1983: na cidade caipira, faz um calor daqueles, a tarde vira uma imensidão de tempo na qual nada se move. Nem o ar. A casa é simples, um cachorro grandão e feliz sucumbe à hora da siesta e no quintal há um pé de limão. Na sala, Bob Dylan resmunga: “Você nasceu com uma serpente em cada um de seus punhos enquanto soprava um furacão”. Leio Dostoievski e a cidade caipira não combina com nada disso.
Bob Dylan insite: “Jokerman dance to the nightingale tune, oooooo, jokermaaaan.” Durante os feriados, a vilinha de interior fica sem vida aparente. “A resposta, amigo, sopra no vento”, insiste a voz anasalada. Naquele pedaço de terra onde as pessoas puxam o erre até o fim do mundo não há sequer uma leve brisa. Apenas como uma mulher. “She breaks just like a little girl.” Ai que delícia, Dylan, cante toda essa tarde interminável.
Vendedor de sonho
Bob Dylan era “vintage” já em 1983. Como um artigo de brechó, ele tinha o toque áspero de quem acreditou no sonho dos anos 60. Inaugurava a década de 80 cantando o curinga (jokerman, em inglês), carta do baralho que vale por todas e salva o jogo, com roupas de um bobo da corte que de bobo, nunca teve nada. Bob Dylan era bom, como um vinho mais encorpado que amadureceu.
Nesse encontro insólito que tivemos na tarde quente, ele deixou a impressão de ser gente boa, um cara sem pose, com muito estilo, que canta o que pensa porque o que pensa vale a pena cantar, ainda que com uma voz inadequada.
Pausa para os comerciais
Esse velho amigo passa por perto de minha casa esta semana e eu adoraria revê-lo. Mas os ingressos, puxa, o preço dos ingressos… Eles são veementes em dizer: filha, o sonho acabou mesmo. O ingresso mais barato para os shows em São Paulo custa R$ 250, o mais caro, R$ 800. É quase obsceno, os ingressos são os mais caros da nova turnê. Até para assistir ao velho clipe de Jokerman você leva goela abaixo um comercial do patrocinador. Não resta dúvida.











