Unidos da cabaninha

Francisco é um ser tão sociável que convida alguém no ponto de ônibus para ir à nossa casa.

O homem segura um DVD (Paixão de Cristo). Francisco vem de bicicleta sem pedal pela calçada e para a poucos centímetros do homem. Encara.

Sua bicicleta é chamada de trainer, foi feita para treinar equilíbrio, tem pneu, breque e um sininho estridente como buzina. Ela deixa qualquer um pasmo. Parece que Francisco é um acrobata chinês, aos 2 anos ele anda na maior velocidade em uma bicicleta sem rodinhas. Ergue os pés, embala,  segura firme no guidão quando passa por buracos, desce rampa. Aos 2 anos e 8 meses, faz cada coisa que só eu sei. Juntos, percorremos as ladeiras do bairro em passeios memoráveis. Sua bicicleta não tem pedais, o que talvez explique alguma coisa. Talvez.

Diz ao homem no banco de ônibus:

- Eu também tenho DVD. Você precisa ir na minha casa ver.

O homem quase cai do banco e todo o pessoal que espera o ônibus acha graça. Francisco já está com plateia. Do lado de cá, a família que saiu para passear a pé se contorce e tenta disfarçar o riso. Imaginamos o figura da Paixão de Cristo lá em casa, assistindo a DVDs do Francisco. A consideração geral: esse aí vai dar trabalho.

Vislumbro para nós um futuro de casa cheia. A classe toda, os passageiros da perua, as crianças da praça, os amigos da rua, o time de futebol, o pessoal que estava na lanchonete, na loja, os colegas de alguma coisa feito skate, astronomia, banda, grupo de teatro, unidos da cabaninha.

Lua e a chuva

Lua e a chuva Lua e a chuva

São Paulo virou um deserto
com baldes de água nos quartos.
Toalhas encharcadas,
umidificadores.
Que venha a chuva.

Esse deserto com poeira entre nuvens de poluição.
Cinzas e acobreadas, essas nuvens, um espetáculo da janela.
São Paulo sonha com a chuva. Enxergo nuvens e miragens.
Ontem terra da garoa, hoje anseio por água.

Que venha chuva limpinha,
fresca, renovadora,
com enxurrada para levar barco de papel
e mais nada. Ah. E mais nada.

Chuvinha besta, que dispensa o auxílio chuvuoso de um guarda-chuva.
Chuvinha discreta e fina.
Paulistana chuva que a lua observa.
Garoa fina e elegante.

Garota.

Vestida para Espantar Gente na Rua

Miki W. lança nesse sábado, na Livraria da Vila (em São Paulo),  o livro infantil “Vestida para Espantar Gente na Rua”. Até lá, morro de curiosidade.

O convite é para levar as crianças e brincar de vestir roupas divertidas e imaginar mundos e modos.

Francisco, eu e Renato vamos. Vamos também?

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“Uma menina criativa que usava roupas diferentes, tão diferentes que acabava assuntando gente na rua, de tanto que chamavam a atenção.

Vestindo-se e desvestindo-se foi descobrindo a si mesma. Entendeu como uma gostosa brincadeira inventar novas formas de se vestir e acaba formando um clubinho onde estas diferenças no ser e no parecer são bem aceitas. O livro convida a todos a aceitarem o jeito como são, a aceitar o outro como ele é, de procurar uma forma divertida e criativa de olhar para as diferenças”, diz o texto de divulgação.

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Esse é o primeiro livro infantil da Editora Estação da Letras e Cores, que tem vários títulos ligados à moda.

Para lá e para cá

  • Tem twitter também: @euespantogente


Fotografar o ar

Minhas impressões das instalações de Iole de Freitas e de Carlito Carvalhosa na Pinacoteca de São Paulo. A de Carlito Carvalhosa tem um nome lindo: A Soma dos Dias. Você passeia por ela e se sente bem, aéreo. A instalação de Iole de Freitas é bacana. Dialoga com a arquitetura da Pinacoteca, agradável revelação.

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Com roteiro de cinema iraniano

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Abbas Kiarostami, sabe?

