Nada de torrent, peer to peer, às vezes compartilho música com meus vizinhos ao velho estilo. Depois das 11h ou durante a tarde é possível ouvir uma flauta transversal. Já identifiquei o prédio azul de onde saem choros e canções bem conhecidas, dessas boas de assobiar. Ele ou ela toca muito bem, deve ser profissional.

Outro vizinho tem algo de obsessivo com a marcha nupcial. Achei que era uma fase de reminiscências que um dia ia passar. Depois imaginei que podia ser saudade da filha que se casou e foi morar em outro lugar. “Eles devem estar vendo o vídeo do casamento.” Como a repetição prosseguiu, cheguei à conclusão de que se trata de vingança. Um dos cônjuges toca a música para lembrar ao outro como foi que eles entraram naquele atoleiro.

Compartilhar músicas invasoras com os vizinhos inspirou em mim uma certa birra com os home theathers. Em lojas de eletrônicos já me peguei a olhar aquelas configurações de alto-falantes com um certo rancor, como se me aproximasse de inimigos que atacam quando você menos espera.

Dos home theathers com potência para levar o som a multidões ouço gritos e tiros. Westerns ainda são menos agressivos do que a repetição da marcha nupcial, mas é melancólico ver como o sonho do home theather anunciado nos folhetos deixa a sala do apartamento de classe média acanhada.

As paredes tremem quando vem o “surround”. Deve ser esse o nome do efeito que faz as paredes reverberarem. Imagino que seja a cena do trem bala, que percorre o ambiente da esquerda para a direita, sobe ou desce alguns andares, dá uma pirueta no ar e invade o meu espaço.