2007 June | anacarmen.com

Arquivo do mês: June, 2007

Treinamento para o fim do mundo

Canoa virou

Um dia desses tive a sensação de que eu estava sendo treinada para algo mais. As longas horas de trabalho, as poucas horas de sono, o almoço por quilo, a água do garrafão azul, a rotina de horas certas para sair de casa e chegar. Toda essa chatice tinha um fim.

Depois de rebolar e pular miudinho para não me afogar no mar de tarefas, pressões, bolas mal paradas, dúvidas, dificuldades internas e medos, me peguei pensando alto: “Acho que tudo isso está me preparando para algo mais: o fim do mundo. Quando ele vier, já saberei o que fazer. Estarei treinada para cobrir o fim do mundo.”

Jornalismo pode ser uma fieira de desgraças. Quando a gente desce de carro para a praia encontra no caminho, às margens do asfalto, um pessoal de calças pela canela e havaianas. Eles vendem caranguejos pendurados em um fio. Substitua os caranguejos do mangue por desgraças e você tem um jornalista vendendo a pauta de política e de cidades para o noticiário.

Sou meio vegetariana, “meio de esquerda e meio intelectual” (emprestando o chiste do Antonio). Prefiro deixar os caranguejos no mangue a vê-los pendurados em fios. Prefiro pensar que essa bandalheira há de ter fim e correção de rota. Escarafunchar o pior escândalo de corrupção que já se viu do dia é treinamento para o fim do mundo.

Vale do Anhangabaú

São Paulo é uma surpresa. Fui ao centro bisbilhotar equipamento fotográfico nas lojas da Conselheiro Crispiniano. A falta de umidade no ar que São Paulo enfrenta produz outro efeito além das gripes e pele ressequida. A luz está fenomenal.

Passeei pelo vale do Anhangabaú como se estivesse ali pela primeira vez. Quando criança, gostava de ver os gatos que moram na praça e de passar a mão no dedo da estátua - meu pai dizia que dava sorte. É irresistível, o bronze está bem no meio da escada, implorando para ser tocado. Um dedo sobrando no caminho.Adolescente, juntei-me aos trocentos mil que foram ao vale pedir Diretas Já.

eSTATUA aRVORE

De olhos renovados, olho para o Vale do Anhangabaú e me lembro das aulas de urbanismo sobre a cidade, que começou com índios e que teve depois jesuítas, chácaras e muito depois ainda, gatos e manifestações por eleições diretas para presidente.

CAVALO

A luz parece de montanha nevada, de outono no hemisfério Norte, um pouco inclinada, sem partículas que empastelem o azul do céu.

anhangabau

Fotografar São Paulo com olhos carinhosos é um jeito de reconquistar a cidade. Ocupar um espaço no vale ao lado de mendigos, desconsolados, turistas, skatistas, trombadões e trabalhadores apressados.

Paixão

Paixão

No baixo relevo da parede, escrito a unha.

Arde sem se ver.

Paixão

Clarice Lispector vivia de achados e perdidos

“Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos”, diz Clarice Lispector em “Água Viva”.

Clarice e Guimarães Rosa, dois de meus ídolos na língua portuguesa, formam uma seqüência de exposições no Museu da Língua Portuguesa. Mais uma vez Felipe Tassara e Daniela Thomas mataram a charada de como apresentar e representar no espaço expositivo a alma de alguém com olhos no lado de lá da existência.

Fui visitar a exposição de Clarice no sábado e me vi em momento de tietagem explícita. Vi minha musa angustiada, relatando em vídeo como o ato de escrever é sofrido. Se é sofrido para Clarice, quem sou eu para querer diferente…

Diz Clarice “quando escrevo, estou morta”. Ela tem de morrer quando escreve, para poder dar vida a outra realidade. “Por enquanto eu morri, vamos ver se eu renasço”, diz ela ao Julio Lerner, meio chatinho, da TV Cultura. O programa gravado em 1/2/1977 pode ser visto no You Tube.

Malucona, maravilhosa, toda ela transcendente. Abençoado o desvio da curva mediana que permite visões como as que ela transcreveu.

Renato Targa foi quem percebeu a semelhança entre Clarice jovem e Scarlett Johansson, considerada a mulher mais sexy do mundo:

Mix Scarlett Clarice

Clarice é assim, a mais linda.

Eu no Ohmynews

O jornal sul-coreano OhmyNews, uma referência mundial em jornalismo cidadão, publicou hoje uma entrevista comigo, a respeito da coleção “Conquiste a Rede”.

Ficou tão bacana que saiu com destaque na home page:

Destaque OhmyNews

Quem fez a entrevista foi Carlos Rix, um colaborador brasileiro do Ohmynews convidado a participar do 3º International Citizen Reporters’ Forum. Rix embarca daqui a poucos dias para Seul, onde o fórum tem início no dia 27 de junho.

Aguardo notícias coreanas, Carlos :D

Nóinhas de São Paulo e locutórios de Buenos Aires

Trabalho perto dos “nóinhas”. Expulsos da Cracolândia, na região central de São Paulo, os meninos de rua que cheiram cola, fumam crack e têm o olhar desnorteado vieram morar sob os viadutos da Paulista. Tenho medo da sua falta de medo.

Lembrei deles ao encontrar a notícia de que a rede pescou de jeito os meninos de rua de Buenos Aires. Segundo a BBC Brasil informa, “um levantamento realizado pelo governo da cidade revelou que 97% dos meninos que vivem nas ruas já usaram internet alguma vez na vida. Deste total, 30% navegam duas ou três vezes por semana e 55% passam mais de uma hora conectados à rede.”

Passarinho e grade

“A mesma pesquisa apontou que 30% do total destes usuários gastam entre seis e 20 pesos por semana (entre R$ 4 e R$ 14) para pagar o acesso à internet nos cybercafés. A maioria deles (65%) prefere trocar mensagens com os amigos, já que quase a metade tem e-mail. A pesquisa ainda revelou que 20% já possuem um fotolog.

Os resultados são possíveis porque em Buenos Aires – e no resto da Argentina também – existe praticamente um “locutório” (como os argentinos chamam os cybercafés) em cada esquina. Os preços pela hora na internet variam, mas são considerados acessíveis para a maioria da população e podem custar entre 50 centavos e um peso.

Para facilitar o acesso dos meninos carentes à informática, o governo da cidade de Buenos Aires criou dois “locutórios” gratuitos e exclusivos para essas crianças.

Do total de usuários argentinos, 64,2% têm computador em casa, 19,4% entram na internet no trabalho e os outros 4,2% o fazem de universidades e outras instituições.”

Com internet à disposição, como ficaria o olhar dos nóinhas?