Pausa

espaços

silêncios

vazios

E um acontecimento.

Anima Mundi e a febre da animação

Vi algumas das animações vencedoras da 18ª edição do festival Anima Mundi em São Paulo. Madagascar, carnet de voyage, de Bastien Dubois, prêmio da direção do festival, arrasou, como você pode ver por essa palhinha aqui:

Saí da toca (literalmente e também aqui no blog) por um bom motivo.

A Universidade de Buenos Aires (UBA) foi convidada a mostrar a produção dos alunos e a debater o ensino acadêmico de animação. Marlene Nascimento, brasileira responsável pela cátedra de animação na UBA (que pertence à faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design, enquanto na USP, por exemplo, isso é assunto de Audiovisual na Faculdade de Comunicações e Artes), aproveitou para visitar o Brasil.

Por meio dela, fiquei sabendo que o Brasil experimenta uma espécie de frenesi na área. Falta até mão de obra. Há projetos em 3D. A indústria mantém o mercado aquecido. Canais de TV a cabo encomendam projetos e também compram séries prontas. “Cecilinha”, “Amigãozão”, “Peixonauta” são nomes que estão ou estarão na boca da criançada.

Um dos organizadores do festival, durante a entrega de prêmios, confirmou – “Enquanto os animadores passam por dificuldades fora do Brasil, aqui estamos em um momento de expansão”. Quem diria, quem diria. Marlene verbalizou nossa surpresa: ” E pensar que esse festival nasceu porque um dia umas pessoas de repente disseram: Vamos fazer um festival de animação?”

Gostei muito de outro filme que vi, “Pombinha Branca”. Terceiro lugar tanto na categoria de melhor filme de estudante quanto na categoria de melhor curta brasileiro, a animação dirigida por Fernando Augusto Dias da Silva só foi exibida depois de aplausos e uivos da platéia que esteve nesta noite de domingo, dia 1º, no Memorial da América Latina.

Uma surpreendente população de interessados em desenhos animados. Ouvi dos organizadores que 110 mil pessoas passaram pelo festival e que somente no sábado o público foi de 11 mil.

É febre ou não é febre?

Suíços do Brasil: história da imigração está no ar

escola Nicolau Flue Helvetia

Nessa foto de 1927, meninas em um intervalo da escola São Nicolau de Flüe, da Colônia Helvetia, (Acervo Dra. Lotte Köhler – Carlota Schmidt Memorial Center)

“Cada imigrante suíço que desembarcou no Brasil trouxe na bagagem um pouco de seu país. A motivação da viagem varia conforme a época e a história individual: fuga da pobreza, motivos religiosos e ideológicos, busca de liberdade, gosto pela aventura, projetos pessoais ou profissionais, curiosidade científica, globalização da economia.”

Ajudei a compor essa história que o projeto Suíços do Brasil conta sobre a imigração suíça no Brasil. É com prazer que vejo os textos, imagens, entrevistas e pesquisa que compõem o projeto disponíveis também pela web. Trabalhar nesse projeto foi apaixonante e complexo. A síntese de tantas histórias e vivências precisava resultar em uma experiência que transmitisse sabores, cores e experiências de uma saga, de um povo que veio fazer o Brasil.

Por isso é muito agradável encontrar o material na web, pronto para consulta a um clique. Ficou bonito o resultado.

Suíços do Brasil

Quem vê a Copa na TV digital grita gol depois

tv_digital tecnologia e gambiarras

Assisti ao primeiro jogo do Brasil no escritório, que tem a TV mais antiga. Ali, as crianças faziam miséria na cadeira de balanço e pulavam na frente da tela, em ambiente de dispersão total. (No problema, foi um joguinho sem vergonha mesmo).

Nesta salinha do público café-com-leite gritamos gol antes dos que assistiam ao jogo na sala diante de uma tela plana com transmissão digital. Foi ridículo: com tanta tecnologia, eles souberam pelas crianças (e pela TV analógica a cabo) que o Brasil escapou do vexame inexplicável diante da Coréia do Norte. Gol!

