Mar de gente/ 9:50 Qualquer Sofá

Flyer de 9:50 Qualquer sofá

São Paulo tem agora dois ótimos espetáculos – “Mar de Gente” e “9:50 Qualquer Sofá” – sobre as experiências de pessoas que vivem muito próximas umas das outras, amontoadas nas metrópoles.

Em 2008, segundo as Nações Unidas, 60% da população do planeta viverá em cidades.

Haverá mais pessoas nas cidades do que na zona rural.

Essa proximidade parece ser dolorida.

A vizinhança gera atrito, intolerância com as diferenças, infelicidade.

A multidão cria um “Mar de Gente”, como o nome do novo espetáculo de Ivaldo Bertazzo, em cartaz no Sesc Vila Mariana. No mar de gente os corpos se embolam, sem identidade, formando uma lava sem rosto que sai das entranhas do anonimato da grande cidade.

Com Ivaldo, não há chuvisco. É sempre bom o que ele propõe, pois ele traz um mote e convida o corpo a responder à vida. Aquele mar de gente se insufla e segue bravio, movimentado, cheio de ciclos e adaptações.

Seus aprendizes de bailarino tornaram-se profissionais. Cresceram diante dos olhos da platéia fiel. Em quatro anos, o coreógrafo e professor transformou um grupo de cidadãos dançantes – como ele chama os que dançam porque o movimento é bom – em profissionais.

Eles mostram a alma do mar de gente e navegam por um roteiro menos fácil que o dos espetáculos anteriores. Este é mais contido e voltado para dentro, tem menos influência da dança tradicional hindu, menos fusões com elementos do folclore brasileiro. Traz menos referências às danças circulares.

Estamos falando de maturidade de um grupo que já pode ser minimalista e ainda expressar o espírito do mar de gente.

9:50 Qualquer sofá

Sofa psicolidelico

“9:50 Qualquer Sofá”, dirigido pela Christiane Esteves, navega pelos desvios desse mar de gente, pelas rotas alteradas. Quatro mulheres comentam os fatos inesperados, as direções incertas e incorretas. Gente que põe bebê na secadora, pula do lado errado do trilho do trem. “É do outro lado”, murmuram as quatro meninas. Gente que se depara com o acidente, com a quebra da normalidade. Emergências. Casos drásticos. Tintas fortes, vida em perigo.

“Respire, respire”, murmuram as meninas. Sopram o ouvido do público que vai até a Casa das Caldeiras, na avenida Francisco Matarazzo.

Fantasmas e mesmo o vampiro Lestat poderiam espiar o mar de gente que freqüenta o circo no terreno ao lado, que vai ao estádio do Palmeiras ali em frente, ou que trabalha no complexo de escritórios ao lado. De dentro da Casa das Caldeiras, anônimos, próximos.
Lestat, o vampiro roqueiro de Anne Rice adoraria aquela moçada diferente circulando no castelinho das antigas caldeiras das fábricas Matarazzo. Ele poderia debruçar-se no parapeito dessa ilha de silêncio e escuridão e, sem se expor, observar a vida pulsando na megalópole. “É do outro lado”, convidam as meninas, puxando o público para o outro lado do espelho de Alice.

povoempe

“9:50 Qualquer Sofá é um experimento de narrativa, uma espécie de poema teatral coreográfico, com um olhar divertido sobre os fait divers que rompem nosso cotidiano”, resume o grupo OPOVOEMPÉ. Segundas e terças às 21h. Domingos às 20h. Av Francisco Matarazzo, 2000 – Barra Funda. Ingressos: R$10 e R$ 5 para estudantes, aposentados e classe artística. Serviço de Estacionamento Valet com manobristas: R$ 5. Reservas pelo telefone: 11 9392-677.

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