2007 January | anacarmen.com

Arquivo do mês: January, 2007

Homenagem singela e providência simplória

Buda

Eu caminhava pela rua Lisboa, em São Paulo, nesse fim de semana, quando encontrei um Buda na calçada enfeitado com flores. Homenagem bonita e singela.

Na mesma rua, em um café, espetaram cravos em meia laranja cortada e a deixaram sobre o balcão, um artifício para espantar abelhas que pegam carona nas latinhas de refrigerante dos fregueses. Providência singela, mas não muito eficiente. Cheirosa, ao menos.

Começou a semana e, a três dias da divulgação de um relatório mundial sobre o desastre climático no planeta, a ONU anunciou nesta terça-feira que era hora de convocar uma cúpula de emergência para discutir como restringir os danos do aquecimento global. O encontro deverá ser no Quênia, no segundo semestre. O relatório do Painel Intergovernamental para a Mudança Climática, já se sabe, traz números medonhos: 3 bilhões sofrerão com a escassez de água até o final do século. As crianças verão outro mundo, muito diferente desse aqui.

Lembrei do adolescente totalmente chapado às 9 da manhã da segunda-feira. Para tomar um espresso, que alguém lhe pagou por gentileza ou pena, ele tremia tanto que precisou da ajuda das duas mãos para segurar a xícara.

Ele nem sabe o que o espera daqui a alguns anos e já providenciou uma neblina interna para brindar a semana. Visão turva, providência simplória. Mesmo que a anestesia seja tentadora, como bem sabe a ONU.

Bric, uma constelação brilhante do céu do futuro?

Bric, pequena constelação de países emergentes formadas por Brasil, Rússia, Índia e China brilha no céu. Brasil é um país do futuro. De futuro. Quando banqueiros e investidores acreditam nessa hipótese, ela não parece mais história de Cuca e bicho-papão, saci e mula sem cabeça.

Esta semana, encontrei dados chamativos a respeito do Bric:

1- A China está perto de superar os Estados Unidos como o país com maior número de usuários de internet no planeta.

2- Os internautas brasileiros foram os que gastaram mais tempo navegando na grande rede em 2006 segundo dados do Ibope-NetRatings.

3- Em dez anos, a Índia poderá tornar-se a quinta maior potência mundial. Se o crescimento do país prosseguir, no meio do século a economia poderá ultrapassar até a dos Estados Unidos, ficando atrás somente da China, diz estudo do banco de investimentos Goldman Sachs.

Redigi uma nota da Veja Online a respeito: “Segundo informa a BBC, o relatório do banco credita ao programa de reformas a crescente eficiência e competitividade da Índia. Há um boom econômico e os sinais de prosperidade podem ser vistos em aeroportos cheios, nos carros novos, na afluente classe média e em novos shopping centers,que avançam sobre locais que pertenciam à zona rural. Provavelmente é apenas o começo de uma transformação que mudará a economia global. Dentro de 15 anos, estima-se que o indiano esteja cinco vezes mais rico que hoje. As previsões apontam também para um consumo de petróleo bruto três vezes maior.

Tamanho potencial de crescimento, no entanto, poderá encontrar barreiras. Problemas de infra-estrutura já estrangulam a expansão da Índia e cortes de energia são comuns por não haver eletricidade suficiente para atender a demanda. Os portos do país estão congestionados e as estradas não têm conservação. Outro fator que pode limitar o crescimento é a falta de profissionais capacitados para trabalhar na indústria de tecnologia, um importante pólo mundial.

No mês passado, uma delegação comercial dos Estados Unidos passou duas semanas no país à procura de oportunidades de negócios. Depois, foi a vez dos empresários britânicos, acompanhados pelo Ministro das Finanças, Gordon Brown. No próximo mês é Vladimir Putin, presidente da Rússia, quem deverá passar uma semana na Índia, interessado em contratos de fornecimento de energia nuclear e armamentos.”

E então: a Cuca vem pegar?

