O Jardim da Luz é poesia para a falta de rima dos condomínios fechados, portarias e crachás de identificação. Houve o desejo, depois um esforço. Isso bastou para que a ferida na urbanidade cicatrizasse. É a história de um parque que foi da lama à luz.

Vocação para a claridade, um tanto de inspiração, outro de vontade política mais o financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) trouxeram o Jardim da Luz de volta à geografia de São Paulo. Degradado, degradante, ele não tinha mais luz. As pessoas que passavam por lá tinham desistido de sonhar, olhavam para o chão, não notavam os bichos-preguiça na copa das árvores centenárias. Território do crack e da prostituição, o jardim estava quase morto para a cidade.
Exuberante, o Jardim da Luz saiu da prostração. Tem canteiros de rosas, lagos renovados, esculturas, policiamento, limpeza e muita gente. Vida. Prostitutas e gigolôs convivem com os estudantes que vão ao Museu da Língua Portuguesa e os visitantes das boas exposições da Pinacoteca. Imigrantes coreanos, sul-americanos e turistas europeus emprestam tons variados a esta colagem de tipos.
Criado em 1798 como um Jardim Botânico, o parque é de um tempo em que a capital era tão pequena que ele ficava em seus arredores. Hoje está no centro, perto do coração. Foi pasto para o gado, perdeu parte das terras em 1860 para os trilhos da Ferrovia São Paulo Railway e entrou no século 20 como um lugar sofisticado para ver e ser visto aos domingos.
Foi esse momento que meu avô Francisco guardou na memória. Na década de 20, ele tirou foto de terno e chapéu com um lambe-lambe. Até 1974, revela um estudo de Rubens Fernandes Júnior, havia ainda oito fotógrafos lambe-lambe no parque. Não há mais nenhum. Os bichos-preguiça ficaram. No sábado, um gavião devorou uma sabiá no ninho, diante do olhar atônito dos visitantes.

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