
Um dia desses tive a sensação de que eu estava sendo treinada para algo mais. As longas horas de trabalho, as poucas horas de sono, o almoço por quilo, a água do garrafão azul, a rotina de horas certas para sair de casa e chegar. Toda essa chatice tinha um fim.
Depois de rebolar e pular miudinho para não me afogar no mar de tarefas, pressões, bolas mal paradas, dúvidas, dificuldades internas e medos, me peguei pensando alto: “Acho que tudo isso está me preparando para algo mais: o fim do mundo. Quando ele vier, já saberei o que fazer. Estarei treinada para cobrir o fim do mundo.”
Jornalismo pode ser uma fieira de desgraças. Quando a gente desce de carro para a praia encontra no caminho, às margens do asfalto, um pessoal de calças pela canela e havaianas. Eles vendem caranguejos pendurados em um fio. Substitua os caranguejos do mangue por desgraças e você tem um jornalista vendendo a pauta de política e de cidades para o noticiário.
Sou meio vegetariana, “meio de esquerda e meio intelectual” (emprestando o chiste do Antonio). Prefiro deixar os caranguejos no mangue a vê-los pendurados em fios. Prefiro pensar que essa bandalheira há de ter fim e correção de rota. Escarafunchar o pior escândalo de corrupção que já se viu do dia é treinamento para o fim do mundo.