Babel paulista

“Babel”, novo filme do diretor mexicano Alejandro Iñárritu, recria a sensação de queda no abismo que experimentamos quando um fato inesperado e violento nos tira da vida cotidiana e nos coloca à margem, em situação de emergência.

Babel paulista

Quem já foi assaltado, sofreu um acidente de carro, perdeu-se na mata ou passou por alguma catástrofe conhece esses momentos de hiperrealidade.

Brad Pitt, nem tão lindo, nem tão jovem, viaja pelo Marrocos com o casamento em frangalhos na bagagem, ao lado de uma esposa revoltada. “Por que viemos para cá?”, pergunta ela, a quem já basta o fato de não ter água mineral no gelo do refrigerante e ser uma mulher branca no meio de mulheres de burka. Para ela, já basta – a queda no abismo já começou.

O roteiro reserva à personagem e ao marido, ambos americanos, a experiência do estranhamento e do mergulho no fundo das questões humanas. Ela é baleada no meio do deserto e ele tem de fazer algo - e não sabe o quê – para driblar a morte, estancar a hemorragia, remover a bala, sair da Idade Média e voltar para o século 21.

Babel é como um desses tradutores eletrônicos. Você escreve “colapso da normalidade” e ele exibe uma situação-exemplo.

Revivi a sensação de queda a bordo de uma poltrona almofadada. Desconfortável, mas sem riscos à sanidade. Ilustrativo, em uma semana de convívio diário com o acidente na estação Pinheiros de Metrô de São Paulo ao lado de minha mesa de trabalho.

Ruído que só os adolescentes ouvem

GraffitiClique aqui e você terá uma freqüência que a maioria das pessoas com mais de 25 anos não consegue captar. Você ouve?

Eu só consegui ouvir aqui . É um apito chatinho, incômodo. Algumas lojas usam como “espanta-adolescente”, uma espécie de aborrecenticida.

Algumas operadoras de telefonia, inclusive a brasileira Telemig, criaram ringtones com a freqüência que só os adolescentes escutam. Desta forma, eles podem atender o celular durante a aula ou sem que os pais percebam ;)

A Telemig batizou o ruído, que só pode ser ouvido na faixa de 17 quilohertz e foi lançado em junho, de “zumbitone”. Até os 30 anos, as pessoas costumam perder a capacidade de ouvir essa freqüência.

Por que esse assunto agora? Testes realizados ontem com os amigos e aqui em casa, de farra, para fugir dos assuntos sérios por alguns momentos.

Começa e termina

1- O ano terminou com a boa notícia do Ministério da Educação e Cultura de que a coleção “Conquiste a Rede”, que escrevi com o Roberto Romano Taddei, faz parte agora do maravilhoso acervo do portal Domínio Público. Visite - há livros, imagens, vídeos e músicas.

Folha e chuva

2- A semana começou cheia de notícias curiosas, como esta da BBC. Na aldeia de Lakhanow, na Índia, há dois irmãos, Osama bin Laden e Saddam Hussein. Na aldeia, de população muçulmana e sunita, Saddam Hussein é um nome muito popular. Diz-se que há uns 100 Saddams nos povoados da região.

3- Em São Paulo, o fim de semana terminou com sol. Bem-vindo!

Acidente no Metrô: vi um caminhão rodopiar no nada

Terra cedeu

Eu estava na redação da revista Veja, no 19º andar da Abril, quando ouvi um estrondo. Mais uma explosão do metrô, pensei. Acostumei-me com o calafrio que percorre a espinha cada vez que o Metrô de São Paulo implode o solo ali ao lado, às margens do rio Pinheiros. Desta vez, o tremor no prédio foi seguido por um corte de energia. Houve um acidente. Uma tragédia.

Em breve, toda a redação assistia, estarrecida, à cena dantesca: uma enorme cratera tragava tudo ao redor. A terra cedeu e soterrou operários. Peguei a câmera e fotografei. A mão tremia demais. Eu devia estar descendo as escadas, se fosse mais ajuizada, mas não consegui deixar de assistir a cena absurda da terra cedendo e um guindaste gigantesco balançando sem controle.

