“Babel”, novo filme do diretor mexicano Alejandro Iñárritu, recria a sensação de queda no abismo que experimentamos quando um fato inesperado e violento nos tira da vida cotidiana e nos coloca à margem, em situação de emergência.

Babel paulista

Quem já foi assaltado, sofreu um acidente de carro, perdeu-se na mata ou passou por alguma catástrofe conhece esses momentos de hiperrealidade.

Brad Pitt, nem tão lindo, nem tão jovem, viaja pelo Marrocos com o casamento em frangalhos na bagagem, ao lado de uma esposa revoltada. “Por que viemos para cá?”, pergunta ela, a quem já basta o fato de não ter água mineral no gelo do refrigerante e ser uma mulher branca no meio de mulheres de burka. Para ela, já basta – a queda no abismo já começou.

O roteiro reserva à personagem e ao marido, ambos americanos, a experiência do estranhamento e do mergulho no fundo das questões humanas. Ela é baleada no meio do deserto e ele tem de fazer algo – e não sabe o quê – para driblar a morte, estancar a hemorragia, remover a bala, sair da Idade Média e voltar para o século 21.

Babel é como um desses tradutores eletrônicos. Você escreve “colapso da normalidade” e ele exibe uma situação-exemplo.

Revivi a sensação de queda a bordo de uma poltrona almofadada. Desconfortável, mas sem riscos à sanidade. Ilustrativo, em uma semana de convívio diário com o acidente na estação Pinheiros de Metrô de São Paulo ao lado de minha mesa de trabalho.