Reconstrua o Hacienda! Com esse grito de guerra, a festa sob uma lona de circo foi memorável. New Order e outras bandas de Manchester tocaram em um parque de Londres para arrecadar fundos para um clube chamado Hacienda. Zilhões de anos depois é possível lembrar que era um daqueles dias cinza-ratinho típicos da ilha e que meu queixo caiu ao ver New Order tocar ao vivo pela primeira vez.
Não acreditei na Gillian Gilbert. Ela apertava uma tecla, virava as costas para o público, ia passear, voltava depois de um tempinho, apertava outra tecla, sumia. O som eletrônico era bom, dançante. Eu nunca tinha visto nada parecido. Só faltou ela esmaltar as unhas. Não era preciso tocar muito, não era preciso encantar. O que eu vi no meio do parque em 1987, entendo agora, era a pré-história das raves.
Hacienda era o clube de Anthony Wilson que estava na bancarrota. Quem? Tony Wilson. Um jornalista com antenas do tamanho da cena musical britânica, dono do selo Factory Records, do Hacienda e que ainda é apresentador de TV. Wilson foi biografado 2002 por Michael Winterbottom no filme “A Festa Nunca Termina” (Twenty Four Hour Party People), em cartaz na TV a cabo e na sua locadora. É possível ver alguns trechinhos no site Party People Movie .
Wilson tem ótimo radar. Viu um show dos Sex Pistols na modorrenta Manchester de 1976 e imediatamente entendeu que acontecia ali algo importante. Imagine que sensibilidade: olhar para Sid Vicious e perceber que a história da música ganhava dois novos verbetes: punk e, em seguida, new wave.
Winterbottom (que lança agora no FestRio “O caminho para Guantanamo”), reconstitui em seu filme um Hacienda divertido, vivo, frequentado no início por vocalistas suicidas como Ian Curtis do Joy Division e, anos depois, pelo fornecedor de ecstasy Bez, melhor amigo de Shaun Ryder, ambos do Happy Mondays.
Foi no Hacienda que as raves começaram a esquentar tamborins. Tony Wilson sempre percebeu para onde sopravam os ventos e seguiu todas as brisas. No filme de Winterbottom, seu personagem ilustra esse radar com um comentário. Olha para a cabine do DJ e, surpreso, comenta: “Eles estão aplaudindo o DJ!”
Instrumentistas e virtuoses, fora. Era a vez dos pilotos de batidas sincopadas, como bem já havia reparado Gillian Gilbert, a espertinha.
Love will tear us apart
O You Tube tem grandes momentos do Hacienda: Smiths, Birthday Party. “Love will tear us apart”, em especial, tem cara de documento histórico: mostra Tony Wilson, o Hacienda e até Gillian Gilbert com seu profético indicador sobre o teclado.
