“Babel”, novo filme do diretor mexicano Alejandro Iñárritu, recria a sensação de queda no abismo que experimentamos quando um fato inesperado e violento nos tira da vida cotidiana e nos coloca à margem, em situação de emergência.

Quem já foi assaltado, sofreu um acidente de carro, perdeu-se na mata ou passou por alguma catástrofe conhece esses momentos de hiperrealidade.
Brad Pitt, nem tão lindo, nem tão jovem, viaja pelo Marrocos com o casamento em frangalhos na bagagem, ao lado de uma esposa revoltada. “Por que viemos para cá?”, pergunta ela, a quem já basta o fato de não ter água mineral no gelo do refrigerante e ser uma mulher branca no meio de mulheres de burka. Para ela, já basta – a queda no abismo já começou.
O roteiro reserva à personagem e ao marido, ambos americanos, a experiência do estranhamento e do mergulho no fundo das questões humanas. Ela é baleada no meio do deserto e ele tem de fazer algo – e não sabe o quê – para driblar a morte, estancar a hemorragia, remover a bala, sair da Idade Média e voltar para o século 21.
Babel é como um desses tradutores eletrônicos. Você escreve “colapso da normalidade” e ele exibe uma situação-exemplo.
Revivi a sensação de queda a bordo de uma poltrona almofadada. Desconfortável, mas sem riscos à sanidade. Ilustrativo, em uma semana de convívio diário com o acidente na estação Pinheiros de Metrô de São Paulo ao lado de minha mesa de trabalho.

Wladimir
January 22nd, 2007 at 2:15 pm
Eu estou em Porto Alegre, bem longe da tragédia do metrô. Mas conheço a sensação. Há mais de 20 anos, justamente em São Paulo, eu “morei” em um banco da Praça da Sé. Um abismo profundo, difícil de escapar.
Há uns 5 anos atrás, uma casa vizinha à minha pegou fogo. O caminhão de bombeiros, além de demorar a chegar, não conseguiu entrar no condomínio. O choro da dona da casa ecoa em meus ouvidos agora que escrevo sobre aquele momento. Impotência é a melhor palavra pra descrever. Depois, incredulidade. Ter que fazer algo e não ter o que fazer. Era de sentar e chorar…
Ainda não assisti ao filme, mas quando o fizer, te digo o que achei. Gosto do Brad Pitt quando não ataca de galã. Kalifornia e Os doze macacos mostraram que ele sabe atuar. Pelo trailer, nesse ele segue a mesma linha de atuação.
Patricia
January 23rd, 2007 at 2:50 pm
Bonita reflexão, Aninha. Como escreveu minha mãe: “Faço-me nada e persisto na pausa, na vida sem forma. É lá que me encontro, inteiro, fazendo parte de tudo, sem parte de nada. É lá que me fortaleço, com luz. É lá que me conheço, me esqueço, sou pleno de Mim.”
Um beijo. Com amor e admiração, sempre,
Pati
sergio
January 29th, 2007 at 11:45 am
Parece que atingimos algum limite. De tanto falar com as máquinas, os abismos foram crescendo dentro de nós. Fico pensando no tamanho do ‘band-aid’ para tapar isso tudo, para minimizar a expansão do rombo. Ao que parece, a indústria científica global, apesar dos esforços, e a evidente mudança de diretrizes para priorizar a vida, ainda não encontrou matéria suficiente para estancar a ferida. No entanto, é elucidativo saber de exemplos de colapsos da normalidade, de piração em piração a gente enche um cadeião.