Achei (via GJol) uma explicação para o curioso delay, dada por Luís Sucupira Neto: o sinal digital vai até o satélite (faz baldeação, portanto), volta, é decodificado e comprimido (precisa ser lavado, escovado e embalado) para somente então chegar ao consumidor final. O analógico não precisa de tanto tratamento. E o radinho de pilha, quem diria, ganha em velocidade dos dois.

Para os malucos por futebol – 99,8% dos brasileiros – recomenda-se um radinho de pilha na orelha para acompanhar a imagem lindona da tela plana. Só rindo.

Ou como diz o @renatotarga, meu querido: “Malucos por futebol com radinho de pilha? É smarthphone de última geração com headphone bluetooth (exceto iPhone, que não tem sinal FM)”.

Mapão do desempenho do Brasil

Nesse infográfico lindo do Estadão dá para monitorar a performance da seleção brasileira em cada partida em mundiais, desde a estreia em 1930. Outra dica do GJOL.

Fotografia: prêmios Syngenta e HTTPpix

curvas curvas

Você pode participar de dois concursos de fotografia, com inscrições ainda abertas. Copio as informações do material de divulgação:

Syngenta
Inscrições até 20 de junho.

O tema é “dar vida ao potencial das plantas”. Os vencedores receberão como prêmios equipamentos da Canon nos valores de US$ 8 mil, US$ 5 mil e US$ 3 mil para os três primeiros colocados. Podem se inscrever tanto fotógrafos amadores como profissionais.

As imagens devem explorar temas relacionados à agricultura moderna, incluindo paisagens, plantas, comunidades e tecnologias.

HTTPpix

HTTPpix é um festival de fotografia on-line que acontece via Flickr. Inscrições até 14 de junho. Prêmios de R$1.500,00. O tema é “Carregue sua Marca”. Veja as fotos no grupo HTTPpix

O HTTPpix convida o público a discutir de forma criativa o consumo e a “gift economy” (economia de doação). Além disso, pretende dar visibilidade a fotógrafos e artistas visuais brasileiros ou residentes no país e ampliar o repertório estético dos usuários da Internet.

O Festival acontece no Flickr e está aberto a participantes de todo o país, sem limite de idade. Três finalistas ganharão prêmios de R$1.500 cada. HTTPpix é uma realização do Insituto Sergio Motta e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, com apoio do Yahoo e da Agência Click.

Paulo Francis

paulo francis

Paulo Nogueira escreve sobre Paulo Francis com a elegância necessária. Francis, como nós, jornalistas, chamávamos o mito, podia pecar em qualquer coisa, menos em estilo. Tinha um estilão.

Comecei a ler sua coluna, “Diário da Corte”, publicada a partir de 1977, ainda menina. As ilustrações, assinadas por Mariza, traziam desenhos bastante surreais, envoltos em bolhas, corpos distorcidos. Texto, ilustração, estilo e autor eram agradavelmente dissonantes naqueles tempos de fim da ditadura militar.

Paulo, o Nogueira, encarou a missão impossível de entender e explicar um jornalista tão complexo sem costurar trechos e mais trechos de citações. Considero uma proeza, pois é irresistível pinçar frases de efeito de Francis, que soube ser engraçado e delicioso em um sem fim de vezes. Mas seria uma pescaria barata.

“Barata Descascada”, xingou Francis a certa altura de uma briga sem eira nem beira com Caio Túlio Costa. Agradavelmente dissonantes, esses episódios de cordialidade zero que Francis colecionou estão todos na reflexão sobre seu talento para a polêmica, sem chegar a ser o melhor da festa.

“Paulo Francis, Polemista Profissional”, lançamento da Imprensa Oficial, acompanha o mito com um olhar original, com o conhecimento de quem vivenciou esse  jornalismo que reuniu condições para a existência de um Francis.

Ao ler o livro, posso sentir o cheiro do café ruinzinho do Estadão e da Folha quando Nogueira conta que Francis dizia que os editores às vezes eram mais realistas que o rei. Nogueira é narrador ímpar. Acompanhou, vivenciou e resmungou com o próprio Francis sobre os azares da corte.

Paulos, vocês juntos estão ótimos.

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