Michel Serres, com quem divido o dia de nascimento, apareceu pelas mãos de meu amigo Sergio com algo menos banal e trivial. No meio da correria do fim de ano, das compras de Natal, das encomendas de trabalho de última hora, das tentativas em massa de superar alguma meta que se perdeu ainda em 2006. No meio do olho do furacão…

“Com certeza, ninguém pode trabalhar e escrever a não ser sobre a solidez cristalina da terra bem diferenciada, jamais sobre a fluidez da água, sobre o ar caprichoso, nem sobre o fogo intocável cuja travessia é fatal. A terra plena e escura espera pelo branco para que a escrita possa ser lida ou pelos fluidos transparentes para que possa frutificar.

Não podemos apenas fincar os alicerces, é preciso iluminar nossas escarificações para que a leitura e a compreensão possam ocorrer; não podemos apenas fazer sulcos, é preciso regar as plantas e as sementes aeróbias para que delas irrompam as frutas e as colheitas.

A terra precisa da água e das lágrimas derramadas pelo mar e pelo vento, dos soluços intermitentes e das chamas ardentes do fogo, porque é muito grande o brilho e a fecundidade que se originam da alegria e da dor das paixões.”

Michel Serres, O Incandescente, Imanência e transcendência elementares, pag. 95