Vi um caminhão rodopiar no ar como um brinquedo. Era um desses caminhões de carregar terra. Lamentei muito pelos operários, pela tragédia. Coloquei uma notícia no ar sobre o fato antes de abandonar o edifício da Abril, quase duas horas depois do primeiro desabamento.

Mais tranqüila por estar a salvo, lamento a conta mal feita por técnicos, políticos, empreiteiros, lamento a falta de cuidado envolvendo um rio e muitas explosões.

Veja as fotos.

iPhone: quando o celular libera serotonina

Steve Jobs anunciou hoje em São Francisco o lançamento do iPhone. Eu não ia falar disso porque o celular da Apple é um ponto de encontro para quem não tiver assunto. E outros comentarão com mais propriedade o novo objeto do desejo e com mais paixão, inclusive.

Só que ele é irresistível. Além de fininho, com tela sensível ao toque, aproxima-se da tão anunciada convergência das mídias.

Será que o iPhone, esse novo filhote da geração smartphones, terá aquele apelo irracional que tem o iPod? Aquilo que transforma um eletrônico em objeto de status e que libera serotonina como se fosse uma barra de chocolate? Tem bossa, tem marca, concretiza desejos. As pessoas criavam fotos e desenhos falsos do aparelhinho antes de ele ser fabricado. Um fenômeno.

O iPhone sai em junho nos Estados Unidos. Por enquanto, só para assinantes da operadora Cingular. Com sorte, experimentarei um. E continuarei à espera do aparelhinho de matéria orgânica que vou usar no pulso como um relógio ou como acessório da roupa. Ele fará tudo o que o iPhone promete e mais um pouco.

Só se fala nisso

2007 terá mais anúncios na internet e menos na TV, diz o Wall Street Journal. Segundo o jornal, os anunciantes tentam descobrir quanto de publicidade conseguem veicular nos celulares sem incomodar os usuários.

Um mantra para a língua portuguesa

Português é uma língua muito difícil. Todas as pessoas que trabalharam comigo já me ouviram dizer “não é bolinho, não.” É quase um mantra. Quem nunca escorregou na grafia ou na concordância desative o corretor ortográfico. São anos de edição de jornal, revista, livro, folheto, site e até gerador de caracteres de TV, sempre na peleja do diabo contra o dono do céu - o dicionário. Quem escreve conhece a invasão de neologismos, estrangeirismos e a vitória insensível do coloquial contra a norma culta. Quando digo que o português não é bolinho, sinto-me com a idade de um quelônio. Mas não é!

Inceticida

Inceticida?

O caso do “inceticida” que encontrei hoje na Revista da Folha é daqueles erros crassos e ardidos. Tem cara de ressaca do plantão de réveillon. Uma vez que inseto se escreve com “s”, “inceticida” deve ser uma mistura de incentivo com o nome do bicho. Uma coisa mais evoluída, menos destrutiva.

Por coincidência, pulverizei hoje minhas duas árvores – sim, cultivo duas árvores há uns 17 anos na varanda – com inseticida. Usei o veneno no português “clássico”, mata-pragas, sem qualquer espírito esportivo de incentivo a pulgões e mofos brancos.

O gosto do tempo de quem tem tempo

Piscina

Que 2007 tenha gosto de verão da infância. O ano começava despretensiosamente, sem metas a cumprir, sem decisões para todo o sempre. Não dava tempo de repensar a vida porque ela já estava ali, chamando para brincar. Os dias eram cheios de tempo, sol, água do mar, da piscina e dos rios. Mangas em abundância para a fome de quem andou de bicicleta e xeretou as novidades do quintal, da cidade, do céu, da caixa de jogos. Que 2007 tenha um pouco disso tudo.

Um pouco atrasada a minha comemoração de novo ano.

Trabalhei nesses dias, por isso, agora invoco esse gosto de férias…

Ah! Como mais da metade das pessoas - de acordo com pesquisa da AC Nielsen em 46 países - pretendo manter o equilíbrio entre o trabalho e o tempo para diversão e emagrecer :D