de mídia.”

Leia mais:

Bad hair day, o dia do cabelo ruim

o magro o magro

Foto que tirei no Estúdio Manus. Associar o Magro (Stan Laurel) da foto a um “dia de cabelo ruim” é por minha conta.

“Tentamos trazer em nosso desenho lembranças de algum passado e referências do imaginário coletivo, que se manifestam não apenas nas peças utilitárias como também nos objetos que denominamos Inutilitários, de caráter algo lúdico e de certa forma negando o desenho dito industrial”, dizem os artistas Caio de Medeiros e Daniela Scorza.

Eles têm blog também. Um dos primeiros posts fala de um piquenique em um dia de chuva na praia da Juréia.

Há anos acompanho as criações do Estúdio Manus pela vitrine de seu ateliê, na rua Girassol, que foi também minha rua por 16 anos. Elas são inusitadas, criativas, tudo de bom.
pinguins

Novas peças

Veja as criações mais recentes, como o prato com perninha, no set do Flickr.

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